UOL Notícias Internacional
 

21/10/2005

Inverno ameaça sobreviventes de tremor na Ásia

The New York Times
Somini Sengupta, em Islamabad, e

David Rohde, em Balakot, Paquistão
ONU e grupos de ajuda privados disseram nesta quinta-feira (20/10) que a necessidade urgente de abrigar até 3 milhões de paquistaneses sobreviventes do terremoto antes da chegada do severo inverno himalaio, está ameaçando se tornar um dos maiores desastres humanitários já enfrentados pelo mundo.

Se somando aos problemas apresentados pelo simples número de pessoas desabrigadas --três vezes mais do que as afetadas pelo tsunami no Oceano Índico em dezembro passado-- estão o terreno montanhoso e um inverno que provavelmente chegará em menos de três semanas, isolando aldeias atingidas nas montanhas, ao norte, do restante do país até a primavera.

Mesmo assim, seja por fadiga após um ano de desastres naturais aparentemente intermináveis ou simplesmente porque o terremoto atingiu o Paquistão, disseram autoridades de ajuda, a resposta internacional tem sido fraca. Mesmo diante da destruição épica, os doadores estrangeiros até agora garantiram menos de US$ 90 milhões, ou menos de um quarto dos US$ 312 milhões que a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que serão necessários para a ajuda humanitária imediata.

"É a crise humanitária mais difícil de todas", disse Andrew Macleod, diretor de operações do Centro de Coordenação de Emergência da ONU, em Islamabad, "pois a escala é imensa, a logística é muito difícil e há um inverno brutal se aproximando".

Nos últimos dias, enquanto seu escritório avaliava os danos por todas as aldeias distantes que pontilham as montanhas do Himalaia, as estimativas mais críveis revelaram ser "o pior cenário", disse Macleod.

"Nós nunca vimos algo assim", ele acrescentou. O terremoto atingiu uma área montanhosa, isolada, de cerca de 28.500 quilômetros quadrados, cerca do tamanho do Estado de Maryland.

O número de mortos subiu para 49.700, disse o chefe de resposta ao desastre do Paquistão, o general-de-divisão Farooq Javed, na quinta-feira. Os feridos chegam a 74 mil. O terremoto atingiu partes da Província da Fronteira Noroeste e a parte da Caxemira controlada pelo Paquistão.

Cerca de 1.300 pessoas morreram e 30 mil famílias ficaram desabrigadas na área vizinha da Caxemira controlada pela Índia, país que nesta semana disponibilizou linhas telefônicas para que as famílias de seu lado se comuniquem com amigos e parentes no lado paquistanês.

Em uma coletiva de imprensa na noite de quinta-feira, o presidente do Paquistão, o general Pervez Musharraf, sugeriu que a Linha de Controle, que divide as partes paquistanesa e indiana da Caxemira, também seja aberta.

A Índia, que enviou três contingentes de ajuda a terremoto ao Paquistão, aceitou a proposta em princípio, mas disse que aguarda detalhes sobre como funcionará. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Paquistão, Tasnim Aslam, disse na noite de quinta-feira que discussões sobre a logística estão em andamento em seu governo.

É extremamente difícil imaginar a amplitude da crise e decidir como responder. É quase impossível contar o número de aldeias e lares espalhados pelas montanhas e não existe um censo preciso da população.

Entre as poucas estradas que cruzam os vales e montanhas, muitas foram interrompidas e a continuidade dos tremores secundários tem causado deslizamentos que as bloqueiam novamente. As pessoas que vivem nas montanhas são incapazes ou não estão dispostas a abandonar suas terras para descer para as terras baixas, onde a ajuda está disponível.

Mesmo com helicópteros do exterior, há menos de 80 helicópteros em operação no momento no país, 12 dias após o terremoto. As autoridades da ONU disseram que precisam de muito mais. Talvez na maior declaração de necessidade, não há tendas para tempo frio suficientes no mundo para abrigar o que a Organização Internacional de Migração estima que sejam 550 mil famílias desabrigadas pelo terremoto.

A neve certamente chegará antes que possa ser feito o suficiente. Não se sabe como tantas pessoas farão para sobreviver ao inverno sem abrigo. Autoridades da ONU estimam que serão dezenas de milhares.

"Eu acho que há a necessidade da comunidade mundial perceber a enormidade do desafio que estamos enfrentando, devido à natureza do terreno e da devastação", disse Javed em uma entrevista aqui, na tarde de quinta-feira.

Raphael Sindaye, o coordenador de ajuda para Sul da Ásia da Oxfam, o grupo de ajuda internacional, descreveu sua situação difícil. Um dia após o terremoto, ele decidiu encomendar 60 mil tendas, para abrigar cerca de 300 mil pessoas.

Então ele olhou para a disponibilidade de tendas: seriam necessários quatro meses, já na metade do inverno, para que todas as tendas pudessem ser entregues. Na quinta-feira, ele disse, ele cortou pela metade sua encomenda de tendas. Se grupos de ajuda como o dele forem forçados a reduzir suas encomendas de tendas, ele se perguntou em voz alta, o que será do restante dos desabrigados?

"Eu realmente temo que a comunidade internacional não será capaz de lidar com o desastre", disse ele, "simplesmente porque não podemos chegar até as pessoas".

Ele disse que agora planeja perguntar aos sobreviventes o que poderiam usar para construir seus próprios abrigos. "Eu espero que as pessoas de lá nos digam: 'Se tivermos isto, isto e isto, nós conseguiremos fazer isto, isto e isto' e sobreviver", ele disse. "Eu não consigo imaginar o que isto seria."

Destruição nem sempre inspira generosidade. Para combater a fome em Níger, a ONU pediu US$ 81 milhões mas só obteve menos de US$ 43 milhões. Por outro lado, segundo a ONU, 80% do apelo de emergência para o tsunami de dezembro foi levantado em menos de 10 dias após o desastre. Para ajudar o Paquistão, os doadores estrangeiros deram até agora US$ 86 milhões dos US$ 312 milhões necessários, ou menos de 30%.

"Isto não é o suficiente", disse o alto emissário de ajuda da ONU, Jan Egeland, em uma coletiva de imprensa na manhã de quinta-feira, em Genebra. "Nós nunca tivemos este tipo de pesadelo logístico antes. Nós achávamos que nada poderia ser pior que o tsunami. Isto é pior."

O tsunami, apesar de ter matado quatro vezes mais pessoas, desabrigou apenas um terço do número de pessoas desabrigadas pelo terremoto no Paquistão, e a entrega de ajuda foi muito mais simples em terreno plano próximo do mar. O número de desabrigados aqui faz parecer pequeno até mesmo os dois milhões de deslocados pelo conflito na região de Darfur, no Sudão. A Guerra do Golfo Pérsico de 1991 transformou 1,5 milhão de curdos iraquianos em refugiados em questão de dias.

A Organização Internacional de Migração, que está encarregada da criação de campos para os deslocados, estima que 62 mil tendas foram enviadas para as áreas afetadas.

Ninguém está disposto a dizer quantas pessoas terão que se virar sem tendas assim que a neve chegar. Grupos de ajuda estão enviando de tudo, de lonas e chapas de zinco até pregos e martelos para ajudar as pessoas a levantarem algo a partir dos escombros de suas casas. Aviões da Otan começaram a levar 900 toneladas de ajuda na quinta-feira.

A ajuda provavelmente chegará àqueles que puderem chegar até as terras mais baixas ou estradas abertas para os comboios de ajuda. Vários campos começaram a ser montados para as pessoas dispostas a se mudarem para eles. Quantas não serão capazes ou não vão querer deixar suas terras nas montanhas continua sendo a dúvida perturbadora.

"Você tem os mais fortes e saudáveis descendo e se mudando para as tendas", disse a porta-voz da Unicef aqui, Katey Grusovin. "Mas ainda há crianças e idosos que continuam lá no alto."

Helicópteros, mulas e soldados paquistaneses continuavam levando ajuda às aldeias mais distantes na quinta-feira. Dia a dia, à medida que o frio aumenta, a janela de ajuda se fecha cada vez mais. Logo os sobreviventes terão que se virar com o que têm até a primavera.

"O que tiverem em 1º de dezembro é o que terão ao longo de todo o inverno", disse Macleod, do Centro de Coordenação de Emergência da ONU. Ajuda externa a vítimas é insuficiente; 3 milhões estão sem abrigo George El Khouri Andolfato

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