UOL Notícias Internacional
 

23/10/2005

Disputa eleitoral na Virgínia gira em torno de governador democrata popular

The New York Times
James Dao

em Leesburg, Virginia
O nome do governador Mark Warner não estará nas cédulas eleitorais em 8 de novembro, no Estado de Virginia, mas às vezes é difícil perceber este fato.

Impedido de cumprir um novo mandato segundo a constituição estadual, ainda assim é ele que recebe os aplausos mais altos quando comparece a eventos da campanha democrata para o governo do Estado. E, nesses eventos, o democrata que está no páreo para sucedê-lo, o vice-governador Tim Kaine, fala sobre Warner e sobre a administração Warner-Kaine quase como se falasse de si próprio.

Até mesmo o candidato republicano, o ex-procurador-geral Jerry Kilgore, raramente critica e às vezes até elogia discretamente Warner, embora diga que Kaine é "muito liberal para a Virginia".

"Tim Kaine não é Mark Warner", costuma dizer Kilgore.

Essa disputa se constitui em uma das duas eleições para governador deste ano. A outra é a de Nova Jersey, e ambas estão sendo acompanhadas com atenção como testes para o presidente Bush, cuja queda nas pesquisas de opinião alarmaram os republicanos que se preparam para as eleições de 2006.

A disputa eleitoral em Virginia é também profundamente importante para Warner, já que ele não só deseja estender o seu legado democrata neste Estado dominado pelos republicanos, mas também porque o governador está de olho em uma futura campanha para presidente dos Estados Unidos, em 2008.

Segundo os analistas, ajudar o seu partido a manter o controle sobre a Virginia é algo que fortaleceria as credenciais de Warner como democrata conservador na área fiscal, que se opõe a certas medidas para controle de armas, apóia a pena de morte e é capaz de vencer no sul.

Assim sendo, Warner está apoiando abertamente Kaine, arrecadando verbas, fazendo propaganda política e viajando pelo Estado, a fim de ajudar aquele que escolheu como seu sucessor.

"Se Kaine ganhar, isso fará de Mark Warner um candidato nacional viável", afirma Jennifer Duffy, editora de "The Cook Political Report", um informativo apartidário. "Mas, se ele perder, tal fato poderá fazer com que a vitória de Warner em 2001 seja vista como um simples golpe de sorte".

Como o Estado está em uma situação fiscal relativamente boa, não enfrentando nenhuma grande crise, não há nenhuma questão crítica dominando a campanha.

Para preencher esse vácuo, os candidatos têm recorrido a ataques ásperos, e às vezes hiperbólicos, contra os adversários, afirmando que o oponente é fraco, mal-intencionado e desonesto.

"Não podemos confiar em Tim Kaine", é o mote da campanha de algumas das propagandas eleitorais de Kilgore.

"O povo pode confiar nele?", responde o comitê de propaganda de Kaine, nos seus panfletos de campanha.

O senador estadual H. Russel Potts Jr., um republicano moderado, também está no páreo, e conta com 5% das intenções de voto, segundo as pesquisas de opinião.

Essas pesquisas mostram que os dois principais candidatos estão praticamente empatados. Nos últimos dias, Warner intensificou a sua campanha em favor de Kaine. Quando viaja pelo Estado, Warner muitas vezes parece estar se apresentando como candidato para o eleitorado.

Em uma entrevista coletiva à imprensa, na segunda-feira passada, ao lado de Kaine, em uma estação ferroviária, Warner acusou Kilgore de prometer tudo, "deixando que nós nos preocupemos sobre como pagar a conta mais tarde".

"Esse é o estilo político de Washington", criticou o governador.

Em uma entrevista naquele mesmo dia, Warner afirmou que a sua abordagem "pragmática" em Richmond contrasta vivamente com o partidarismo explícito de Washington, "onde nada se faz".

Em um evento de café-da-manhã com Kaine, em Leesburg, um próspero subúrbio da zona metropolitana de Washington, Warner ouviu elogios que, embora tivessem como objetivo promover Kaine, poderiam também impressionar um eleitor democrata de Iowa. Entre tais elogios incluem-se aqueles referentes à elevação do índice de conclusão no ensino médio, a pontualidade dos trens e o superávit orçamentário.

Em meio ao relato desta lista de sucessos, Warner fez uma pausa para acalmar os correligionários, enquanto Kaine aguardava em silêncio o momento de fazer o seu discurso.

"Por mais que eu adore os aplausos, deixem-me continuar esta litania, caso contrário não terminaremos nunca", disse o governador.

Mark Rozell, professor de políticas públicas da Universidade George Mason, explica que a estatura de Warner está "estabelecendo os limites" sobre aquilo que os candidatos podem falar a respeito dos adversários.

"Kilgore não pode atacar a administração", argumenta Rozell. "E Kaine não consegue se diferenciar do governador, já que Warner é tão popular".

Contrastando com a situação no campo democrata, Kilgore, 44, um ex-promotor que renunciou ao cargo de procurador-geral na primavera para disputar o governo do Estado, não vinculou acentuadamente a sua imagem à de Bush.

Embora Bush, Laura Bush e o vice-presidente Dick Cheney tenham ajudado Kilgore a arrecadar verbas, ele raramente menciona o presidente, cujos índices de aprovação em Virgínia, que no passado eram bastante altos, estão agora na faixa dos 40%, quase 20 pontos percentuais abaixo dos números de Warner.

Apesar de ser um inimigo ferrenho dos impostos, Kilgore propôs que se permitisse que os governos locais elevassem o impostos sobre transporte, case eles contem com a aprovação dos eleitores.

Ele também atacou o orçamento de 2004, que acabou com um quadro deficitário, e que foi considerado uma das maiores realizações de Warner, alegando que o resultado foi fruto do aumento de certos impostos. Mas Kilgore não chegou a dizer que revogaria tais aumentos.

Nas últimas semanas ele tem concentrado grande parte do seu discurso de campanha nas críticas ao fato de Kaine se opor à pena de morte. Em duas propagandas de TV que começaram a ser veiculadas na semana retrasada, Kilgore ataca Kaine por este ter atuado como advogado na defesa de indivíduos acusados de homicídio, e sugere que o seu adversário procuraria perdoar os sentenciados que aguardam a execução, ou ainda que o seu oponente acabaria com a pena de morte no Estado.

Em uma dessas propagandas, um pai cujo filho e nora foram assassinados, diz: "O senhor Kaine diz que Adolf Hitler não atenderia aos requisitos para ser condenado à morte".

Judeus que apóiam a campanha de Kaine criticaram a propaganda, alegando que ela explora indevidamente o Holocausto. Kaine disse que ela distorceu as afirmações feitas por ele em uma entrevista a um jornal, na qual disse que Hitler e outros ditadores assassinos "merecem a pena de morte", tendo, entretanto, questionado também a eficácia da pena capital como forma de coibir a criminalidade.

"Deus concede a vida", disse ele em uma entrevista. "É Deus quem deveria tirá-la".

Kaine, um católico que diz que se opõe à pena de morte devido à sua religião, já apoiou uma moratória das execuções no passado, mas atualmente diz que manterá a lei estadual em vigor.

Em uma entrevista, ele afirmou que não tentará acabar com a pena de morte porque tal legislação possivelmente não seria aprovada em Virginia.

Alguns especialistas dizem que as propagandas de Kilgore poderiam vitalizar a sua base conservadora e ajudar a separar Kaine de Warner, que apóia a pena de morte. Mas outros dizem que ele se arrisca a perder o apoio dos eleitores independentes.

Nascido no Estado de Missouri, Kaine, 47, se mudou para Richmond após se casar com uma amiga da Escola de Direito da Universidade Harvard, a filha do ex-governador A. Linwood Holton Jr., e já foi vereador e prefeito naquela cidade.

Embora ele se refira com freqüência à administração "Warner-Kaine", os dois não disputaram a eleição na mesma chapa em 2001.

Kaine tem focado a sua campanha mais nas questões de transporte e desenvolvimento, defendendo o uso dos impostos sobre a gasolina e os seguros de automóveis para o financiamento da melhoria dos transportes, e a permissão para que os governos municipais possam rejeitar projetos locais, caso as suas estradas não sejam capazes de suprir as necessidades dos novos projetos.

Quando lhe perguntam se ele teria feito algo diferente do que fez Warner, Kaine hesita. Ele também repele as afirmações de que é incapaz de escapar da sombra de Warner.

"O fato de o governador ser popular é um grande trunfo para mim", disse Kaine.

Kilgore desprezou tal afirmação, retrucando: "É algo como tentar andar ao lado do garoto mais popular da escola. Isso não torna ninguém mais popular".

Warner tem dedicado os seus últimos meses no governo à preparação de um orçamento, ao apoio a umas pequenas legislações de fim de mandato e ao estabelecimento das bases de uma operação política nacional.

Ele criou um comitê federal de arrecadação de verbas e contratou Monica Dixon, uma ex-assessora do vice-presidente Al Gore, como sua assessora. Warner também visitou Iowa, o Estado no qual haverá a primeira convenção na campanha presidencial.

Um milionário que fez fortuna com esforço próprio, Warner, 50, não deverá concorrer no ano que vem contra o senador George Allen, republicano e ex-governador. Mas ele diz que há uma outra eleição da qual poderá participar, a campanha pelo governo estadual de 2009.

"Há momentos em que digo a mim mesmo que não gostaria de deixar o cargo", afirmou Warner à imprensa. Danilo Fonseca

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