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23/10/2005

Na eleição argentina, duas lutam para vestir o manto de Evita

The New York Times
por Larry Rohter

em Buenos Aires, Argentina
Desde Evita Perón, o movimento peronista tem tido sucesso em usar mulheres para tentar mobilizar seus seguidores. O general Juan Domingo Perón usou sua esposa, durante sua vida e após a morte precoce dela, para se ligar às massas, e mais recentemente Carlos Saul Menem até mesmo se casou com uma ex-Miss Universo, supostamente visando reviver sua decadente carreira política.

Mas o partido dominante da Argentina pode ter se superado desta vez. Substituindo seus maridos na luta pelo controle da máquina do partido, a atual primeira-dama e sua antecessora estão se enfrentando em uma luta amarga por uma cadeira no Senado.

Na dura campanha que antecedeu as eleições de domingo, no confronto que a imprensa local está chamando de "a mãe de todas as batalhas", ambas as mulheres se apresentaram como herdeiras de Evita. Mas Cristina Fernandez de Kirchner, a esposa do presidente Nestor Kirchner, e Hilda Beatriz Gonzalez de Duhalde, a esposa do ex-presidente Eduardo Duhalde, diferem acentuadamente em formação e estilo político e parecem concordar em pouca coisa, incluindo a natureza do legado de Evita.

Até sua morte por câncer em 1952, aos 33 anos de idade, e sua transformação em mártir, Eva Duarte de Perón, conhecida como Evita, era considerada a "mãe dos pobres". Ela atuava não apenas como conselheira e confidente de seu marido, mas também como a agente mais visível dos benefícios de seu governo. Ela foi a benfeitora que lutou por, e conseguiu, habitação de baixo custo, férias remuneradas, redução da jornada de trabalho e um teto para os preços dos alimentos para ajudar "los descamisados", as massas trabalhadoras.

Em sua campanha, Hilda Duhalde, que estava encarregada dos programas sociais do governo durante os 17 meses da presidência de seu marido, tem apontado aos eleitores sua origem humilde, seus anos como dona de casa e o fato dela, e não sua oponente, ter conquistado o direito de aparecer na cédula como candidata peronista. Em um comício na segunda-feira, em Lanus, um subúrbio operário de Buenos Aires, Hilda Duhalde, conhecida como Chiche, chegou perto de chamar Nestor Kirchner de apóstata e sua esposa de aproveitadora.

Por sua vez, Cristina Kirchner se apresentou como a versão argentina da senadora Hillary Rodham Clinton, a quem ela declaradamente admira, e tem buscado conquistar votos além do eleitorado peronista. Uma advogada de 53 anos que está com uma vantagem confortável segundo as pesquisas, Cristina Kirchner já ocupa uma cadeira no Senado, representando a província natal de seu marido, Santa Cruz, na Patagônia. Mas ela aumentará enormemente seu poder, assim como o de seu marido, se conquistar a chance de representar a província de Buenos Aires, lar de cerca de 40% dos 38 milhões de argentinos.

Com um terço das cadeiras do Senado e metade das cadeiras da Câmara em disputa no domingo, Kirchner espera não apenas colocar sua esposa em tal cadeira e melhorar sua imagem, mas também obter uma maioria leal no Congresso. Lá, Eduardo Duhalde ainda controla a delegação de Buenos Aires, a maior no Congresso, e tem bloqueado iniciativas que ampliariam a popularidade do rival ou a governabilidade.

Apesar de nem Kirchner e nem sua esposa falarem sobre seus planos, a imprensa está convencida de que eles estão tentando formar uma dinastia para superar os Perons. Segundo tal especulação, Kirchner certamente tentará a reeleição em 2007 e então abrirá o caminho para sua esposa, caso se eleja duas vezes, que deixaria o governo apenas no final da próxima década.

"Nosso projeto é apostar em uma nova pátria, uma nova história", disse Cristina Kirchner, com o presidente ao seu lado, na noite de quinta-feira enquanto seus simpatizantes acenavam pôsteres de Evita Perón no comício de encerramento de campanha. "Esta não é apenas mais uma eleição", ela acrescentou, mas uma tentativa de "fechar uma página do passado e olhar para o futuro".

Os Duhaldes, ela disse, são parte de tal passado manchado. Sem mencioná-los nominalmente, Cristina Kirchner criticou aqueles que "devastaram a província e que agora dizem que vão fazer o que não fizeram por anos", enquanto seu marido, ela disse, "reduziu o desemprego para a taxa mais baixa em 15 anos" por meio de um programa de "trabalho, produção, exportação e consumo".

Colocar sua esposa na linha de frente foi apenas uma medida tomada por Kirchner em sua luta para afastar Duhalde.

No altar de uma catedral, ele pediu recentemente pela ajuda e apoio dos eleitores, sendo repreendido pelo bispo, e em um discurso nesta semana, comemorando o 60º aniversário do levante popular que levou Perón ao poder, ele citou suas raízes peronistas -o que levou os cartunistas a o retratarem como o animal mais associado à região- para fazer um apelo semelhante.

"Há um pingüim que por si só vem lhes pedir que ajudem a continuar mudando a pátria", ele disse. "Lembrem do pingüim quando forem dar o seu voto."

A batalha de Duhalde e Kirchner pelo Senado mantém a recente tendência na qual o movimento peronista busca resolver suas disputas internas em público, nas urnas, em vez de em negociações nos bastidores, como era sua tradição. Quando Kirchner concorreu à presidência em 2003, por exemplo, ele era um dos três candidatos peronistas, incluindo Menem e outro ex-presidente. Ele venceu conquistando apenas 22% do voto popular.

No governo, ele tem provado ser imprevisível mas popular, se lançando como um iconoclasta e uma força inflexível por mudança, sem medo de desafiar as forças armadas, o Fundo Monetário Internacional ou as corporações multinacionais. Ele conta com um índice de aprovação de mais de 60%, uma queda de 10 pontos em comparação ao início do ano, mas mesmo assim resolveu transformar as eleições em um plebiscito sobre sua atuação no governo.

"Popularidade é uma coisa, mas poder é outra", disse Graciela Romer, uma consultora e analista política daqui. "E o que este governo precisa é de poder, não popularidade."

Os críticos de Kirchner na direita o acusam de, assim como os líderes peronistas do passado, ter subordinado políticas econômicas seguras aos seus interesses políticos. Os gastos do governo em projetos como estradas e habitação popular saltaram, enquanto os pedidos das prestadoras de serviços públicos de compensação pelas perdas que sofreram na imensa desvalorização da moeda, em 2002, têm sido negados.

Além disso, aumentos salariais para funcionários públicos, aposentados e alguns trabalhadores do setor privado aumentaram a pressão inflacionária. A meta de inflação para todo o ano foi ultrapassada e a maioria das projeções para 2005 agora coloca a inflação acima de 10%, longe dos aumentos anuais de quatro dígitos experimentados pela Argentina no passado, mas ainda preocupante em um país onde os salários reais e o investimento têm caído.

Como é freqüentemente o caso aqui, também há acusações de compra de votos. Neste mês, um candidato socialista prestou queixa de que o governo está distribuindo máquinas de lavar roupa e outros aparelhos para os eleitores da província de Buenos Aires votarem na chapa dos Kirchners.

Como ministra do Bem-Estar Social, Alicia, a irmã de Kirchner, que está concorrendo ao Senado pela província natal da família, a Patagônia, à cadeira atualmente ocupada por Cristina Kirchner, é responsável pela distribuição de bens e serviços aos pobres.

Ela disse que está apenas continuando um programa existente há muito tempo, e o chefe da Casa Civil de Kirchner, Alberto Fernandez, rejeitou a acusação de compra de votos como uma intriga de campanha de "um setor da oposição dedicado a táticas de difamação". George El Khouri Andolfato

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