UOL Notícias Internacional
 

23/10/2005

Quem tem medo de Sarah Schulman?

The New York Times
por Jesse Green

em Nova York
Vários dias por semana durante o ano letivo, a romancista e dramaturga Sarah Schulman pega um metrô, uma balsa e dois ônibus para ir de seu pequeno apartamento no sexto andar (sem elevador) no East Village até uma sala apertada no College of Staten Island, onde ela é professora catedrática de inglês. Seus alunos neste semestre -- até 40 em cada classe -- incluem ítalo-americanos, afro-americanos, iemenitas, dominicanos, haitianos, libaneses, azerbaijanos, bengaleses, chineses, coreanos, russos, albaneses da Albânia e albaneses de Kosovo. "Alguns mal conseguem ler em voz alta, e algum sabem cinco línguas", disse Schulman. Em todo caso, na segunda semana ela aprendeu seus nomes e também o que eles significam.

Se Schulman se esforça tanto para alcançar seus alunos, talvez seja em parte porque o mundo, como ela o vê, nunca fez o mesmo por ela. Por exemplo, Schulman não teve tanto sucesso quanto acha que merece. Sim, foi reconhecida: seus sete romances publicados e duas obras de não-ficção ganharam muitos prêmios (ela foi finalista no Prix de Rome), enquanto suas peças lhe conseguiram a maioria das residências e bolsas cobiçadas. Mas ainda há aquela escada até o sexto andar, as duas horas de transporte coletivo para chegar ao trabalho e o constante esforço para conseguir que os teatros montem suas peças, enquanto alguns autores que considera seus pares lutam muito menos e têm, como ela diz, "mais opção pessoal sobre quais de suas peças serão produzidas".

Schulman acha que existe um simples motivo pelo qual não está entre eles: ela é uma lésbica que escreve abertamente sobre lésbicas em um setor amplamente dominado por homens. "Muitas vezes, trabalhos que reforçam as fantasias dominantes sobre pessoas oprimidas são inflados além de seu mérito", ela explicou em um e-mail, prudentemente omitindo o título das obras a que se referia. Enquanto obras como as suas, disse Schulman, abordam a opressão de uma "perspectiva mais autêntica" e portanto são impiedosamente marginalizadas.

Embora seu discurso seja armado de gíria, o efeito geral é atenuado, em pessoa, por sua simpatia quase maternal. Em particular, ela foi uma mentora carinhosa de muitos jovens escritores, alimentando-os com incentivo e refeições caseiras. Mesmo durante nossa entrevista, ela às vezes segurava minha mão para enfatizar um ponto importante e falava num sussurro. Ainda assim, várias vezes me vi preparando-me para fugir enquanto ela me espreitava em busca de maus motivos, prioridades desgastadas e preconceitos; quando pensava ter localizado um, saltava como se quisesse puxá-lo de trás das árvores e deixá-lo apodrecer ao sol.

Esta era Sarah Schulman em seu modo de terror sagrado, abrandado por estarmos conversando num restaurante. Em público, suas críticas e declarações a transformaram numa figura polêmica. Ela se retrata como uma pioneira quase solitária na promoção do teatro lésbico. ("Estou tentando realizar algo que nunca foi feito", ela escreveu em outro e-mail.) Depois de uma discussão entre destacados autores gays numa conferência nacional, segundo pessoas que participaram, Schulman levantou-se da platéia e desafiou diretamente os debatedores (ela diz que falou calmamente), exigindo saber o que eles estavam fazendo pessoalmente sobre a falta de peças lésbicas em produção nos EUA. Uma questão perfeitamente razoável -- e até importante --, embora antagonizar seus aliados nem sempre seja uma estratégia eficaz.

Mas Schulman parece não achar que os autores gays homens sejam necessariamente seus aliados. Quanto ao sucesso que algumas obras deles tiveram entre o grande público, parece considerá-lo quase um ponto contra: "A qualidade nunca foi um fator determinante em termos de reconhecimento e recompensa", ela disse. "Em nenhum campo. Quando um bom trabalho faz sucesso, acredito que é coincidência."

Sua intrepidez lhe conquistou uma reputação de difícil (o que ela rejeita como um simples "boato") e pode ter impedido seu progresso no mundo insular e suscetível do teatro. Certamente suas peças -- reflexões sérias sobre a vida marginal, muitas vezes de estrutura experimental ou tom satírico -- não alcançaram a mesma aclamação que sua ficção. Os romances de Schulman são publicados por grandes editoras e ganham resenhas respeitosas. (De seu livro "Rat Bohemia", Edmund White escreveu: "Sua indignação tem uma força selvagem e arrancou o romance tradicional de seus condicionamentos".) Suas peças, por outro lado, até recentemente foram produzidas em "estacionamentos infestados de ratos" ou em porões no centro da cidade com nomes como Universidade das Ruas e O Mundo das Mulheres. Elas tiveram algumas resenhas na grande mídia, que variaram do desprezo ("um cartaz falado") ao maravilhamento ("todas as falas são verdadeiras"), mas em geral foram ignoradas.

Como acha isso intolerável -- "o respeito é meu calcanhar-de-aquiles" -- e como é muito inteligente, Schulman decidiu deliberadamente, por volta de 1994, derrotar o sistema. E hoje, aos 47 anos, depois de "rastejar durante 11", ela finalmente parece estar na posição de fazer um grande avanço. Sua nova peça, "Manic Flight Reaction" [algo como Reação instável de vôo], estréia no próximo dia 30 no Playwrights Horizons, e envolve um tema sério, típico de Schulman (a necessidade de assumir a responsabilidade pela dor que você causa aos outros) em uma situação divertida: uma jovem descobre que a ex-namorada de sua mãe agora é a mulher de um candidato presidencial republicano. Ela será denunciada? É uma surpresa encontrar Schulman trabalhando nessa veia cômica; os cenários poderiam ser a sala de visita do "Mary Tyler Moore Show". Mas, diante da reputação de absolutismo ideológico de Schulman, é uma surpresa vê-la interrogar habilmente os postulados de todos os personagens: não apenas os evidentes maus sujeitos, mas também a deliciosa personagem principal, Marge, uma professora universitária lésbica de seus 50 anos, descrita nas orientações de cena como alguém que "luta para se fixar -- no último minuto -- na normalidade, mas carinhosamente".

Esse "carinhosamente" talvez seja emblemático da nova posição de Schulman. Ela se considera uma artista sensata e uma "cidadã participante", cujas controvérsias públicas ficaram para trás -- e de qualquer modo foram provocadas. Certamente foi esse o caso quando ela descobriu que uma parte significativa da história do musical "Rent", de Jonathan Larson (1992), tinha uma semelhança notável com seu romance de 1990 "People in Trouble". Embora uma acusação de plágio feita pelo dramaturgo tenha sido resolvida fora dos tribunais, Schulman nunca o processou, mas buscou justiça na imprensa. Em seu livro de 1998 "Stagestruck: Theater, Aids and the Marketing of Gay America" [Paixão pelo palco: teatro, Aids e o marketing gay americano], ela fez uma crítica escaldante do musical -- e das elites que o celebrizaram enquanto a ignoravam.

DIVERSIDADE DE EXPERIÊNCIAS

Se "Stagestruck" tende ao exagero, talvez seja um reflexo do tempo em que Schulman foi uma das primeiras e ardentes participantes da Act Up [organização pelos direitos dos homossexuais]. E o exagero produz uma leitura agradável -- pelo menos até que me descobri em suas páginas, no papel menor de Mais um Jornalista Inútil, tremendo de medo em vez de defender a verdade. Embora os detalhes sejam discutíveis, tive de admitir que a cena ficou boa; Schulman é uma dramaturga inata. A única coisa realmente incômoda foi que, de todos os pseudônimos do mundo, ela decidiu me chamar de "Seymour".

Isso me enfureceu ligeiramente. Embora ela não as discuta, suas brigas e discussões pirotécnicas são conhecidas. Ninguém que eu contatei quis fazer comentários, exceto para elogiá-la como artista. ("Eu lhe desejo todo o sucesso, ela realmente merece", disse o dramaturgo Craig Lucas.) É difícil saber quantas dessas reações tinham bases mais profissionais que pessoais; em todo caso, Schulman riu quando lhe contei como ela é temida. Esse medo é na verdade raiva, ela disse: a raiva de pessoas privilegiadas sendo obrigadas a questionar a origem de seu privilégio. "De todo modo", disse, fazendo uma expressão incrédula, "o que eu posso fazer para essas pessoas?" Aparentemente, ela quis dizer o que poderia fazer além de atacá-las em público e referir-se a elas de maneira nada lisonjeira em seus romances e peças. Dois desses personagens menos gostáveis em "Manic Flight Reaction" claramente se baseiam em ex-amigos -- ou receberam seus nomes.

Schulman diz que é apenas "ousada", e é verdade que suas conquistas e sua auto-estima poderiam parecer trunfos na história de um homem bem-sucedido na literatura. Talvez seja até um sinal de integridade perversa o fato de ela não baixar o tom com as pessoas que podem ajudá-la. Tim Sanford, que como diretor artístico do Playwrights Horizons produziu sua primeira peça, "Carson McCullers (Historically Inaccurate)" [Carson McCullers (Historicamente imprecisa)], disse que na época Schulman era "tão sedenta de incentivo" que se tornava "combativa". "Ela é uma grande acadêmica, uma analista social", disse Sanford. "Você pode enxergá-la em suas peças. Isso é maravilhoso, mesmo que seja um pouco maluco e provocativo. Mas às vezes ela distorce alguma coisa que eu disse de tal maneira que beira a ofensa. Com o tempo aprendi simplesmente a dizer: 'Isso é um insulto! Por que está me atacando?' Mas o que eu gosto nela é que é sempre franca. Eu gosto disso. Talvez nem todo mundo goste."

Embora algumas pessoas do Playwrights estivessem temerosas de encenar "Manic Flight Reaction" depois de seus atritos com Schulman, Sanford disse (e outros concordaram) que a experiência foi totalmente positiva e confirmou sua fé nela. A autora fez as revisões necessárias e até cortou piadas quando o diretor, Trip Cullman, sugeriu que não passavam bem. Schulman atribuiu a mudança de tom principalmente à disposição de Sanford a aprender com ela: "Depois de tanta interação sobre a representação lésbica, ele ficou mais aberto para certos temas, e também mais disposto a me dizer o que queria de mim", ela explicou. Sanford salientou o aprendizado de Schulman nas realidades do teatro. "Realmente tem sido seu foco como escritora aprender o conjunto de habilidades de uma autora 'off-Broadway' mais acessível", ele disse. "Basicamente, aproximar-se mais da Broadway."

Esse conjunto de habilidades é em parte técnico. Schulman disse que como nunca fez um curso de redação literária tinha pequeno conhecimento do básico. Mas as habilidades políticas necessárias para manobrar no teatro comercial foram ainda mais difíceis de dominar. "Era toda uma nova indústria que eu não sabia como operar", ela disse. "Eu não sabia quem era quem e não estava habituada ao modo como as pessoas desse mundo se comportam -- que é anti-socialmente." Com isso ela quer dizer, entre outras coisas, que "os teatros não dão prioridade a sua responsabilidade de apresentar a grande diversidade de experiências de vida que ocorrem diariamente na cidade de Nova York. Eu perdi muito tempo para entender isso e cometendo erros".

Mas esse esforço valeu a pena, disse Schulman. Artisticamente, ela saiu do processo como "uma escritora tarimbada, com uma paleta muito ampla", capaz de lidar com "praticamente qualquer coisa", acrescentou. Hoje ela tem nove peças em várias fases de desenvolvimento; talvez seja mais revelador que uma delas, uma farsa passada nos anos 20 chamada "The Lady Hamlet", terá sua primeira leitura, estrelada por Kate Burton em 27 de outubro no New York Theater Workshop -- onde começou o vilipendiado "Rent".

"Eu consegui o que queria, eles conseguiram seu dinheiro e a vida continua", ela disse, encolhendo os ombros. "O que se vai fazer?"

INTEGRIDADE E ESPERANÇA

Se Schulman está tentando deixar o passado para trás, é um passado difícil de abandonar. Ela disse que "sofreu muito com os outros". Os contornos de uma infância horrível são facilmente discerníveis em alguns de seus romances, e muitos de seus amigos morreram de Aids. Ela não gosta de falar sobre nada disso, exceto através de seu trabalho; como num diálogo tipicamente forte de "Manic Flight Reaction": "Quando as pessoas ficam sabendo que algo realmente horrível aconteceu com você, elas são impiedosas". No entanto, Schulman sente-se otimista, como seu personagem Marge, esforçando-se para se fixar na normalidade no último minuto.

Como todos os autores, ela nega que tenha elementos autobiográficos, exceto a parte sobre Marge ter morado muito tempo num sexto andar sem elevador. Mas para qualquer pessoa que acompanhou a carreira de Schulman, ou esteve no lado errado de sua reprovação, "Manic Flight Reaction", com sua bela produção, possível futuro comercial e final quase reconciliatório, é uma espécie de mapa do caminho e um alívio.
"Nunca pensei que me revelar em meu trabalho teria as conseqüências financeiras que teve", ela disse. "Eu pensava que o mundo evoluiria de tal maneira que as pessoas apreciariam a ousadia de meu conteúdo e seriam capazes de ver claramente o âmbito de minha arte e minha paleta. Realmente nunca pensei que ser íntegra sobre o conteúdo e a perspectiva de meu trabalho impediria as pessoas de aceitar que sou uma boa escritora. Minha esperança mais profunda e otimista é que estamos finalmente num lugar em que esse reconhecimento pode acontecer."
Bem, talvez não seja seu desejo mais profundo. Pensando melhor, ela concordou que no alto de sua lista provavelmente estaria um elevador.

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