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25/10/2005

Buscado pela polícia, Fujimori quer voltar ao Peru

The New York Times
James Brooke

Em Tóquio
Ele tem um novo passaporte e um partido político que articula a sua próxima campanha à presidência. E está quase no topo nas pesquisas de popularidade pública.

Os únicos obstáculos entre Alberto Fujimori e uma disputa pelo mais alto cargo público do Peru são cerca de 16 mil quilômetros de Oceano Pacífico e uma ordem internacional de prisão da Interpol. Ele é procurado por quatro acusações de direitos humanos, e 18 de corrupção, referentes ao período em que foi presidente, de 1990 a 2000.

Como não há vôos diretos entre Tóquio e Lima, Fujimori teria que fazer uma conexão aérea em algum lugar, provavelmente em Dallas ou Los Angeles, onde correria o risco de ser preso. Um avião particular seria caro, e qualquer aeronave disponível no Japão teria que pousar pelo menos uma vez para reabastecimento, segundo executivos de companhias de aluguel de aviões.

"Submarino?", brincou Fujimori durante uma entrevista na última segunda-feira (24/10), sugerindo um meio alternativo de cruzar o Pacífico.

Mas antes que os peruanos comecem a patrulhar as suas praias, para presenciar o furtivo retorno do ex-presidente, Fujimori quer que o mundo saiba que ele está se preparando para um tradicional retorno latino-americano para casa, pela porta da frente.

Após ter passado cinco anos de auto-exílio no Japão, na terra dos seus ancestrais, Fujimori promete retornar ao Peru dentro de seis meses. Na segunda-feira, ele enviou Luis Delgado Aparicio, secretário-geral do Si Cumple, o partido criado pelo ex-presidente em 2003, a Lima, a fim de preparar o seu retorno. As ordens recebidas por Delgado são de fomentar uma aliança com dois outros partidos fundados por Fujimori e realizar uma convenção unificada para a escolha de candidatos em 10 de dezembro.

Acompanhando os prazos eleitorais com uma tabela impressa de um site da Internet, Fujimori disse que o seu partido o registrará como candidato à presidência em 9 de janeiro, além de escolher os nomes que formarão uma lista de candidatos às 120 cadeiras no congresso peruano em 8 de fevereiro. O primeiro turno da eleição será em 9 de abril.

Nas pesquisas de opinião pública feitas no terceiro trimestre, Fujimori geralmente ficou em segundo lugar, com números que variam entre 15% e 20% das intenções de voto. Lourdes Flores Nano, uma conservadora, variou entre 20% e 24% nas pesquisas, das quais constavam nomes dos possíveis candidatos à sucessão do presidente Alejandro Toledo, cuja popularidade caiu para um único dígito.

"Os outros grupos estão tentando conquistar os votos de Fujimori, e por isso têm dito que eu não voltarei", disse o ex-presidente, que chama a si próprio de um "candidato virtual", já que faz campanha em três idiomas no seu website.

Em 1990, como candidato azarão, Fujimori cresceu devido a uma campanha baseada em pequenos comícios de rua, e conquistou a presidência. Hoje ele mantém contato com seus fãs da classe trabalhadora por meio de conversas semanais em três redes de rádio de âmbito nacional. Há um ano havia apenas uma única dessas redes.

Ao ser lembrado de que em 2000 o congresso peruano votou por bani-lo de qualquer cargo público até 2011, Fujimori disse que o banimento é inconstitucional porque só poderia ser adotado após uma condenação criminal, e não uma acusação.

Após ter passado anos ignorando a montanha de acusações contra a sua pessoa, Fujimori contratou os serviços de um escritório de advocacia de Lima em fevereiro deste ano. Na semana passada, a sua equipe legal obteve uma pequena vitória. A suprema corte peruana retirou uma das acusações de corrupção contra ele. Agora restam 18. Para viajar até o Peru, Fujimori disse esperar que os seus advogados negociem um acordo com Washington para permitir que ele troque de aeronave em solo norte-americano sem que seja preso.

Os seus oponentes afirmam que ele é bem-vindo no Peru, quando quer que decida retornar.

"Não vemos problema no fato de ele comprar uma passagem para casa", disse no sábado, de Nova York, Javier Ciurlizza, assessor de internacional de direito do Ministério das Relações Exteriores, enquanto pedia a grupos norte-americanos de direitos humanos que apelassem ao Japão para que tomasse uma providência quanto ao pedido de extradição feito pelo Peru há 27 meses. "Ele será recebido no aeroporto por um juiz".

O ex-presidente disse que não se preocupa com isso. "As acusações são infundadas", garantiu Fujimori. "Prender Fujimori seria causar um terremoto político".

Embora jornalistas e políticos peruanos acusem sistematicamente Fujimori de ter roubado centenas de milhões de dólares, tais acusações são difíceis de se comprovar.

Há dois anos o governo do Peru recebeu um relatório das finanças de Fujimori da empresa de consultoria sobre riscos financeiros Kroll Incorporation. Embora o governo tenha pagado US$ 350 mil pelo documento, o relatório nunca foi divulgado. Mas como os jornais de Lima dizem que o trabalho não conseguiu descobrir qualquer conta bancária secreta controlada pelo ex-presidente, os apoiadores de Fujimori estão exigindo a divulgação do relatório.

"A todas essas acusações, a minha resposta é zero; não existe uma prova sequer de apropriação indevida de dinheiro", disse Fujimori na segunda-feira. Ele disse que faz "três ou quatro" palestras pagas por mês, o que dá para sobreviver. "Eu praticamente não tenho gastos desnecessários".

"Faço as minhas próprias compras", disse o ex-presidente de 67 anos. "Cozinho a minha própria comida, e dirijo o meu próprio carro". Ele também conta com espaço gratuito para morar e trabalhar em um hotel de Tóquio, uma gentileza da dona do hotel, Satomi Kataoka, a sua amiga de 38 anos de idade.

Ciurlizza, o seu grande inimigo no campo judicial, diz não ter ficado sensibilizado pelos relatos da vida modesta levada por Fujimori. "A Kroll teve muita dificuldade para encontrar uma pista", disse ele pelo telefone. "Fujimori não é apenas mais um presidente latino-americano em apuros. Estamos de frente para uma máfia, o líder de uma máfia".

Ao lhe perguntarem a respeito de tal descrição, Fujimori riu e retrucou: "Sou um líder das massas populares peruanas".

Como o relógio político não pára, milhões de peruanos estão tentando adivinhar o próximo passo de Fujimori. Pouca gente parece acreditar que o ex-presidente, calculista por natureza e engenheiro por formação, tentará fazer um retorno dramático, por terra, ar ou submarino.

"Não creio que ele tenha a coragem para tentar uma aventura desse tipo", diz Ciurlizza. "Mas, se tiver, bem-vindo! Ele terá que ser preso imediatamente".

Alguns analistas acreditam que Fujimori só seja capaz de fazer campanha a partir do exterior. Nesse jogo de xadrez político, ele faria uma oferta ao novo presidente: apoio parlamentar em troca de anistia.

Perturbado com a perspectiva de tal cenário, Ciurlizza suspirou e disse: "Fujimori não é estúpido. Ele possui uma estratégia para retornar ao Peru a fim de conseguir uma anistia". Mesmo fira do país, o ex-presidente está em segundo nas pesquisas Danilo Fonseca

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