UOL Notícias Internacional
 

25/10/2005

Cientistas e intelectuais fogem de países pobres

The New York Times
Célia W. Dugger

Em Nova York
Países pobres da África, da América Central e do Caribe estão perdendo algumas vezes porções enormes da sua força de trabalho de nível superior para os países ricos, segundo um estudo do Banco Mundial divulgado nesta terça-feira (25/10).

O estudo documenta um padrão preocupante de fuga de cérebros --a saída de trabalhadores qualificados da classe média que poderiam ajudar a tirar os seus países da pobreza, dizem certos analistas. E embora o efeito exato de tal migração ainda seja pouco compreendido, existe a percepção crescente entre os economistas de que ela desempenha um papel crucial no desenvolvimento de um país.

As conclusões se baseiam em um amplo estudo do censo e de outros dados de 30 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que inclui a maior parte das nações ricas.

O estudo revelou que entre um quarto e a metade dos cidadãos com diploma universitário de países pobres como Gana, Moçambique, Quênia, Uganda e El Salvador vive no exterior, em um país da OCDE.

Esses padrões sugerem que uma fuga maciça de indivíduos com alto nível educacional está prejudicando vários países pobres pequenos e médios, enquanto os países em desenvolvimento de maior tamanho são capazes de suportar melhor as perdas relativamente menores de talentos, ou até mesmo de delas se beneficiarem, quando os trabalhadores qualificados retornam ou investem nos seus países nativos, afirma Frederic Kocquier, pesquisador do banco e economista da Universidade de Lovain, na Bélgica.

"Para um país que perde um terço dos seus cidadãos com curso superior a situação é preocupante", afirma Alan Winters, diretor do grupo de pesquisa de desenvolvimento do Banco Mundial.

O estudo do Banco Mundial, publicado na terça-feira em um livro com o título "International Migration, Remittances & the Brain Drain" ("Migração Internacional, Remessa de Dinheiro e a Fuga de Cérebros"), também apresenta uma análise do efeito do dinheiro que os migrantes da Guatemala, do México e das Filipinas enviam para casa, geralmente para as suas famílias.

Essa remessa de dinheiro ajudou a reduzir a pobreza naqueles três países e se constituiu em uma grande fonte de divisas estrangeiras, mas as implicações mais amplas foram complexas. Na Guatemala, por exemplo, as famílias rurais recebendo dinheiro gastaram mais em educação e menos com consumo.

Mas, no México, as crianças das famílias dos migrantes na verdade receberam menos educação do que as das famílias dos não migrantes, possivelmente porque as suas famílias acreditavam que elas acabariam migrando para os Estados Unidos a fim de fazer trabalhos que não exigem alto nível educacional.

Parte dos dados do banco sobre a fuga de cérebros gerou polêmica. Mark Rosenzweig, economista da Universidade Yale, argumenta que a medição do fenômeno feita pelo banco está inflacionada, porque não exclui os imigrantes que se mudaram para os países ricos quando crianças, ou que receberam educação superior nesses países.

Dados da pesquisa sobre os imigrantes jamaicanos, por exemplo, revelam que quase quatro entre cada dez desses imigrantes foram para os Estados Unidos com menos de 20 anos de idade.

Os pesquisadores do banco dizem que estão colhendo agora tais dados, embora estes não estejam disponíveis em se tratando de vários países, e reconhecem que seria útil saber onde os migrantes tiveram educação superior. Mas eles e outros especialistas que não pertencem ao banco dizem que o último relatório da instituição ainda é aquele que oferece o quadro mais amplo até o momento da magnitude da fuga de cérebros dos países pobres, embora admitam que os dados sejam aproximados e incompletos.

Vários especialistas concordam que o êxodo de trabalhadores qualificados dos países pobres é um sintoma de profundos problemas econômicos, sociais e políticos nas suas nações, e isso pode ser algo especialmente danoso para setores como educação e saúde, onde profissionais qualificados são altamente necessários.

Jagdish Bhagwati, economista da Universidade Columbia que migrou da Índia no final da década de 1960, diz que os imigrantes muitas vezes estão "votando com os pés" quando saem de países que são mal administrados e cujas economias não funcionam bem. Eles atraem a atenção de seus governos quando deixam o país de origem.

"Quem permanece, não tem nenhum poder de barganha", diz ele. Mas alguns especialistas querem saber se a fuga de cérebros pode também alimentar um círculo vicioso de subdesenvolvimento --privando os países pobres das pessoas combativas, com disposição e conhecimento para lutar contra a corrupção e a incompetência do governo.

Devesh Kapur e John McHale argumentam no seu livro, "Give Us Your Best and Brightest" ("Dêem-nos seus Melhores e Mais Brilhantes"), lançado na semana passado pelo Centro de Desenvolvimento Global, um grupo de pesquisas de Washington, que a perda dos criadores de instituições --gerentes de hospital, chefes de departamentos universitários e reformadores políticos, entre outros-- pode contribuir para que os países pobres fiquem aprisionados na pobreza.

"Não é apenas a perda de profissionais, mas também a da classe média", diz Kapur, professor de questões governamentais da Universidade do Texas em Austin.

A questão do que pode ser feito para minimizar esses danos é complicada, e remete a possibilidade de tomada de decisões difíceis, como limitar a migração de trabalhadores qualificados. As políticas de imigração dos países ricos, incluindo Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Austrália, têm procurado atrair profissionais de alto nível educacional, tanto para aumentar a competitividade dessas nações como para atender às demandas domésticas por esses profissionais.

Muitos especialistas dizem se opor às tentativas de conter o movimento dos migrantes, mas estudam possíveis maneiras de ajudar os países pobres a lidar com o problema. Uma idéia que Bhagwati propôs pela primeira vez na década de 1970 --a de que os países em desenvolvimento deveriam cobrar impostos dos seus trabalhadores que vão para outras nações-- está sendo alvo de novas atenções.

Os editores do livro do Banco Mundial dizem que pode ser necessária a adoção de políticas para aumentar os salários desses profissionais em seus países de origem.

Outros, incluindo Kapur e McHale, que é economista da escola de negócios da Universidade Queens, em Kingston, Canadá, sugerem que se encontrem novas formas de compensar os países mais atingidos por essas perdas. Eles dizem ainda que os países ricos deveriam pensar na possibilidade de fornecer vistos por tempo limitado que permitiriam aos profissionais trabalhar alguns anos, antes de levarem o conhecimento e o dinheiro adquirido de volta para casa.

Kapur comparou o fato de um imigrante qualificado conseguir um visto de trabalho a ganhar um prêmio na loteria, já que os ganhos financeiros resultantes da migração são muito grandes. Ele diz que, qualquer que seja a abordagem, os benefícios aos poucos que são suficientemente sortudos para partir precisam ser comparados aos custos para os seus compatriotas que ficam para trás. Estudo foca a imigração de indivíduos com alto nível educacional Danilo Fonseca

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