UOL Notícias Internacional
 

25/10/2005

Furacões "ressuscitam" os mortos na Louisiana

The New York Times
Lily Koppel

Em Baton Rouge, Louisiana
Os vivos não foram os únicos deslocados pelos furacões Katrina e Rita. A força das tempestades literalmente levantou os mortos de seus locais de repouso, nos pacatos cemitérios locais, movendo milhares de caixões e túmulos pela Costa do Golfo e criando um quebra-cabeça macabro para legistas e agentes funerários.

Ting-Li Wang/The New York Times 
Caos no cemitário Merrick, em Nova Orleans, mostra que Katrina vitimou até quem já morreu

Ondas de tempestade de até 6 metros transformaram tumbas, caixões e túmulos de concreto de duas toneladas em barcos virtuais, que viajaram quilômetros até pararem em quintais, campos e pântanos. Acredita-se que um túmulo incrustado de craca, encontrado debaixo d'água em um brejo, seja de uma vítima do furacão Audrey, de 1957.

Um caixão apareceu no gramado do dr. Bryan Bertucci, o legista da paróquia de Saint Bernard, e um delegado informou que um caixão contendo sua avó, ainda trajando um vestido rosa, foi encontrado fora da sepultura no cemitério.

"Caixões foram arrancados de seus túmulos como blocos de montar de crianças", disse o dr. Louis Cataldie, o diretor médico de emergência do Estado. "Há muitos. É muito perturbador para muitas famílias que querem seus entes queridos. Muito perturbador."

Muitos caixões não contêm identificação, de forma que o fardo de identificar e devolver os restos mortais aos cemitérios está recaindo sobre especialistas e legistas de todo o Estado, já sobrecarregados com as vítimas das recentes tempestades.

Cataldie disse que cerca de 137 restos mortais desenterrados --apenas 80 ainda dentro de seus caixões-- foram trazidos ao mesmo necrotério temporário montado pelo Estado para as vítimas do Katrina, enquanto outros foram entregues para os legistas locais.

Alguns caixões construídos a partir dos anos 60 contêm o nome do morto inscrito em um papiro fúnebre em seu interior. Em outros casos, funcionários podem rastrear os caixões usando o número de série do fabricante e mapas de cemitério desenhados à mão.

Algumas pessoas identificaram parentes por meio de rosários, cicatrizes, marcapassos ou evidências de raio X de fraturas. Em um caso, um par de óculos foi usado. Se o embalsamento ainda estiver intacto, às vezes é possível fazer uma identificação visual, e comparação de DNA pode ser útil.

"Se você não sabe de onde vem, você não sabe para onde vai", disse Cataldie. "Os cemitérios são muito importantes para as pessoas no Sul. Nós cuidamos de nossos mortos. Nestes cemitérios elas encontram suas lembranças e suas infâncias. É importante lhes devolver suas mães, pais e avós."

Autoridades federais da Disaster Mortuary Operational Response Team Dmort), estão ajudando as autoridades locais a encontrar e identificar os restos mortais, usando veículos anfíbios, hovercrafts e helicópteros. Mais caixões são encontrados diariamente, às vezes em árvores.

Esqueletos expostos foram resgatados do meio de estátuas partidas de Jesus e Maria. Como vestígios de antiguidades clássicas, figuras de mármore com asas partidas jaziam em gramados arrasados de cemitérios, em meio a lápides tombadas, algumas com inscrições como "Caçando no Céu". Um mausoléu parecia uma mesa sem suas gavetas.

"Muitos estão em áreas extremamente remotas e inacessíveis", disse Don Kelly, um porta-voz da Dmort. "Eles foram carregados para muito longe para brejos, pântanos e florestas."

Pessoas temem que seus parentes, enterrados anos atrás, agora estejam escondidos em campos desconhecidos, seus corpos e histórias perdidos.

"O primeiro lugar que procuraram foi em seus cemitérios", disse Zeb Johnson, um investigador do legista da paróquia de Calcasieu, no extremo sudoeste da Louisiana, e dono da Johnson's Funeral Home em Lake Charles, que recebe telefonemas constantes. "Isto poderá levar anos."

A poucos quilômetros de distância no centro de Creole, o cemitério Sacred Heart está cheio de sepulturas atingidas.

"Você não consegue imaginar que a água pode ser tão destrutiva", disse Eloucia S. Richard, 78 anos, uma professora aposentada que veio ao cemitério para checar a sepultura de seu marido, Dalton J. Richard, um veterano da Segunda Guerra Mundial, que estava intacta.

"Eu conhecia todos", disse ela, chorando quando viu que amigos falecidos estavam perdidos. "Eu sabia onde todos moravam." Dois faltando em um mausoléu eram ex-alunos dela, e ela acha que pode haver mais.

"Eu os conhecia muito bem, jogavam futebol", ela lembrou. "Que coisa horrível. Eu conhecia estas pessoas. Onde estão?"

Na paróquia de Saint Bernard, a leste de Nova Orleans, o cemitério Merrick é um dos muitos devastados. Localizado no setor historicamente negro de Violet, ele está cheio de tumbas de blocos de concreto construídas pelos moradores do bairro, que freqüentemente os pintam nos aniversários dos mortos.

Larry M. Aisola, um advogado de 32 anos, gostaria de saber onde estão sua mãe e avô falecidos, assim como sua avó, enterrada poucos dias antes da passagem do Katrina.

"Eles precisam voltar", disse Aisola. "O problema é descobrir como colocá-los juntos novamente." Tempestades causam macabro deslocamento de túmulos e caixões George El Khouri Andolfato

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