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25/10/2005

Muitos sofrem incontinência com medo e silêncio

The New York Times
Martica Heaner

Em Nova York
Merryl Leopold, advogada em Nova York, sempre teve que lidar com o que se chama educadamente de "controle de bexiga". Leopold, 44, lembra-se que, quando era adolescente, acordava à noite com vontade de urinar, mas nem sempre chegava ao banheiro a tempo.

"Dá um pequeno vazamento, que também sinto quando rio, pulo ou espirro", disse ela. "Tento evitar beber líquidos depois das 21h. Uso pequenos absorventes de dia e vou ao banheiro antes e depois de fazer ginástica."

Além dos ajustes para minimizar os "acidentes", Leopold não procurou ajuda médica, apesar de ter os sintomas há quase 30 anos.

Certa vez, quando era adolescente, ela perguntou ao médico a respeito, e ele recomendou que fizesse os exercícios de Kegel. A série foi usada pelo Dr. Arnold Kegel, ginecologista, em uma pesquisa nos anos 40 e 50 para fortalecer os músculos do assoalho pélvico, disse Leopold.

"Quando lembro de praticá-los, eles ajudam, mas não pratico sempre", acrescentou.

Leopold compartilha seu problema com milhões de mulheres --e muitos homens.

Pesquisas mostraram que algumas mulheres com o distúrbio têm medo de ter relação sexual. As que sofrem vários vazamentos por dia às vezes relutam em sair de casa, por medo de ficar cheirando a urina ou que o absorvente ou fralda adulta não seja suficiente.

Segundo as estimativas, 25 milhões de americanos perderam algum controle de bexiga. Apesar de comum, muitas pessoas tendem a sofrer em silêncio. A Associação Nacional de Incontinência conduziu uma pesquisa no ano passado e concluiu que até 64% das pessoas com os sintomas nada faziam para administrar o problema.

"Estudos mostraram que as mulheres levam em média de seis a sete anos sofrendo com os sintomas antes de procurarem um médico", disse Jennifer L. Melville, ginecologista e obstetra da Universidade de Washington.

Recentemente, Melville publicou a primeira grande pesquisa para documentar a freqüência de incontinência urinária entre mulheres americanas. O estudo foi em parte financiado por uma bolsa de pesquisa da Pharmacia, hoje parte da Pfizer.

A maior parte dos estudos de grande escala foi conduzida na Europa, onde a saúde pública torna mais fácil coletar dados para determinar fatores de risco.

Muitas mulheres têm vergonha de pedir ajuda. Outras acreditam que os sintomas fazem parte do envelhecimento. Muitas não sabem que há tratamento.

Em geral, a consulta ginecológica anual inclui um exame de mama e de Papanicolau, mas raramente perguntas sobre incontinência.

"Apesar disso nunca ter sido ressaltado durante minha residência em obstetrícia e ginecologia, todo médico e ginecologista deveria perguntar aos pacientes a respeito", disse Melville.

Parte do problema é que a falta de controle de bexiga é percebida como um problema apenas de idosos. O estudo de Melville com 6.000 mulheres entre 30 e 90 anos, publicado na revista "Archives of Internal Medicine", revelou que 55% das mulheres entre 80 e 90 anos sofria de incontinência urinária. No entanto, as jovens também são afetadas. Das mulheres com idades entre 30 e 39, 28% tinham alguma perda de controle urinário ao menos uma vez por mês.

Apesar de a condição ser muito mais comum nas mulheres, os homens também têm, especialmente com o avanço da idade e o alargamento da próstata.

Há dois tipos principais de incontinência: na incontinência de esforço, que é mais comum em mulheres jovens, a pressão abdominal aumenta a pressão na bexiga, o que leva ao vazamento. Este pode ocorrer quando a pessoa corre, levanta peso, ri ou tosse.

A incontinência de urgência, também conhecida como "bexiga hiperativa", é mais comum em mulheres após a menopausa. As pacientes sentem uma vontade aumentada de urinar junto com uma incapacidade de segurar, então há o vazamento de uma pequena parte do líquido a caminho do banheiro. Na incontinência mista, os pacientes têm uma combinação dos sintomas.

As causas da incontinência variam. Pode haver fraqueza dos músculos ou do tecido conjuntivo do assoalho pélvico por causa da idade ou por trauma em parto vaginal. Mudanças nos níveis de estrogênio após a menopausa também foram associadas à incontinência de urgência. Em alguns casos, a causa pode residir em anormalidades anatômicas, como um defeito no ligamento que segura a bexiga ou uma instabilidade na junção da bexiga com a uretra.

O estudo de Melville concluiu que mulheres obesas tinham um risco 140% maior de incontinência. Os pesquisadores especulam que um aumento na obesidade pode levar à incidência ainda maior.

Uma revelação surpreendente no estudo foi que mulheres deprimidas tinham 148% mais chance de serem afetadas do que mulheres não deprimidas.

Neutrotransmissores, como a serotonina, ficam alterados na depressão e também podem causar alterações nos agentes químicos do cérebro que afetam a bexiga, disse ela. Mas a relação também pode funcionar ao contrário: "A incontinência afeta tão severamente a qualidade de vida de algumas mulheres que às vezes elas se isolam e sentem vergonha", disse Melville. "Com o tempo, isso pode levar à depressão."

Outro estudo, apresentado em setembro na reunião anual da Sociedade Uroginecológica Americana em Atlanta, encontrou um elo entre a incontinência e a depressão pós-parto. Pesquisadores da Universidade de Virgínia e da Universidade de Michigan concluíram que as mulheres que sofriam de depressão depois do parto tinham maior incidência de incontinência de urgência do que as mães que não sofriam de depressão.

Em geral, o primeiro médico a ser consultado para esse tipo de questão deve ser um ginecologista ou clínico geral. No entanto, casos mais complicados podem ser enviados a um uroginecologista especializado em disfunções do assoalho pélvico feminino.

Os tratamentos para incontinência de esforço em geral envolvem mudanças de comportamento, como evitar o consumo de cafeína e chocolate, que levam a bexiga a se contrair, e praticar os exercícios de Kegel para fortalecer os músculos elevadores do ânus que cercam e dão suporte aos órgãos pélvicos.

A incontinência de urgência é freqüentemente tratada com remédios como tolterodine, vendido como Detrol, e cloreto de oxibutinina, vendido como Ditropan, que relaxa os músculos do trato urinário e impedem sua contração. Um antidepressivo, Duloxetine, fabricado pela Eli Lilly, é vendido fora dos EUA como tratamento para incontinência urinaria com o nome de Yentreve e está passando por ensaios clínicos no país.

Tratamentos cirúrgicos para incontinência incluem reparos da anatomia defeituosa ou reposicionamento da uretra ou da bexiga para melhorar sua função.

"Devido aos avanços, as cirurgias hoje são menos invasivas e os pacientes freqüentemente vão para casa no mesmo dia", disse Stephen B. Young, ex-presidente da Sociedade Americana Uroginecológica e chefe da divisão de uroginecologia do Centro Médico Memorial da Universidade de Massachusetts, em Worcester.

Médicos dizem que a maior dificuldade no tratamento da incontinência talvez seja a divulgação das informações para que as mulheres busquem ajuda. Mas algumas propagandas humorísticas levaram a questão à atenção do público.

"O humor pode derreter o gelo", disse Melville. "E se alguém se identifica com uma propaganda que fala do problema e depois pergunta ao médico a respeito, por mim tudo bem." Doença atinge todas as idades e pode ser relacionada à depressão Deborah Weinberg

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