UOL Notícias Internacional
 

26/10/2005

Flórida começa a limpeza do furacão Wilma

The New York Times
Abby Goodnough*, em Miami, e

Joseph B. Treaster, em Naples
O Sul da Flórida era um caos de costa a costa na terça-feira (25/10), enquanto milhões continuavam sem energia elétrica, enormes filas se formavam para suprimentos básicos e os motoristas ziguezagueavam por ruas cheias de escombros sem semáforos.

Apesar das garantias do governador Jeb Bush de que a recuperação do furacão Wilma transcorreria de forma tranqüila, após as lições aprendidas com as sete tempestades anteriores, a resposta do governo parecia fraca. Nos condados de Broward e Miami-Dade, as pessoas faziam fila para gelo e água apenas para descobrir que a entrega de ambos pelo governo estava atrasada.

Muitos cruzamentos movimentados não tinham policiais para orientar o trânsito impaciente. Escolas e a maioria das empresas permaneciam fechadas enquanto multidões atordoadas perambulavam em busca de comida, gasolina e recepção de celular. O único fator positivo era o agradável ar fresco, trazido pela tempestade, que tornou suportável a falta de ar condicionado.

Um dia após a passagem do furacão Wilma, que deixou seis mortos, a energia tinha sido restabelecida em várias centenas de milhares de lares e empresas até a noite de terça-feira. Mas 3,2 milhões ainda continuavam sem eletricidade, incluindo cerca de 95% dos consumidores nos condados de Broward e Miami-Dade. Onze outros condados também informaram falta de energia, muitas delas gerais. Diretores da Florida Power and Light disseram que alguns consumidores poderão ter que esperar até quatro semanas.

Mais da metade dos abrigos abertos para a tempestade já tinham fechado na terça-feira, mas cerca de 50 abrigos ainda mantinham mais de 7 mil refugiados, disseram autoridades estaduais.

Houve alguns relatos de saques, e toques de recolher do anoitecer ao amanhecer permaneciam em vigor por toda a região. A pressão da água era baixa em muitos lugares e moradores foram aconselhados a ferver o que saísse de suas torneiras, uma proposta inútil para legiões cujos fogões e microondas não estavam funcionando.

O presidente Bush, criticado pela lenta resposta ao furacão Katrina, planeja ir à Flórida na quinta-feira para inspecionar os estragos provocados pelo furacão, anunciou a Casa Branca.

Particularmente frustrante para muitas pessoas era a espera por gelo e água nos pontos de distribuição, que abriram horas depois do horário prometido, quando abriram. Mike DeLorenzo, chefe da Equipe de Resposta de Emergência da Flórida, disse que o trânsito e os destroços impediram os caminhões de chegarem no horário.

No Orange Bowl, no centro de Miami, carros davam volta no estádio e as famílias esperavam horas para conseguir sua cota.

"Minha mãe está em casa, de cama, e precisa de líquidos", disse Milagros Arocena, cujo carro praticamente não saiu do lugar durante a hora que esperou. "Esta fila é assustadora mas não sei para onde ir."

Deena Reppen, uma porta-voz do governador Bush, disse que eram esperadas longas filas e escassez de suprimentos nas primeiras 24 horas após o furacão. "O Estado está trabalhando ininterruptamente com seus parceiros locais e federais para trazer mais comida, água e gelo para a região", disse ela.

No condado de Miami-Dade, onde apenas seis dos 11 postos de água e gelo abriram por volta do horário prometido de 14 horas, o prefeito Carlos Alvarez prometeu que os demais abririam até o final do dia e disse que, levando tudo em consideração, o atraso não era tão ruim.

"Me permita apenas dizer que tem sido um desafio logístico", disse ele. "Nós estamos tentando extrair o melhor de uma situação muito ruim. Podemos melhorar? É claro."

Alvarez disse que apenas 10% dos 2.600 semáforos do condado estavam funcionando e que cerca de 40 acidentes, incluindo 12 graves, ocorreram em conseqüência. Ele disse que os tribunais do condado permanecerão fechados pelo restante da semana, mas que o porto seria reaberto para navios de cruzeiro e caminhões na quarta-feira.

O Aeroporto Internacional de Miami reabriu para um número limitado de vôos na tarde de quarta-feira, apesar dos muitos danos nos telhados dos terminais e pontes de embarque. O Aeroporto Internacional de Fort Lauderdale continuou fechado, exceto para aeronaves particulares.

Do outro lado do Estado em Naples, ao norte de onde o furacão entrou no Estado na manhã de segunda-feira, a distribuição de gelo e água parecia estar transcorrendo tranqüilamente. Em um posto, membros de várias unidades da Guarda Nacional estavam atuando com precisão de linha de montagem. Às 9 horas da manhã, centenas de carros, de Mercedes Benz a carros velhos, faziam fila na rua que levava ao estacionamento do colégio Barron Collier.

Um soldado da Guarda Nacional em uniforme de camuflagem acenava para os carros avançarem, e à medida que cada um passava pelo esquadrão de soldados, um entoava: "Abra o porta-malas". Outro soldado vinha com caixa de garrafas de água e sacos plásticos com gelo, os colocando no carro, fechando o porta-malas e acenando para o motorista seguir em frente. Cada entrega levava apenas segundos.

"Nós temos feito tanto disto nos últimos dois ou três anos que estamos ficando muito bons", disse o sargento Tim Harper, da 265ª Artilharia de Defesa Aérea de Sarasota.

A tempestade bloqueou as ruas de Naples, uma das cidades mais ricas do país, com queda de árvores. Mas enquanto o vento enfraquecia na tarde de segunda-feira, tratores já tinham praticamente removido os escombros e liberado as vias principais e a maioria das ruas nasáreas residenciais.

Alagamentos que chegaram ao joelho em algumas partes de Naples também já tinham sido praticamente eliminados na tarde de terça-feira, assim como no distrito bancário no centro de Miami. Mas os prédios altos que se alinham na Brickell Avenue de Miami, lar de alguns dos maiores bancos, firmas de advocacia e hotéis caros da Flórida, pareciam surrados com seus muitos vidros quebrados, com os cacos espalhados na rua abaixo.

"Parece pior do que realmente é", disse Cesar Alvarez, executivo-chefe e presidente da firma de advocacia Greenberg Traurig, que perdeu as janelas de cerca de um terço dos escritórios de seus advogados.

Prejuízo

Escolas por todo o Sul da Flórida permanecerão fechadas pelo restante da semana, disseram as autoridades, e o tribunal do condado de Broward, um prédio alto que perdeu dezenas de janelas na tempestade, só reabrirá daqui pelo menos duas semanas. Os teto cedeu nas salas dos juizes e na sala do tribunal, e os gabinetes da promotoria e da defensoria pública também foram danificados, disse o juiz chefe Dale Ross.

Um dos maiores negócios do Estado é o cultivo de plantas ornamentais, flores e árvores, mas dezenas de viveiros no sudoeste da Flórida foram atingidos pela tempestade. No viveiro atacadista H.M. Buckley & Sons, em Naples, cerca de metade dos 40 funcionários apareceram na terça-feira para encontrar as coberturas de tela e plástico arrancadas de muitas estufas. Algumas foram derrubadas e alguns galpões foram feitos em pedaços.

Tom Buckley, o gerente geral do viveiro e a quinta geração de sua família no ramo, disse que custará várias centenas de milhares de dólares para restauras as coisas. Grande parte da propriedade, ele disse, é tão frágil que não pode ser segurada. A tensão era evidente em seu rosto.

"Eu sabia o que iria encontrar quando entrei aqui na segunda-feira", disse ele. "Eu não esperava necessariamente a demolição de algumas das casas. Mas cinco minutos depois era hora de recolher os pedaços e seguir em frente. Você apenas faz o que tem que fazer."

Apesar de porta-vozes da polícia terem alertado sobre multas severas e múltiplos pontos na carteira de motorista daqueles que não parassem nos cruzamentos, a cortesia freqüentemente inexistia em uma região onde os motoristas não são muito civilizados mesmo em dias normais. As coisas se mantiveram ligeiramente mais em ordem nos poucos mercados que abriram, onde as pessoas empurravam carrinhos por corredores escuros.

Em um posto de gasolina em Plantation, perto de Fort Lauderdale, uma dúzia de policiais mantinha a ordem entre centenas de pessoas carregando galões e uma fila de veículos de um quilômetro e meio. Dimitrios Halivel, o dono do posto, que estava limitando a venda a US$ 20 de gasolina para cada cliente, disse que lamentava sua decisão de abrir.

"Há pressão demais", disse ele.

No [arquipélago] Keys da Flórida, muitos antigos residentes que desafiaram as ordens de evacuação consideraram o furacão Wilma o mais assustador de que tinham memória. Áreas normalmente altas e secas durante as tempestades ficaram sob quase 1 metro de água. As correntes lançaram água salgada em alguns dos bairros residenciais mais antigos e caros de Key West, e durante a maré alta, 70% da ilha ficou debaixo d'água.

Muitos lares nas Lower Keys pareciam inabitáveis, e milhares de veículos foram destruídos ou tiveram seus sistemas elétricos danificados.

Mas a energia elétrica foi restaurada na terça-feira ao antigo bairro histórico e outras partes de Key West e Lower Keys, com a energia devolvida a cerca de 9 mil lares até a noite. O governador Bush visitou Key West e foi até o colégio que servia de base para a Cruz Vermelha e abrigo para aqueles que perderam seus lares. Ele tentou tranqüilizar os temores de que os turistas evitarão a Flórida devido aos estragos consideráveis.

"As pessoas se lembrarão de suas recordações daqui e vão querer voltar",
disse ele.

*Neil Reisner contribuiu com reportagem em Fort Lauderdale; Terry Aguayo, em Miami; Tim O'Hara, em Key West; e Joe Follick, em Tallahassee. Moradores do Estado fazem as contas do prejuízo em casas e firmas George El Khouri Andolfato

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