UOL Notícias Internacional
 

27/10/2005

Aos 92, morre Rosa Parks, um símbolo da luta dos negros por seus direitos civis

The New York Times
E.R. Shipp

Em Nova York
Rosa Parks, uma costureira negra cuja recusa a ceder o seu lugar a um homem branco num ônibus, na cidade de Montgomery, Alabama, há cerca de cinqüenta anos, transformou-se num caso mítico que ajudou a dar forma ao movimento dos direitos civis no decorrer dos anos 50 e 60, morreu nesta segunda-feira (24/10). Ela tinha 92 anos.

A sua morte foi confirmada por Dennis W. Archer, antigo prefeito de Detroit, Michigan, que era protetor de Parks.

Por causa do seu ato de desafio, Rosa Parks foi presa, considerada culpada de violar as leis da segregação e condenada a pagar uma multa de US$ 10. Em resposta, os negros da cidade de Montgomery boicotaram os ônibus por cerca de treze meses. Enquanto isso foi articulada junto à Corte Suprema uma bem-sucedida contestação da lei conhecida como Lei Jim Crow, que impunha aos negros a condição de passageiros de segunda classe na rede de transporte público.

Os acontecimentos que tiveram início naquele ônibus, no inverno de 1955, cativaram a nação e transformaram um pregador hesitante de 26 anos chamado Martin Luther King Jr. num dos mais importantes líderes do movimento em prol dos direitos civis. King, que era então o novo pastor da Igreja Baptista da Avenida Dexter, em Montgomery, foi escolhido para tomar a frente da Associação pelo Aprimoramento de Montgomery, uma organização fundada para coordenar a luta então emergente pelos direitos civis.

"A prisão da senhora Parks não foi tanto a causa principal do movimento de protesto, e sim o estopim que desencadeou todo o resto", escreveu Luther King no seu livro publicado em 1958, "Stride Toward Freedom" ("Passos largos rumo à liberdade"). "A causa tem suas raízes fincadas no longo histórico de injustiças similares".

O seu ato de desobediência civil, que hoje, tantos anos depois, parece ser um simples gesto de desafio, era de fato uma atitude temerária e até mesmo perigosa no Alabama, nos anos 50. Ao se recusar a ceder o seu lugar naquele ônibus, ela não só correu o risco de sofrer sanções legais e possivelmente de ter sua integridade física ameaçada, como ela também desencadeou um processo que se revelou muito acima do controle das autoridades da cidade. Rosa Parks evidenciou para a apreciação do público, muito além da cidade de Montgomery, a crueldade e a humilhação inerentes às leis e aos costumes da segregação.

Aquele episódio no ônibus Cleveland Avenue também transformou uma mulher muito reservada num símbolo relutante da luta pela igualdade racial e na líder espiritual de um movimento que foi se tornando cada vez mais organizado e sofisticado no processo de formular reivindicações e obter resultados.

Mesmo nos últimos anos da sua vida, Rosa Parks, cada vez mais frágil, apareceu em eventos e comemorações, sem fazer grandes declarações, mas proporcionando a força considerável que emanava da sua presença.

Ao longo dos anos, o mito tendeu a ofuscar a verdade a respeito de Parks. Uma lenda estabeleceu equivocadamente que ela era uma faxineira que sofria de problemas nos pés e que estava cansada demais para se levantar e ir até a traseira do ônibus. Uma outra lenda reza que ela era uma "espiã" a serviço da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP - Associação nacional em prol do desenvolvimento das pessoas de cor).

A verdade, conforme ela chegou a explicar mais tarde, era que ela estava farta, assim como milhares de outros negros, de ser humilhada, de ter que se submeter a regras bizantinas, algumas das quais tendo sido transformadas em leis e outras assimiladas como parte da tradição, que reforçavam a posição dos negros como seres "desclassificados", que não eram considerados como seres humanos plenos.

"Ela não agüentava mais aquilo", conta Elaine Steele, uma amiga de longa data e diretora executiva do Instituto de Desenvolvimento da Pessoa - Rosa e Raymond Parks. "Ela já era quarentona e, portanto, não era nenhuma criança. Aí, chega-se a um ponto em que a pessoa diz: `Não, eu também sou uma cidadã igual a qualquer outro. Esta não é uma forma justa de tratamento com a minha pessoa'".

No seu livro "Stride Toward Freedom," Martin Luther King escreve:
"Na verdade, ninguém pode entender o ato da senhorita Parks, a não ser que se dê conta de que aquela foi a gota que fez o vaso da tolerância transbordar finalmente, o momento em que a personalidade humana exclama: `Não suporto mais isso'. A recusa da senhora Parks de ceder o seu lugar foi a sua afirmação intrépida de que ela não agüentava mais aquilo. Aquela foi uma expressão individual de um anseio atemporal pela liberdade e a dignidade humanas. Ela não havia sido `plantada' ali pela NAACP ou por qualquer outra organização; ela foi plantada ali pelo seu senso pessoal da dignidade e do respeito por si próprio. Ela ficou grudada naquele assento pelas indignidades acumuladas ao longo de tantos anos, e pelas aspirações infinitas das gerações que ainda estavam por nascer".

Rosa Parks foi muito ativa no que se referia à NAACP de Montgomery. Junto com o seu marido, Raymond, um barbeiro, ela tomou parte de carreatas destinadas a registrar eleitores e ajudou a levantar dinheiro para garantir a defesa dos Scottsboro Boys (os rapazes de Scottsboro), uma causa célebre entre os defensores dos direitos civis. Os ativistas conseguiram provar que aqueles nove jovens negros estavam sendo acusados equivocadamente de terem estuprado duas mulheres brancas no Alabama em 1931.

Atendendo a um pedido insistente de uma dona de empresa, Virginia Durr, Parks participou de uma conferência que reuniu lideranças inter-raciais na universidade Highlander Folk em Monteagle, no Tennessee, no verão de 1955. Nesta ocasião, diria ela mais tarde, "eu ganhei forças para perseverar no meu trabalho em prol da liberdade, não só para os negros como para todas as pessoas oprimidas".

Mas, enquanto ela voltava para casa apressadamente, vinda do seu trabalho de costureira numa loja de departamentos, naquele dia de 1º de dezembro de 1955, a última coisa que ela poderia imaginar era tornar-se "a mãe do movimento dos direitos civis", como muitos a descreveriam mais tarde. Ela tinha que enviar notificações sobre a eleição de representantes da NAACP que ocorreria em breve. E ela ainda precisava se preparar para o colóquio sobre liderança que ela coordenaria para grupos de adolescentes naquele fim de semana.

"Portanto, para mim, não haveria pior momento para aprontar algo e acabar sendo presa", contou ela numa entrevista em 1988.

Nos ônibus de Montgomery, as quatro primeiras fileiras eram reservadas aos brancos. A parte traseira era para os negros, que representavam mais de 75% dos usuários da rede de transportes públicos da cidade. Os negros podiam sentar-se nas fileiras do meio até que aqueles assentos fossem requisitados por brancos. Então, os negros eram obrigados a deixar o lugar e a procurar por outro assento na parte traseira. Quase sempre, eles tinham que ficar em pé ou até mesmo a deixar o ônibus, caso não houvesse lugar.

Até mesmo o simples ato de tomar o ônibus apresentava obstáculos: caso todos os assentos da frente fossem ocupados por brancos, os negros podiam embarcar para pagar a sua passagem, mas, então, eles eram obrigados a descer do ônibus para entrar novamente pela porta traseira.

Durante anos, os negros se queixaram desse sistema, e Rosa Parks não era nenhuma exceção. "A minha resistência a ser maltratada dentro do ônibus não começou com aquele episódio específico da prisão", disse ela. "Eu andei muito pelas ruas de Montgomery".

Depois de uma altercação em 1943, um motorista cujo nome era James Blake expulsou Parks do seu ônibus. O destino quis que ele estivesse dirigindo o ônibus da linha Cleveland Avenue naquele dia de 1º de dezembro de 1955. Ele pediu que quatro negros cedessem o seu lugar nas fileiras do meio, de modo que um único branco pudesse sentar-se. Três deles obedeceram.

Recordando o incidente num capítulo de "Eyes on the Prize" ("Os olhos da presa"), uma série da televisão pública de 1987 sobre o movimento em prol dos direitos civis, Rosa Parks contou: "Quando ele viu que eu permanecia sentada, ele perguntou se eu iria me levantar e eu respondi: `Não, não vou'. E ele disse então: `Pois bem, se você não levantar, vou ter de chamar a polícia e você será presa', disse. Eu respondi: `Pode fazer isso'".

A sua prisão foi uma resposta às preces do Conselho Político das Mulheres, que foi fundado em 1946 para lutar contra os mal-tratos infligidos aos usuários negros de ônibus, e também às de E.D. Nixon, um dos advogados que lideravam o movimento em prol da igualdade para os negros em Montgomery.

Vários negros já haviam sido presos, e até mesmo mortos por desobedecerem a motoristas de ônibus. Os ativistas dos direitos civis já haviam abraçado a causa de uma adolescente de cerca de 15 anos que havia sido presa em março de 1955 por ter se recusado a ceder seu assento, e Parks estivera entre os que haviam levantado dinheiro para garantir a defesa da menina. Mas quando eles souberam que aquela adolescente estava grávida, eles chegaram à conclusão de que ela não poderia se tornar um símbolo da sua causa.

Por sua vez, Rosa Parks era considerada como "uma das melhores cidadãs de Montgomery - não uma das melhores cidadãs negras, e sim uma das melhores cidadãs de Montgomery como um todo", comentou Martin Luther King.

Enquanto E. D. Nixon se reunia com advogados e pregadores para planejar formas de derrubar as leis Jim Crow, o conselho das mulheres distribuiu 35 mil cópias de um panfleto que convocava os negros a boicotarem os ônibus naquela segunda-feira, 5 de dezembro, dia da audiência do processo de Rosa Parks.

"Não andem de ônibus na segunda-feira, seja para trabalhar, para ir à cidade, à escola ou para qualquer outro lugar", recomendava o folheto.

No domingo, 4 de dezembro, a convocação foi repercutida nos púlpitos de muitas igrejas freqüentadas por negros, enquanto um artigo de primeira-página no jornal "The Montgomery Advertiser" também repetiu a instrução.

Naquela segunda-feira, alguns negros se locomoveram em carros compartilhados por grupos. Outros utilizaram táxis que pertenciam a negros, os quais cobraram apenas o valor da passagem de ônibus, ou seja, 10 centavos de dólar. Mas a maioria dos usuários negros de ônibus - 40.000 pessoas - andou a pé. Alguns transpuseram distâncias acima de 32 quilômetros, para ir e para voltar do seu trabalho.

Durante uma reunião numa igreja, no final daquele dia, os negros presentes decidiram por unanimidade prosseguir o boicote até que os seus pedidos sejam atendidos: eles deveriam ser tratados civilmente, os ônibus deveriam ser dirigidos também por motoristas negros e os assentos no meio dos veículos deveriam ser utilizados por quem chegasse primeiro.

O boicote durou 381 dias. Durante este período, muitos negros foram perseguidos e presos com base em motivos inconsistentes. Igrejas e casas, inclusive as de Martin Luther King e de E. D. Nixon, foram dinamitadas.

Finalmente, em 13 de novembro de 1956, ao dar seu veredicto no caso de Browder versus Gayle, a Corte Suprema tornou ilegal a segregação nos ônibus urbanos. A decisão da corte entrou em vigor em Montgomery em 20 de dezembro; o boicote foi encerrado no dia seguinte. Mas houve uma escalada da violência: atiradores alvejaram ônibus assim com a casa de Luther King; bombas foram detonadas dentro de igrejas e nas casas de sacerdotes, inclusive na do reverendo Ralph David Abernathy; alguns negros foram surrados por bandos de brancos errantes.

No início do ano seguinte, o casal Parks mudou-se de Montgomery para Hampton, na Virgínia, principalmente porque Rosa não conseguia encontrar trabalho, mas também por causa de divergências com Luther King e outros líderes do movimento de luta em prol dos direitos civis da cidade. Na Virgínia, Rosa trabalhou como garçonete no refeitório da faculdade do Hampton Institute, um colégio de negros.

Mais tarde naquele ano, atendendo ao pedido insistente do seu irmão mais novo, Sylvester, Rosa Parks mudou-se para Detroit, junto com o seu marido e a sua mãe, Leona McCauley. Lá, ela trabalhou como costureira até 1965, quando o político republicano John Conyers Jr. contratou-a como assistente no seu escritório em Detroit que servia de quartel-geral para as suas atividades no Congresso. Ela se aposentou em 1988.

Rosa Louise McCauley nasceu em Tuskegee, no Alabama, em 4 de fevereiro de 1913, sendo a primogênita dos dois filhos de Leona e James McCauley. Embora os McCauleys fossem fazendeiros, o seu pai também trabalhava como carpinteiro e a sua mãe como professora.

Rosa McCauley estudou em escolas rurais ainda a idade de 11 anos, até ser admitida na escola para moças de Miss White em Montgomery. Ela chegou a estudar na universidade dos professores do Estado do Alabama, mas desistiu para cuidar da sua avó que estava doente. Em função disso, foi apenas aos 21 anos, quando ela já estava casada havia dois anos, que ela obteve um diploma universitário.

Tímida e afável, ela se mostrava com freqüência pouco à vontade com as demonstrações de quase beatificação que lhe eram feitas por negros, que a reverenciavam como um símbolo da sua luta pela dignidade e a igualdade. "Quando você permaneceu sentada", lhe disse uma mulher durante uma reunião destinada a registrar eleitores em Brooklyn, em 1988, "o nosso povo inteiro levantou-se". Contudo, Rosa Parks costumava responder que ela apenas esperava inspirar as pessoas, principalmente os jovens, "a se dedicarem o bastante para tornar a sua vida útil para eles mesmos e para ajudar os outros".

Ela também chegou a afirmar o seu temor com o fato de que, desde o dia em que o aniversário de Martin Luther King se tornou um feriado nacional a imagem deste líder vinha sendo denegrida e menosprezada, uma vez que alguns o descreviam como um homem que não passava de um "sonhador".

"Até onde eu me lembro dele, este homem era muito mais do que um sonhador", disse Parks. "Ele era um ativista que acreditava tanto na ação quanto no discurso contra a opressão".

Ela ria bastante ao relembrar algumas das experiências que ela tivera com crianças, cuja curiosidade era muito superior aos seus conhecimentos da história.

"Eles queriam saber se eu era viva durante a época da escravidão!", contou.

"Comparavam-me com Harriet Tubman [1822-1913, líder negra que ficou conhecida como 'a Moisés do seu povo', ajudando muitos deles a obterem a alforria], e com Sojourner Truth [Isabella Baumfree, 1797-1883, uma das primeiras mulheres abolicionistas e ativistas dos direitos civis da história americana]; perguntavam se eu as conheci pessoalmente".

Raymond, o marido de Rosa Parks, morreu em 1977. Não há descendentes imediatos. Ela desafiou a truculência dos brancos ao se recusar a ceder seu lugar a um deles, num ônibus, em 1955, num caso famoso que contribuiu para erradicar as leis segregacionistas que conferiam aos negros o status de cidadãos "desclassificados" Jean-Yves de Neufville

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,59
    3,276
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -1,54
    61.673,49
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host