UOL Notícias Internacional
 

27/10/2005

Especialistas alertam sobre a capacidade de produção de petróleo

The New York Times
Jeff Gerth
Na última primavera, a Casa Branca abraçou publicamente os planos da Arábia Saudita de aumentar significativamente sua capacidade de produção de petróleo. Mas privativamente, algumas autoridades e outros que aconselham o governo estão céticos diante de algumas destas previsões sauditas.

Os Estados Unidos dependem fortemente de alguns poucos produtores para
manter capacidade de reserva suficiente para manter os preços e mercados
estáveis, mesmo durante uma guerra ou desastre. À medida que os preços do petróleo passaram a subir nos últimos anos devido à crescente demanda e oferta limitada, o governo Bush tem pressionado os países do Golfo Pérsico, particularmente a Arábia Saudita, a produzirem mais petróleo.

Mas dúvidas em relação às garantias da Arábia Saudita de quanto é capaz de expandir a capacidade -e por quanto tempo- foram levantadas em um relatório secreto de inteligência e uma análise separada de um importante consultor de petróleo do governo, segundo funcionários do governo federal e o especialista em petróleo.

Se tais avaliações céticas estiverem corretas, as esperanças do governo de uma maior oferta de petróleo serão mais difíceis de se concretizar. As expectativas em Washington sobre a produção de petróleo no Iraque e nos Emirados Árabes Unidos provaram ser exageradamente otimistas, e a Casa Branca tem fracassado em seguir os conselhos sobre ambos os países dados por especialistas da indústria e do governo, segundo documentos e entrevistas.

Os desafios diante do governo Bush na questão de energia ocorrem enquanto as companhias petrolíferas estão prestes a declarar lucros recordes devido aos altos preços do petróleo e do gás natural. A Exxon Mobil, a maior companhia privada do mundo no setor petrolífero, deverá anunciar na quinta-feira um lucro trimestral de mais de US$ 8,5 bilhões. Ao ser perguntado sobre os lucros na quarta-feira, o secretário de imprensa da Casa Branca, Scott McClellan, disse que "o governo e o setor privado têm seu papel" na restauração da infra-estrutura vital danificada neste ano pelos furacões no Golfo do México e Flórida.

Os preços da gasolina subiram depois dos furacões Katrina e Rita,
pressionando mercados de petróleo já pressionados devido aos níveis
incomumente baixos de capacidade de produção adicional. Mas quando se trata de oferta de petróleo, as empresas americanas são limitadas: os países que controlam grande parte do petróleo do mundo mantêm afastados os produtores do setor privado. Assim, sejam quais forem as repercussões políticas dos altos custos da energia, o governo terá pouca escolha a não ser contar com as promessas da Arábia Saudita, a maior exportadora de petróleo do mundo, de que continuará sendo a torneira do mercado.

"Sempre houve esta opinião no lado americano", disse Nawaf Obaid, um
consultor de segurança de energia para a Arábia Saudita, "de que os sauditas sabiam o que estavam fazendo e com justiça".

Mas um alto funcionário de inteligência, que insistiu em permanecer anônimo porque não foi autorizado a falar publicamente sobre o assunto, disse que os planos sauditas para aumentar a produção em quase 14% nos próximos quatro anos não são suficiente para atender a demanda global. Mesmo a Administração de Informação de Energia reduziu recentemente suas expectativas de quão mais petróleo os sauditas poderão produzir em 20 anos.

Certamente, como disse McClellan na quarta-feira, há mais por trás da
política de energia do presidente Bush do que buscar assegurar capacidade adicional. O governo tem pedido por uma maior produção e refino domésticos, desenvolvimento de combustíveis alternativos e renováveis, expansão da energia nuclear e, recentemente, maior conservação. Mesmo assim, os países do Golfo Pérsico são vistos como cruciais na moderação dos preços futuros. Durante a campanha presidencial de 2000, quando os preços elevados da gasolina já eram uma questão, Bush prometeu se esforçar mais para influenciar os produtores do Golfo Pérsico a extraírem mais petróleo.

No início, o governo estava mais interessado em saber se os sauditas
produziriam mais petróleo durante o antecipado conflito no Iraque. Muito
antes do início da guerra, a capacidade ociosa dos sauditas -cerca de 3
milhões de barris por dia além dos 7 milhões de barris que já eram
produzidos diariamente em 2002- parecia suficiente.

A capacidade de produção depende de quantidade de petróleo no solo assim
como da infra-estrutura necessária para perfurar, processar, armazenar e
transportar o petróleo. Aumentar a capacidade é caro e leva tempo.

"Uma capacidade de longo prazo não era considerada um problema", disse
Robert W. Jordan, o embaixador americano na Arábia Saudita de 2001 a 2003. Os sauditas, ele disse, "nunca expressaram qualquer preocupação sobre a necessidade de expandir".

"Nem nós, ou pelo menos eu, os abordamos neste assunto", disse ele.

Em abril de 2002, quando Bush se encontrou com o príncipe Abdullah, agora rei, o foco não era o petróleo, mas sim a questão israelenses e palestinos, segundo Jordan. Os Estados Unidos não abordaram a questão da capacidade porque, mesmo dois anos depois, as autoridades sauditas estavam expressando publicamente a confiança de que não haveria a necessidade ao longo dos cinco anos seguintes de aumentar a capacidade. Passar para 12 milhões ou 15 milhões de barris por dia era possível, porque o país tinha uma estimativa de 150 bilhões de barris além dos 260 bilhões em reservas comprovadas, disse Nansen G. Saleri, um alto executivo saudita de petróleo, em uma conferência em Washington em fevereiro de 2004.

Mas logo a crescente demanda na Ásia tornou a necessidade de investir em
maior produção "uma questão de grande importância", segundo Spencer Abraham, o secretário de Energia no primeiro mandato do presidente. Em maio de 2004, sob pressão dos Estados Unidos e outros países industrializados, os sauditas prometeram extrair mais petróleo. A Saudi Aramco, a companhia petrolífera estatal, planejava aumentar a capacidade para 12,5 milhões de barris por dia até 2009.

Antes disso, Ali Al Naimi, o ministro do petróleo, e executivos de petróleo sauditas diziam que o país poderia adicionar 200 bilhões de barris -a partir dos campos existentes e dos recursos ainda a serem descobertos- às suas reservas, permitindo a produção de 15 milhões de barris por dia por 50 anos ou talvez mais.

Pouco antes de se encontrar com o príncipe Abdullah em abril, Bush disse que queria "uma resposta franca" sobre quanto petróleo adicional os sauditas poderiam extrair. Em uma sessão no Texas, o príncipe reafirmou os planos de expansão já anunciados. A capacidade da Arábia Saudita agora é de cerca de 11 milhões de barris por dia. Os sauditas extraem cerca de 9,5 milhões de barris, deixando uma reserva de cerca de 1,5 milhão de barris, grande parte de tipos mais pesados não muito utilizáveis no Ocidente. Não há virtualmente nenhuma outra capacidade global de reserva.

Stephen J. Hadley, o conselheiro de segurança nacional, disse aos repórteres após o encontro que o programa saudita era "um plano muito bom porque tratava da questão por trás quando se conversa sobre preço, que é a questão da disponibilidade de petróleo e disponibilidade de capacidade".

Mas há dúvidas sobre as afirmações sauditas sobre quanto petróleo eles têm. Dados sobre as reservas são fortemente guardados, e os sauditas rebatem os céticos como sendo desinformados.

Mas eles não negaram as preocupações levantadas por Edward O. Price Jr., o ex-chefe de exploração da Saudi Aramco e um conselheiro do governo americano sobre o petróleo do Golfo Pérsico durante ambas as guerras no Iraque. Ele questionou a futura dependência da capacidade saudita em um artigo no "The New York Times", no ano passado, e queria saber de seus ex-colegas como chegaram à estimativa de mais de 150 bilhões de barris de petróleo adicionais. Vinte anos atrás, um estudo detalhado feito por geólogos de quatro grandes companhias petrolíferas americanas, na época em parceria com a Aramco, revelou pouco sobre recursos de petróleo não descobertos, ele disse.

Saleri, que administra as reservas sauditas, se encontrou com Price nos
Estados Unidos no ano passado. Membros da Saudi Aramco se recusaram a
responder perguntas sobre o encontro. Mas Price disse em uma entrevista que Saleri lhe disse que a base para os números maiores de petróleo era um estudo global de 2000 do Levantamento Geológico dos Estados Unidos (USGS), estimando os recursos não descobertos na Arábia Saudita em 87 bilhões de barris.

Price disse ter respondido que as estimativas "da USGS não tinham
credibilidade e ultrapassavam em muito os estudos detalhados da antiga
equipe da Aramco". O estudo da Aramco, diferente da estimativa da USGS,
envolveu trabalho de campo detalhado.

Dúvidas sobre as estimativas de longo prazo da Arábia Saudita também foram levantadas no ano passado em um relatório do Conselho Nacional de
Inteligência, um conselho consultor que produz as estimativas de
inteligência de maior autoridade do governo, segundo um funcionário do
governo que se recusou a ser identificado porque o relatório era
confidencial.

Além da Arábia Saudita, o governo Bush tem se voltado para os Emirados
Árabes Unidos como fornecedor com capacidade adicional. Em 2001, os Emirados planejavam aumentar a capacidade de 2,5 milhões de barris por dia para 3 milhões em 2005. Mas a capacidade não aumentou em quatro anos, o que um funcionário do governo atribuiu à falta de urgência por parte das autoridades dos Emirados e pela falta de atenção de alto nível por parte das autoridades americanas.

Um relatório de política energética do vice-presidente Dick Cheney, em maio de 2001, recomendava que o presidente apoiasse ativamente iniciativas nos países do Golfo Pérsico que permitissem investimento estrangeiro, o que poderia levar a um aumento de produção. Os Emirados Árabes Unidos foram citados com um dos poucos países que poderiam aumentar sua capacidade de produção de petróleo.

Um relatório da força-tarefa de Cheney, divulgado em janeiro pelo
Departamento de Energia, disse que as autoridades do governo não estavam
seguindo as recomendações em quatro países. Mas os Emirados não estavam
entre eles, e o presidente não foi mencionado no relatório.

Quando Bush falou após a guerra no Iraque com o xeque Zayed Bin Sultan Al Nahayan, o soberano dos Emirados Árabes até sua morte no ano passado, ele discutiu a segurança no Iraque, não questões de investimento em petróleo, segundo um diplomata ocidental, que se recusou a ser identificado por causa da natureza sensível das discussões entre chefes de Estado. Um porta-voz da Casa Branca se recusou a comentar.

Desde janeiro, os Emirados Árabes anunciaram um aumento de capacidade para 2,7 milhões de barris por dia até 2006, e negociações há muito estagnadas com a Exxon Mobil para o desenvolvimento de um campo marítimo começaram a caminhar para a conclusão. Mas a capacidade do país continua sendo de 2,5 milhões de barris por dia, sem nenhuma reserva, segundo a Administração de Informação de Energia.

No Iraque, também, as esperanças do governo Bush foram desapontadas. A
remoção de Saddam Hussein em 2003 mudou o Iraque de pária para uma possível escora para os mercados globais de petróleo. Logo após a invasão, importantes autoridades do governo eram otimistas quanto a produção do Iraque: elas diziam que ultrapassaria os níveis pré-guerra de 2,5 milhões de barris por dia e chegaria a 3 milhões de barris por dia até o final de 2003 ou final de 2004.

Mas um relatório de julho do Escritório de Contabilidade do Governo, um
órgão de auditoria, revelou que a produção iraquiana tem caído desde o final de 2004, de 2,5 milhões de barris por dia para 2,1 milhões de barris, apesar dos pedidos da Casa Branca de quase US$ 3 bilhões para restaurar a indústria do petróleo daquele país à sua capacidade pré-guerra.

Um motivo importante para o declínio, revelou o relatório, era a
administração imprópria das reservas. Gary Edson, o então vice-conselheiro de segurança nacional, foi informado dois anos atrás que a produção iraquiana cairia, e não aumentaria, segundo um relatório externo apresentado a ele.

Um porta-voz da Casa Branca, Frederick Jones, se recusou a discutir o
relatório. Mas, segundo Wayne Kelley, um engenheiro de petróleo que escreveu o relatório e o discutiu com Edson em novembro de 2003, não foi dada atenção à mensagem. George El Khouri Andolfato

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