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29/10/2005

Ártico derrete mais rapidamente, dizem cientistas

The New York Times
Andrew C. Revkin*
Em 1969, Roy Koerner, um glaciologista do governo canadense, foi um dos quatro homens (e 36 cachorros) que completaram a primeira travessia de superfície do oceano Ártico, do Alasca à Noruega passando pelo pólo norte.

Hoje essa jornada seria impossível, ele diz. Simplesmente não há gelo suficiente. Em setembro, a área coberta por gelo marinho atingiu seu menor nível histórico. "Olho para isso como um outro mundo", disse Koerner. "Há pouco tempo estudei a proposta de um sujeito para atravessá-la de caiaque."

Aos 73 anos, Koerner, conhecido como Fritz, ainda escala as antigas geleiras que formam penhascos sobre o oceano para extrair amostras que revelam antigas tendências climáticas. E ele diz que todas indicam que o aquecimento do Ártico verificado no último século é diferente do que ocorreu nas eras de calor anteriores.

Vários cientistas dizem que demoraram muito para aceitar que o aquecimento global, em parte resultado do dióxido de carbono e outros gases que retêm o calor na atmosfera, poderia encolher a capa de gelo do Ártico no verão.

Mas muitos desses cientistas concluíram que o aquecimento causado pelo homem, combinado com a tendência da região a acentuar as mudanças, levaram o Ártico que conhecem além do ponto de reversão.

O aquecimento e derretimento especialmente acentuados nas últimas décadas são considerados por muitos especialistas a conseqüência de uma combinação de causas humanas e naturais. Mas diversas simulações em computador do clima global feitas recentemente por meia dúzia de centros de pesquisa em todo o mundo mostram que no futuro a influência humana será predominante.

Mesmo com emissões modestas de gases do efeito estufa, quase todo o gelo marinho no verão provavelmente desaparecerá até o final do século. Algumas simulações, incluindo as feitas num modelo avançado no Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas em Boulder, Colorado, mostram a maior parte do gelo de verão desaparecendo até 2050, disse Marika Holland, uma cientista que trabalha na parte de gelo marinho desse modelo.

Das várias simulações, todas feitas para um relatório científico sobre tendências climáticas a ser lançado em 2007, as únicas que mantêm grande parte do gelo marinho de verão no Ártico até 2100 são as que assumem que as emissões de gases do efeito estufa continuarão constantes nos níveis medidos em 2000 --coisa que já é impossível, apenas cinco anos depois.

Todos os outros modelos produzem um oceano Ártico no verão semelhante ao "mar aberto polar" que foi procurado por oceanógrafos e exploradores em meados da década de 1880. "Certamente poderia haver navegação na costa da Eurásia, e os ursos polares teriam sérios problemas", disse Holland.

Os modelos, é claro, são visões impressionistas de uma realidade muito mais complexa, por isso suas projeções são incertas. Mas o que preocupa os cientistas em campo, que formam suas opiniões com base em indícios empíricos gravados no gelo ou registrados por termômetros, é que as observações das mudanças e as evidências de antigos padrões concordam com os modelos.

David Barber, um perito em Ártico da Universidade de Manitoba (Canadá), disse que é preciso reduzir rapidamente as emissões de gases para evitar danos ainda maiores. Os céticos que usam as incertezas para justificar a demora dessas ações esquecem que a incerteza tem dois gumes, e as coisas poderão ser muito piores que o previsto, dizem Barber e outros.
"Gostaria que tivéssemos começado há 50 anos, mas não começar agora seria uma verdadeira tragédia", disse Barber.

É importante compreender que o encolhimento do gelo marinho de verão no próximo século é inevitável, e os seres humanos precisam adaptar-se a isso, ele acrescentou.

Essa inevitabilidade representa um grande problema para os grupos ambientalistas, muitos dos quais sugeriram que uma redução dos gases do efeito estufa poderia salvar o urso polar e as tradições esquimós, que dependem do gelo marinho.

"Mesmo que desligassem todos os motores neste momento, não há escapatória a menos que se retire fisicamente o CO2 do ar", disse Henk Brinkhuis, um especialista em antigos ecossistemas do Ártico na Universidade de Utrecht, Países Baixos. Ele acrescentou que isso teria de ser feito em vasta escala, muito além de simplesmente plantar árvores ou coisa parecida.

"Você pode discutir por muito tempo se esse processo vai levar 20, 50 ou cem anos, mas não muda o fato de que ele vai acontecer", disse Brinkhuis.

OBRA EM PROGRESSO

A imagem que surge das futuras grandes mudanças no Ártico vem dos esforços combinados dos modeladores em suas salas de computação climatizadas e cientistas em campo com os pés amortecidos e as barbas congeladas. Por muito tempo será uma obra em progresso. Mas as tendências subjacentes são robustas, segundo muitos cientistas do Ártico.

O trabalho de campo sugere que as últimas temporadas quentes na região, como um período nas décadas de 1920 e 30, limitaram-se a certas áreas, enquanto o aquecimento recente avançou juntamente com o aumento das temperaturas no hemisfério norte -- um sinal de que há grandes forças em ação, e não uma variabilidade regional, dizem os cientistas.

Os estudos de campo também forneceram informações sobre como a energia flui do ar para o oceano e para o gelo em fusão, como o gelo derretido adoça a água e o crescimento do gelo a torna mais salgada --dinâmicas que ajudaram os modeladores a refinar seus programas.

Expedições recentes em navios quebra-gelo ajudaram a formar a primeira imagem detalhada das comunidades de algas, plâncton, bacalhaus pequenos, focas e ursos polares que formam um ecossitema baseado no gelo, tão frágil quanto o próprio gelo.

No Ártico virtual das simulações, milhares de linhas de código de computador imitam o modo como o gelo, os oceanos e a atmosfera interagem e são componentes de modelos globais maiores do clima e dos oceanos terrestres.

Os modelos são a única maneira de testar como o planeta poderá reagir a diversas ações humanas. Como só existe uma terra, não há outras opções para esses estudos, pois a verdadeira terra já está adiantada em um experimento indesejado --o rápido acúmulo de gases do efeito estufa de longa duração.

Os que trabalham nesse campo aperfeiçoaram constantemente suas simulações. Uma década atrás, por exemplo, a maioria delas retratava o gelo como placas estáticas e reflexivas, e hoje quase todas mostram como o gelo é empurrado pelo vento e as correntes marinhas, disse Holland.

A inevitabilidade dos recuos do gelo no verão, segundo ela e outros especialistas, é conseqüência da natureza do sistema climático, que é parecido com um volante [peça circular pesada, presa a um eixo, que serve para fazê-lo girar].

Quando acionados, os volantes tendem a continuar em movimento. Dentro de algumas décadas, dizem os cientistas que estudam a região, o poder isolante dos gases do efeito estufa vai dominar as flutuações naturais do clima, possivelmente durante séculos.

O volante no Ártico se move mais depressa do que em outras áreas porque a região amplia as mudanças. O mecanismo mais evidente é a diferença entre o modo como o gelo marinho branco reluzente e o mar escuro agem sob a luz do sol. O gelo reflete a maior parte da energia solar, mandando-a de volta ao espaço. A água absorve a maior parte da energia.

Uma das conseqüências disso é que cada área do oceano exposta pelo derretimento do gelo absorve o calor, derretendo mais gelo, expondo mais oceano, absorvendo mais calor --e assim por diante, até que as maratonas realizadas anualmente na primavera sobre o gelo flutuante perto do pólo norte serão substituídas por regatas.

SALVANDO A GROENLÂNDIA

O aquecimento já provocou raiva e confusão entre os povos nativos, de um lado, e entusiasmo por novas rotas de navegação entre empresários, do outro. Mas os cientistas ainda se esforçam para descrever o que acontece.

"Você poderia chamar de 'temperatização' do Ártico; ainda não inventamos uma palavra para isso", disse Charles Voeroesmarty, diretor do Centro de Pesquisas de Sistemas Complexos na Universidade de New Hampshire e um dos 21 co-autores de um artigo recente sobre as mudanças, publicado em "Eos", uma revista da União Geofísica Americana.

O artigo foi o resultado de várias reuniões de cientistas do Ártico organizadas pela Fundação Nacional de Ciências nos últimos dois anos.

Intitulado simplesmente "O sistema ártico na trajetória para um novo estado sazonal sem gelo", ele diz: "Parece haver poucos processos --ou nenhum-- no sistema ártico capazes de alterar essa trajetória".

Esses autores e muitos outros especialistas concordam com a mesma imagem da região no final deste século: a tundra recua e as florestas se ampliam; a maior parte do gelo marinho desaparece no final do verão; os litorais se desgastam sob o assalto de ondas impelidas pelo vento em águas antes cobertas de gelo; o permafrost (subsolo gelado) transforma-se em pântano; e antigos lagos que antes ficavam sobre terreno permanentemente congelado escoam.

Os climatologistas dizem que com o tempo os efeitos poderão se estender muito além do norte escassamente povoado, contribuindo para mudanças climáticas e oceânicas que poderão secar o oeste americano e possivelmente reduzir a velocidade das correntes quentes que fluem para o Atlântico norte e mantêm o clima no norte da Europa mais ameno.

Os efeitos também poderiam incluir um grande aumento do índice de elevação dos mares pelo gelo derretido e um aquecimento ainda maior quando mais gases do efeito estufa, presos no permafrost e no leito marinho do Ártico, forem liberados pelo aquecimento.

Por exemplo, cientistas russos e americanos que estudaram recentemente os lagos no nordeste da Sibéria relataram que a fusão do permafrost está gerando metano, um poderoso gás do efeito estufa. Em certos pontos, há tanto metano sendo liberado que correntes de bolhas impedem que a superfície congele mesmo em pleno inverno siberiano.

O máximo que se pode esperar, dizem alguns cientistas climáticos, é limitar a contribuição humana ao aquecimento para retardar a verdadeira ameaça calamitosa, embora de lento avanço, no extremo norte: o derretimento da calota de gelo da Groenlândia.

Com uma altura de 3.200 metros e estendendo-se por uma área duas vezes maior que a da Califórnia, esse vasto reservatório --basicamente o golfo do México congelado e colocado sobre terra-- contém água suficiente para levantar os níveis do mar em todo o mundo em mais de 6 metros.

Nos últimos anos, as camadas de gelo na Groenlândia aumentaram no centro, devido à maior precipitação de neve, mas vêm derretendo ainda mais nas bordas no verão. Muitos especialistas locais dizem que a fusão já está ganhando a parada.

James E. Hansen, um cientista da Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa) que cria simulações do clima terrestre há quase quatro décadas, é um dos que dizem que reduções imediatas nas emissões de gases poderão evitar a fusão da Groenlândia.

Hansen disse que apesar de os efeitos amplificadores do Ártico, como a transição do gelo branco para água escura, serem substanciais, eles ainda ocorrem somente quando a região sofre uma grande influência externa de calor, como a transferência do restante do planeta aquecido.

Se forem tomadas medidas rápidas para reduzir o crescimento das emissões de dióxido de carbono, e outras iniciativas mais fáceis começarem a cortar as emissões de metano, fuligem e outras fontes de aquecimento, ele disse, talvez seja possível reter parte do gelo marinho de verão e evitar a rápida deterioração da capa de gelo da Groenlândia.
"É física e tecnologicamente possível, mas é preciso vontade para se conseguir isso", disse Hansen.

Outros cientistas não são tão otimistas.

Novos estudos de gelo de antigas geleiras e de sedimentos do piso oceânico mostram que as simulações de computador que projetam um forte aquecimento e recuos do gelo na região em longo prazo podem estar sendo muito subestimadas, disse Brinkhuis.

"Tudo o que estamos vendo mostra que as coisas podem acontecer mais depressa do que pensamos", ele acrescentou, referindo-se aos registros geológicos e glaciais das antigas mudanças no Ártico. O atual aumento dos gases do efeito estufa, ele continuou, é semelhante a antigas alterações naturais que modificaram o mundo profundamente.

"Não houve aumentos tão rápidos do dióxido de carbono como temos hoje em casos extremos no passado", disse Brinkhuis, incluindo períodos como um cerca de 50 milhões de anos atrás que transformou o oceano Ártico em um lago quente coberto de algas.

TURBULÊNCIA CONFUNDE

Brinkhuis e muitos outros pesquisadores tarimbados do Ártico advertem que há uma espécie de paradoxo nas tendências do Ártico: enquanto o destino da região em longo prazo pode estar decidido de modo geral, ninguém deve presumir que o recente aquecimento e recuo sazonal do gelo que chamaram a atenção do mundo continuarão uniformemente no futuro.

"Os mesmos processos do Ártico que ampliam as mudanças climáticas causadas pelo homem estão ampliando a variabilidade natural", explicou Asgeir Sorteberg, um modelador climático do Centro Bjerknes de Pesquisa Climática, em Bergen, Noruega.

De fato, dizem os especialistas, poderá haver facilmente nas próximas décadas períodos em que a região esfrie e o gelo aumente.
A variabilidade natural do Ártico é moldada pela geografia e a física básicas.

Perto do equador, o clima é tão previsível quanto os antigos ventos alísios que ali sopram, formados por correntes constantes de luz solar e moldados pela rotação da terra. Mas perto dos pólos --e particularmente do pólo norte-- tudo se agita, diz David Atkinson, um cientista atmosférico do Centro de Pesquisas do Ártico na Universidade do Alasca em Fairbanks.

A região tem praticamente o clima mais turbulento da terra, ele disse, cujas condições são moldadas por ciclos lentos de mudanças de temperatura no oceano Pacífico, mudanças pulsantes em áreas de alta e baixa pressão barométrica no pólo e no Atlântico norte, e fundamentalmente variações caóticas na atmosfera.

O clima do pólo norte é ainda mais variável do que na outra extremidade da terra, em parte porque o hemisfério norte é uma mistura de continentes e ilhas cercados pelo pequeno mas dinâmico oceano Ártico, que é parcialmente coberto por gelo.

O hemisfério sul é principalmente oceano com um continente permanentemente coberto de gelo no pólo.

Devido a essa turbulência natural, uma parte significativa dos especialistas em Ártico dizem que não estão convencidos de que os seres humanos sejam responsáveis pelas alterações no norte.

"É definitivamente verdade que o nível de variabilidade nas regiões de alta latitude é enorme, e é muito difícil tentar separar isso de uma tendência induzida pelos humanos", disse Igor Polyakov, outro espeialista do centro de pesquisas.

Nos 12 mil anos desde o fim da última era glacial, ele disse, as condições se aqueceram rapidamente, no início além do ponto em que estão hoje. Depois, 10 mil anos atrás, começou um logo período de resfriamento, que não foi interrompido até o último século, aproximadamente, quando se reverteu em uma ascensão marcante.

Em curto prazo, as flutuações naturais provavelmente apoiarão os dois lados do debate sobre como reagir ao aquecimento global, com anos frios e quentes, disse Richard B. Alley, geocientista da Universidade Estadual da Pensilvânia.

Mas ele e outros cientistas dizem que está claro que em longo prazo o Ártico ficará mais quente, uma conclusão básica da Avaliação de Impacto do Clima Ártico, um relatório encomendado pelos oito países árticos e divulgado no ano passado.

Koerner, o glaciologista canadense, indicou que em escalas de tempo de milênios o aquecimento recente chegou a alterar uma longa tendência de esfriamento. "A tendência ao aquecimento é ainda mais importante porque não ocorre sobre um passado estável, mas sobre algo que deveria estar esfriando", ele disse.

Por enquanto, os modeladores e pesquisadores de campo continuam trabalhando pelo menos em paralelo, quando não em conjunto. Por exemplo, a modeladora Holland nunca viu o verdadeiro Ártico, e foi convidada a visitá-lo por seu colega pesquisador Donald Perovich. "Eu gostaria de ver como é antes que desapareça", ela disse.

*Colaborou Craig Duff, em Manitoba. Alteração ameaça ecossistema, povos nativos e litorais pelo mundo Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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