UOL Notícias Internacional
 

29/10/2005

Assessor do vice é indiciado no escândalo da CIA

The New York Times
David Johnston e Richard W. Stevenson*

Em Washington
Um grande júri federal indiciou na sexta-feira (28/10) I. Lewis Libby Jr., o chefe de Gabinete do vice-presidente Dick Cheney, em cinco crimes, entre eles mentir aos investigadores e enganar o grande júri no caso de vazamento da CIA, aprofundando o ar de crise política na Casa Branca e deixando muitas questões sobre o assunto não respondidas.

Libby foi indiciado por obstrução da Justiça, duas acusações de falso
testemunho aos investigadores do FBI e duas acusações de perjúrio no grande júri. O indiciamento apresentou Libby como uma testemunha que mentiu repetidas vezes e forneceu relatos fictícios ao grande júri sobre a forma como lidou com os repórteres.

Um dos funcionários de posição mais alta e influentes no governo, Libby renunciou imediatamente e deixou a Casa Branca.

Ele disse posteriormente em uma declaração por escrito que esperava ser exonerado. Se condenado de todas as acusações, ele poderá enfrentar até 30 anos de prisão e multas de até US$ 1,25 milhão.

Em uma coletiva de imprensa no Departamento de Justiça, o promotor especial no caso, Patrick J. Fitzgerald, disse que a investigação "ainda não acabou", mas se recusou repetidas vezes a dizer se pedirá indiciamentos adicionais.

Os fatos do dia deixaram não resolvido o destino de Karl Rove, o alto conselheiro do presidente Bush e vice-chefe de Gabinete, que foi alertado pelo promotor que corria sério risco legal mas que não foi acusado na sexta-feira. Com o prazo de seu grande júri no final, Fitzgerald disse que pode apresentar qualquer nova evidência para um grande júri já convocado se necessário.

O advogado de Rove, Robert D. Luskin, disse em uma declaração que está confiante de que Fitzgerald concluirá que seu cliente não fez nada errado.

As acusações contra Libby e a decisão do promotor de não indiciar Rove prenderam a atenção de Washington, deixaram a Casa Branca se esforçando para isolar Bush de qualquer dano político e encorajaram os democratas a pressionar com seu argumento de que o governo tem sido desonesto com o povo americano.

Mas em vez de encerrar o assunto após 22 meses de uma intensa investigação que foi até o coração da Casa Branca, ele abriu um novo capítulo. Libby poderá enfrentar um julgamento que provavelmente exporá ao público parte do funcionamento interno do governo e provavelmente exigirá o testemunho de Cheney. E o indiciamento apenas acentuou quantos elementos do caso continuam obscuros pelo sigilo dos procedimentos legais.

Fitzgerald foi visto na manhã de sexta-feira do lado de fora do escritório de James Sharp, o advogado pessoal de Bush. O presidente foi entrevistado sobre o caso por Fitzgerald no ano passado. Não se sabe o que foi discutido entre o promotor e Sharp, se é que algo foi discutido.

Sharp não retornou o telefonema e o porta-voz de Fitzgerald, Randall Samborn, se recusou a comentar.

Em sua coletiva de imprensa, Fitzgerald não explicou seus motivos para não ter tomado nenhuma ação contra Rove, apesar de o promotor tê-lo alertado de que poderia ser indiciado e ter continuado entrevistando testemunhas e revisando evidências até o meio da semana.

Advogados no caso disseram que Fitzgerald tinha dúvidas sobre se poderia provar que Rove buscou deliberadamente enganar os investigadores sobre sua conversa com um repórter. Aliados de Bush disseram que a expectativa dentro da Casa Branca é de que Rove não será acusado, apesar dele não ter recebido nenhuma palavra oficial de que foi liberado.

O indiciamento de 22 páginas retratou Cheney e muitos de seus assessores como pessoalmente envolvidos em um esforço para saber sobre Joseph C. Wilson IV, um ex-diplomata que despontou na primavera e início do verão de 2003 como um crítico da forma como o governo estava usando a inteligência pré-guerra sobre o programa de armas nucleares de Saddam Hussein para justificar uma invasão ao Iraque.

Mas o indiciamento não acusou Libby da ação que provocou o processo há quase dois anos: o vazamento do nome da esposa de Wilson, Valerie Wilson, uma agente secreta da CIA cuja identidade foi revelada pelo colunista Robert D. Novak, que citou dois altos funcionários do governo como sendo suas fontes.

O indiciamento também não citou as fontes de Novak, fora uma referência a um "Funcionário A" na Casa Branca, que falou com ele uma semana antes da coluna de Novak, de 14 de julho de 2003. Acredita-se que tal funcionário seja Rove.

Segundo advogados do caso, Rove contou ao grande júri sobre a conversa com Novak na qual este mencionou que tinha ouvido que a esposa de Wilson trabalhava na CIA. Rove disse ao grande júri que ele respondeu a Novak dizendo que tinha ouvido a mesma coisa, segundo os advogados.

Várias horas depois de o indiciamento ter sido impetrado e anunciado publicamente no Tribunal Distrital Federal em Washington, Bush apareceu no Gramado Sul da Casa Branca para elogiar Libby como alguém que "trabalhou incansavelmente em prol do povo americano" e para dizer que, apesar dele e seu governo estarem "tristes" com a notícia, eles se manterão "plenamente concentrados nas muitas questões e oportunidades diante deste país."

Cheney, que estava na Geórgia, divulgou uma declaração chamando Libby de "um dos indivíduos mais capazes e talentosos que já conheci".

Segundo o indiciamento, o gabinete de Cheney foi retratado como o centro de um esforço concentrado para obter informação sobre Wilson. O indiciamento aponta que Cheney disse a Libby várias semanas antes da coluna de Novak que a esposa de Joseph Wilson trabalhava na divisão de contraproliferação da CIA, parte da ala clandestina da agência de inteligência. Tal afirmação do promotor sugere que Cheney provavelmente testemunhará no julgamento e levantou perguntas sobre o grau de envolvimento do vice-presidente na forma de lidar com Wilson e suas críticas.

A gabinete de Cheney se recusou a comentar se o vice-presidente concordará em testemunhar, transferindo as perguntas sobre o assunto ao advogado pessoal de Cheney, Terrence O'Donnell, que não retornou o telefonema.

O caso de Libby foi entregue ao juiz distrital federal Reggie B. Walton, em Washington. Nenhuma data foi marcada para a citação ou início do julgamento.

O advogado de Libby, Joseph A. Tate, disse em uma declaração que seu cliente é inocente e que seu caso será defendido "vigorosamente". O advogado disse que Libby cooperou com o promotor e testemunhou "suas melhores e mais honestas lembranças em todas as ocasiões".

Tate disse que Libby apresentou uma grande quantidade de documentos e
assinou liberações permitindo que os repórteres testemunhassem sobre suas conversas confidenciais com ele.

"Nós estamos muito incomodados com o fato do promotor especial ter buscado apontar inconsistências entre as lembranças do sr. Libby e de outros para acusar tais inconsistências como sendo falso testemunho", disse Tate.

O indiciamento apresentou um retrato diferente de um funcionário que repetidas vezes enganou as autoridades sobre suas ações. Ele acusou Libby de obstrução da Justiça por mentir ao grande júri sobre as circunstâncias nas quais teve conhecimento do trabalho de Valerie Wilson na CIA e sobre suas conversas com os jornalistas.

O indiciamento fez duas acusações de falso testemunho em cada uma das duas ocasiões em que ele foi entrevistado pelos agentes do FBI, em outubro e novembro de 2003. Além disso, ele também ele foi duplamente acusado de perjúrio por mentir em duas ocasiões perante o grande júri, em março de 2004.

"Nós fizemos tais acusações porque entendemos que a verdade é o motor de nosso sistema judiciário", disse Fitzgerald, acrescentando posteriormente: "Nós não obtivemos a história corretamente e fomos obrigados a agir".

Além disso, já que Libby disse ao grande júri que soube sobre Valerie Wilson pelos repórteres, disse o indiciamento, os promotores estavam compilando evidência de que foi Libby quem passou a informação a dois
repórteres, Matthew Cooper, da revista "Time", e Judith Miller, do The New York Times".

Cooper e Miller se recusaram a comentar.

Contrariando o testemunho de Libby ao grande júri de que soube sobre Valerie Wilson pelos jornalistas, o indiciamento apresentou evidência mostrando que Libby estava envolvido em um esforço --que teve início antes e era mais agressivo e amplo do que se sabia anteriormente-- para obter informação sobre Joseph Wilson junto ao Departamento de Estado e a CIA.

As alegações do indiciamento

Foi este esforço, e não suas conversas com os repórteres, que supostamente fez Libby tomar conhecimento de que Joseph Wilson era casado com uma funcionária da CIA e da informação de que ela poderia ter tido um papel no envio do marido à África. O indiciamento alegou que:

  • Em 29 de maio de 2003, Libby pediu a um subsecretário de Estado,
    supostamente Marc Grossman, subsecretário para assuntos políticos,
    informação sobre a viagem de Joseph Wilson em 2002 a Níger --apesar de, àquela altura, Libby não saber o nome de Joseph Wilson. Em resposta, Grossman forneceu a Libby um relato oral identificando Joseph Wilson e ordenou ao Birô de Inteligência e Pesquisa do departamento que preparasse um relatório por escrito.

  • Em 9 de junho de 2003, vários documentos confidenciais foram transmitidos por fax da CIA para o gabinete do vice-presidente, endereçados a Libby e outro funcionário não identificado. Os documentos discutiam Wilson e sua viagem, mas não o mencionavam nominalmente.

  • Em 11 ou 12 de junho de 2003, Libby foi informado pelo mesmo subsecretário de Estado que a esposa de Wilson trabalhava para a CIA e que funcionários do Departamento de Estado diziam que Valerie Wilson estava envolvida no envio dele à viagem.

  • Em 11 de junho de 2003, Libby foi informado por alto funcionário da CIA, não identificado, que Valerie Wilson era funcionária da CIA e que estava por trás da viagem do marido à África.

  • Em 12 de junho de 2003, Libby foi informado por Cheney que Wilson trabalhava na divisão de contraproliferação da CIA, cuja maioria dos funcionários trabalha de forma disfarçada ou com status confidencial. Entende-se que a informação de Cheney tenha vindo da CIA. Advogados envolvidos no caso disseram que as anotações de Libby da reunião ndicavam que a informação de Cheney veio de George J. Tenet, na época diretor da agência central de inteligência. Tenet se recusou a comentar.

  • Em 23 de junho, disse o indiciamento, Libby se encontrou com Miller e lhe disse que a esposa de Joseph Wilson trabalhava em uma divisão da CIA.

    Wilson veio à público com suas críticas ao governo em 6 de julho de 2003, quando ele publicou um artigo de opinião em The New York Times, no qual ele disse que foi à África a pedido da CIA, depois do gabinete do vice-presidente ter alegado em um relatório de inteligência uma possível tentativa do Iraque de comprar minério de urânio de Níger. Wilson concluiu que tal negócio era "altamente duvidoso".

    Nos dias que se seguiram, Libby deu vários passos chaves segundo o indiciamento. Em 7 de julho de 2003, ele almoçou com Ari Fleischer, o secretário de imprensa da Casa Branca, lhe dizendo que Valerie Wilson trabalhava na CIA e que a informação não era amplamente conhecida. O advogado de Fleischer, Robert Barnett, disse que ele não comentaria porque pode ser convocado como testemunha no caso.

    Posteriormente, Libby deu início a uma série de encontros com repórteres. Ele se encontrou com Miller do NYT novamente em 8 de julho de 2003, em um encontro no qual lhe falou de sua "crença de que a esposa de Wilson trabalhava na CIA", disse o indiciamento. Em 10 de a sucursal da "NBC" em Washington, para se queixar de uma reportagem que assistiu, mas os Wilsons, segundo o indiciamento, não foram mencionados.

    Mas Libby prestou aos agentes do FBI e ao grande júri um relato muito diferente, que o indiciamento disse ser falso. Em uma aparição perante o grande júri, segundo o indiciamento, Libby disse: "O sr. Russert me disse: 'Você sabia que a esposa do embaixador Wilson trabalha na CIA?' E eu disse: 'Não, não sei disto'. E então ele disse: 'Sim, todos os repórteres sabem disto'. E eu disse novamente: 'Eu não sei disto'".

    *Colaboraram Eric Lichtblau, John Files, Holli Chmela e Douglas Jehl Caso de vazamento de identidade de agente é duro revés para Bush George El Khouri Andolfato
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