UOL Notícias Internacional
 

29/10/2005

Poder da juventude na Libéria: dos tiros às urnas

The New York Times
Lydia Polgreen

Em Monróvia, Libéria
A guerra levou a infância de James Garmey. Veio à noite, na forma de homens armados derrubando a porta e levando-o, filho de oito anos de um coletor de impostos rural, para ser soldado do senhor de guerras e futuro presidente Charles Taylor.

"Fui para o treinamento", disse Garmey, hoje com 22, falando no suave patoá das ruas liberianas, deixando escaparem as consoantes e pedaços da gramática. "Era pequeno, mas aprendi a segurar uma arma e, depois de um tempo, fui para o campo de batalha. Atirei, defendi minha área."

Quando Taylor se rendeu e fugiu em 2003, Garmey finalmente deixou seu revólver, dizendo que o tinha trocado por outro tipo de arma: a cédula.

"Votei, e esse é meu poder", disse ele. "Não preciso mais de um revólver."

Grande parte do futuro da África pertence a jovens como Garmey, membros de uma geração que ficou órfã pela ação dos conflitos e da Aids, endurecida por combates e necessidades, e freqüentemente é analfabeta e desligada das tradições e tabus.

Manipulada pelos mais velhos, ajudou a criar um ciclo de violência que matou centenas de milhares de pessoas só no Oeste da África. Por serem muitos e por sua força física, os jovens conquistaram um tipo de poder indireto e caótico nesta região por quase duas décadas.

Agora, com a lenta disseminação da democracia, os jovens têm outro tipo de poder. Na Libéria, quase um quarto dos eleitores registrados tem entre 18 e 22 anos. Se forem somadas as pessoas com até 28, os jovens passam a ser grande parte do público votante da Libéria, mais de 40%.

A explosão populacional na região criou uma onda similar que agora está começando a se manifestar nas urnas.

"Eles podem fazer qualquer um ganhar ou perder. Agora, são a base dos partidos políticos e não só na Libéria. Há um número enorme de jovens entrando no processo democrático na região", disse Sidi M. Diawara, especialista em eleições na Libéria do Instituto Democrático Nacional, organização que ajuda a desenvolver partidos e monitorar eleições.

Na Libéria, que acaba de ter sua primeira eleição desde o final da guerra civil que durou 14 anos, matou 200.000 e forçou um terço da população a se refugiar, os jovens ajudaram a impulsionar a candidatura presidencial de George Weah. Com 39 anos e ex-astro do futebol europeu, é idolatrado por muitos liberianos, mas acima de tudo por rapazes, para quem o futebol é quase uma religião.

Weah conquistou a liderança no primeiro turno das eleições no dia 11 de outubro, recebendo 28% dos votos em uma competição de 22 candidatos, apesar de sua baixa escolaridade e falta de experiência política. No segundo turno, ele vai enfrentar Ellen Johnson-Sirleaf, 66, economista formada em importante universidade americana e com anos de experiência na política, no dia 8 de novembro.

A disputa entre Weah e Johnson-Sirleaf de muitas formas cristalizou a diferença entre as gerações africanas, oferecendo uma clara escolha entre um membro conhecido da elite política liberiana e um total estranho, da nova geração.

A falta de experiência política e de educação formal de Weah é considerada positiva para muitos de seus partidários. "Ele conhece os livros, ele não conhece os livros, voto nele", é um lema popular, uma alusão à campanha assustadora de Taylor, que arrasou o país por tanto derramamento de sangue: "Ele matou minha mãe, ele matou meu pai, voto nele."

O crescimento de Weah inquietou a minúscula elite. Muitos temem que ele se torne uma figura como o sargento Samuel K. Doe, que tomou o poder em um golpe violento em 1980, terminando mais de um século de dominação política por um pequeno grupo de poderosos descendentes dos escravos americanos que fundaram o país no século 19.

Como Weah, Doe não tinha freqüentado a escola e tinha raízes indígenas, mas Doe, que tinha 28 anos na época, conquistou seu mandato pela força. Weah encontrou seu caminho nas urnas, em grande parte por seu apelo junto a jovens como Garmey.

"Dei meu voto para George Weah", disse Garmey, mostrando seu dedão cheio de tinta como prova. "Sinto que ele é um homem novo e não sabe nada sobre a guerra na Libéria."

Em uma sociedade em que o poder em geral vem com a idade, a diferença entre as gerações intensificou antigas divergências. O conflito entre gerações talvez seja o mais antigo tipo de conflito na África Ocidental -formou a base pelas lutas de poder por centenas de anos.

"Nas sociedades tradicionais desta região, só o que você tinha que fazer para ser rico e poderoso antes da colonização era esperar sua vez, até que as pessoas na sua frente morressem", disse Mike McGovern, antropólogo do Grupo de Crise Internacional da África Ocidental, que trabalha com resolução de conflitos. "Não era uma longa espera, por causa da baixa expectativa de vida".

"Se você esperasse tempo suficiente, poderia se casar com cinco a 10 mulheres e comandar duas ou três gerações de crianças. E nessas sociedades, onde a terra é quase ilimitada, pessoas representavam riqueza."

A única forma de os jovens pularem a vez era pela luta, então ocasionalmente havia conflitos. Mas nos últimos 20 anos, a luta pelo poder entre jovens e velhos piorou, pois os recursos ficaram mais escassos e a população inflou.

"Com a crescente densidade populacional, a riqueza em número de pessoas se torna problemática", disse McGovern. "A terra é escassa, a água é escassa, os recursos são escassos. Então as pessoas se tornam um problema, e o nível de tensão cresce."

Milhões de jovens sem ocupação, especialmente rapazes, alimentaram as guerras civis interconectadas na Libéria, Serra Leoa e Costa do Marfim, e desestabilizaram outras nações, como Guinea, há muito fervendo sob o domínio de um ditador, e Nigéria, onde jovens guerrilheiros correm pelo Delta do Níger, rico em petróleo.

Agora que a democracia está chegando à região, esses jovens são uma força e também uma fonte de instabilidade. Eles estão dispostos a tentar novas formas de governar e a resistir à opinião do Estado como meio de enriquecimento pessoal em vez do bem comum, disse George Wisner, diretor da Federação de Jovens Liberianos.

"Muitos dos filhos da Libéria nunca viram água saindo de um cano; nunca viram eletricidade na parede", disse Wisner. "Há uma frustração geral, pois os jovens não fizeram parte das tomadas de decisão neste país e há esse desejo interior de ter uma voz nos assuntos nacionais. Isso significa abertura para algo novo."

Ainda assim, os jovens foram mal preparados para seu papel cívico.

"Este talvez seja o único país no mundo em que você tem uma população jovem mais analfabeta que a adulta", disse Ângela Kearny, diretora do programa da Unicef na Libéria.

A democracia vai requerer grande paciência dessa população jovem e irrequieta. Mas esperar, que sempre foi o conselho dos mais velhos, é o anátema dos membros desta geração.

"Quando os objetivos de uma sociedade aberta forem atingidos na Libéria, os jovens invariavelmente vão se perguntar sobre os resultados", disse McGovern. "Temos emprego, temos melhores condições de vida? É mais fácil se casar? O problema é que você pode ter todas as aparências de uma sociedade aberta e ainda assim ter muito pouco resultado."

A paciência já está curta. Em um prédio chamado Titanic, uma enorme construção de escritórios que deveria abrigar o Ministério da Saúde mas nunca foi terminada, dezenas de ex-soldados infantis moram como invasores.

"Precisamos aprender alguma profissão, algo para melhorar nossas vidas", disse Ballah Henry, homem magro e forte de 27 anos que se uniu à milícia de Charles Taylor quando tinha 14. Sua ferocidade no campo de batalha deu-lhe o apelido de Sangue Ruim. Ele entregou as armas junto com mais de 100.000 combatentes e acatou a paz e a democracia com cautela. Ele diz que vai esperar, mas não para sempre.

"Precisamos comer", disse Henry. "Se não comermos, se não trabalharmos, vai haver guerra novamente." Eleição presidencial marca choque de gerações em luta pelo poder Deborah Weinberg

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