UOL Notícias Internacional
 

29/10/2005

Síria diz não poder policiar a fronteira com Iraque

The New York Times
Michael Slackman*

Em Baghooz, Síria
O arame farpado é novo, na verdade tão novo que ainda estava sendo desenrolado na sexta-feira (28/10), enquanto o general Soliman Charabeh apontava para a barreira espiralada como prova de que o seu país está fazendo tudo o que pode para impedir o contrabando de armas e a infiltração de combatentes pela fronteira com o Iraque, abastecendo a insurgência naquele país.

Policiais de fronteira em uniformes militares foram posicionados em frente aos rolos de arame, cada um deles portando uma arma automática. Todos são jovens, e disseram que aquele era o seu primeiro dia no posto.

Esta viagem foi organizada pelo governo sírio para um grupo de jornalistas estrangeiros, e logo ficou claro que a mensagem oficial que a Síria tentava enviar não era a de que havia lacrado as suas fronteiras. Pelo contrário, o país procurava enfatizar que a fronteira continua porosa, e que isto não é culpa da Síria.

Enquanto a Síria se prepara para sofrer possíveis sanções depois que uma investigação da Organização das Nações Unidas (ONU) implicou autoridades sírias graduadas no assassinato do ex-primeiro-ministro libanês, Rafik Hariri, o governo procura encontrar todo o trunfo possível para tentar uma negociação internacional. A Síria tentou pacificar os seus críticos, especialmente os Estados Unidos, oferecendo-se a fazer aquilo que puder em outras frentes, como a segurança de fronteiras.

Mas, levando-se em conta o tamanho da fronteira, que tem centenas de quilômetros, os limitados recursos financeiros do país e aquilo que, segundo o governo, é uma falta de cooperação por parte das forças aliadas no lado iraquiano, as autoridades sírias dizem que há limites quanto àquilo que delas se pode esperar.

"Durante o dia é muito difícil que alguém consiga cruzar a fronteira", disse Charabeh, que supervisiona a segurança da linha divisória entre os dois países. "Mas, à noite, com a falta de tecnologia de vigilância noturna, isso pode ser possível".

No entanto, a viagem pareceu revelar mais do que apenas a história dos percalços da Síria. Algumas medidas que os sírios alegam ter tomado há meses, parecem só estar sendo implementadas agora. Próximo a uma barreira havia uma trilha, recentemente bloqueada pela nova cerca, e parecia haver pegadas no chão.

E, ao trazer à tona a questão da tecnologia de vigilância noturna, o general estava se referindo indiretamente ao Reino Unido, que já discutiu a possibilidade de doar óculos de visão noturna à Síria, sem, entretanto, ter jamais feito a doação.

Mas enquanto as autoridades sírias se oferecem para tomar as medidas necessárias para garantir a segurança da fronteira, não foi exatamente esta a mensagem enviada pelo general. Ele disse repetidamente, por exemplo, que as vilas são, freqüentemente, divididas pela fronteira, havendo parentes de ambos os lados da linha divisória. Segundo o general, isso faz com que seja muito difícil impedir que indivíduos passem para o outro lado.

A jornada teve início em uma base aérea militar em Damasco. Após um vôo de uma hora a bordo de um velho jato soviético YAK, e uma hora e meia de viagem de ônibus até o centro regional de Abu Kamal, cerca de 30 jornalistas, a maioria da Europa e dos Estados Unidos, foram acomodados em um comboio de caminhonetes, cada uma delas dirigida por agentes de segurança armados.

A caravana passou por vilas tristes e poeirentas, nas quais só havia casebres de lajotas. A primeira parada foi a vila de Howeja. O general apontou para um posto de polícia construído próximo à passagem na fronteira, e para a cerca de arame farpado, símbolos dos esforços sírios.

O posto é apenas um casebre de um único cômodo. O general disse que os policiais de fronteira recebem cerca de US$ 60 por mês e que, apesar disso, é improvável que alguns deles aceitassem propina para deixar alguém passar para o território iraquiano. Nesse ponto da fronteira, havia uma única espiral de arame farpado passando por touceiras de capim de mais de dois metros de altura.

A caravana prosseguiu ao longo do Rio Eufrates, levantando nuvens de poeira em uma estrada de terra que costumava ser usada por contrabandistas. A parada seguinte foi Baghooz, uma vila cortada ao meio pela fronteira. Foi ali que vimos a trilha recém bloqueada, na qual se via pelo menos uma pegada. O arame farpado novo foi desenrolado sobre a trilha.

A parada final foi um planalto árido, bem acima do vale do rio, do qual se podia descortinar uma ampla vista do Iraque, com a cidade de Qaim visível à distância. Em meio à paisagem pedregosa, havia um monte de terra de cerca de 2,5 metros de altura. Vários dos agentes de segurança, alguns deles com as suas armas nos coldres, subiram no monte para olhar a paisagem. Eram necessários 15 segundos para se escalar a elevação.

"Este é um grande trabalho que exige muito empenho", disse Charabeh, referindo-se ao fechamento da fronteira. "As nossas instalações são simples, normais, diferentes daquelas dos países ricos".

*Colaborou Mona el Naggar. A região pode estar sendo usada pela feroz insurgência iraquiana Danilo Fonseca

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