UOL Notícias Internacional
 

30/10/2005

Após turbulências, presidente busca corrigir o curso

The New York Times
Richard W. Stevenson e Robin Toner

em Washington
Nove problemáticos meses após dar início ao segundo mandato e após o
indiciamento de um alto funcionário do governo, o presidente Bush parece ver pouca necessidade de uma limpeza geral em casa e tentará recomeçar seu segundo mandato indicando um novo nome à Suprema Corte, assim como
intensificando seu esforço para reduzir os gastos do governo, disseram
funcionários da Casa Branca e outros republicanos.

A meta do governo, eles disseram, é tranqüilizar sua dividida e
desmoralizada base conservadora, conseguir algumas vitórias no Capitólio e preparar o terreno para um retorno mais robusto no próximo ano, após meses de passos errados.

Mesmo após o indiciamento na sexta-feira de I. Lewis Libby Jr., o chefe de Gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Bush não tem planos imediatos de trazer rostos novos ou demitir outros assessores, especialmente se seu principal conselheiro e vice-chefe de Gabinete, Karl Rove, escapar de ser indiciado no caso de vazamento da identidade de uma agente da CIA. O promotor especial do caso, Patrick J. Fitzgerald, disse que a investigação continua; Libby deverá ser formalmente acusado nesta semana.

Funcionários do governo, conselheiros externos da Casa Branca e
estrategistas republicanos disseram que apesar de que provavelmente haverá mudanças de pessoal a certa altura, independente do destino de Rove, elas provavelmente serão graduais e trarão pessoas do grupo já na órbita de Bush.

"Eu não acho que você deseja enviar um sinal de que esta crise é maior do que é", disse Vin Weber, um lobista e ex-congressista republicano que é um aliado da Casa Branca.

"Esta foi uma semana ruim, obviamente, mas limpou o quadro de alguns grandes problemas e dúvidas que pairavam sobre nós", disse Weber. "É triste para os indivíduos envolvidos mas nos dá a chance de começar a reconstruir, a retomarmos o passo."

Com o tempo, disseram assessores e conselheiros, a esperança é de que Bush será capaz de restabelecer sua imagem de líder forte, mostrando às pessoas que ele tem planos para tratar de questões como altos custos de energia e imigração ilegal, além de explicar melhor por que prevalecer no Iraque é essencial para defender a nação da ameaça maior do Islã radical.

Os rebeldes "esperam estabelecer um Estado totalitário no Iraque que negue toda liberdade política e religiosa, e esperam usar o país como base para ataques a todos os povos -muçulmanos e não-muçulmanos- que discordem de sua versão distorcida da religião muçulmana", disse Bush no sábado em seu discurso semanal de rádio.

"Nossa segurança doméstica está diretamente ligada a um Oriente Médio com maior liberdade e paz. O sucesso do novo governo iraquiano é crítico para vencer a guerra contra o terror e proteger o povo americano", disse Bush.

Mas algumas pessoas de dentro do governo disseram não saber se Bush
realmente percebe o grau de risco político que enfrenta e a força daqueles mobilizados contra ele. E estrategistas republicanos e membros do Congresso disseram que apesar dos componentes da estratégia renovada serem fáceis de identificar, eles serão difíceis de executar no atual ambiente.

Os democratas, eles disseram, estão fortalecidos. Com os índices de
aprovação de Bush pairando na faixa dos 40%, sua influência diminuiu
substancialmente enquanto seu próprio partido no Congresso se tornou mais assertivo e agitado. O crescente número de mortos no Iraque paira
pesadamente sobre a consciência nacional e o escândalo chegou às fileiras mais altas da Casa Branca.

"Agora nós descobriremos a resistência desta Casa Branca", disse David
Winston, um pesquisador republicano. "Não há dúvida de que este é o momento mais difícil na opinião pública enfrentado por esta Casa Branca."

O primeiro passo para sair da areia movediça, disse Winston, seria uma
indicação bem-recebida para a Suprema Corte, capaz de começar a eliminar a sensação ruim entre os conservadores pela indicação fracassada de Harriet E. Miers, a advogada da Casa Branca. O juiz Samuel A. Alito Jr., do Tribunal Federal de Apelações do 3º Circuito despontou como o principal candidato.

"Ter a oportunidade de desfazer o caso Harriet Miers lhes dá uma chance de retomar a iniciativa", disse Winston.

Um republicano envolvido no desenvolvimento da estratégia da Casa Branca
disse que a necessidade imediata é da "execução sem falhas da apresentação de um novo indicado para a Suprema Corte". Bush partiu na sexta-feira para um fim de semana em Camp David com Miers, que retomou sua antiga função de advogada da Casa Branca, e Andrew H. Card Jr., o chefe de Gabinete da Casa Branca, em meio a sinais por parte de funcionários do governo de que um indicado poderá ser selecionado em questão de dias.

A rápida apresentação de um indicado conservador, altamente qualificado,
ajudaria a reverter rapidamente a queda de Bush nas pesquisas e ajudaria a tranqüilizar muitas das mesmas pessoas que perderam a fé no presidente pela forma como o governo lidou com o furacão Katrina e o aumento dos gastos do governo, disse este republicano, que falou sob a condição de anonimato porque a Casa Branca desencoraja a discussão pública de suas estratégias e fraquezas.

Mas se Bush escolher alguém com credenciais conservadores inquestionáveis, como muitos republicanos estão exigindo que ele faça para reanimar sua base, ele correrá o risco de uma batalha com os democratas para confirmação no Senado. Eles não se sentirão inclinados a ceder por se tratar da cadeira vaga pela ministra Sandra Day O'Connor, um voto indefinido sobre aborto e outras questões culturais.

Além disso, um deslocamento para a direita por parte da Casa Branca poderá causar problemas para os legisladores republicanos dos Estados moderados, incluindo alguns que enfrentarão duras campanhas para a reeleição no próximo ano. "Se você olhar quem estará concorrendo em 2006", disse um estrategista democrata, citando senadores em Ohio, Pensilvânia e Rhode Island, entre outros, "eles precisarão mais do que sua base".

O senador Charles E. Schumer de Nova York, presidente do Comitê Democrata de Campanha ao Senado, argumentou que não há saída política fácil para o presidente. "Se a indicação de um conservador radical atendesse aos interesses do presidente, por que ele não o fez nas duas primeiras vezes?"

Schumer acrescentou: "Ele sabe que alimentar sua base com carne vermelha
mina sua posição junto à população americana. Ele poderá ter que fazê-lo, mas não seria uma demonstração de força".

O novo esforço de Bush para reduzir os gastos do governo também carrega
tanto risco quanto potencial para ele. Após alienar muitos conservadores
fiscais ao adotar o que lhes pareceu uma política de cheque em branco para pagamento dos estragos provocados pelo furacão Katrina, Bush tem se movido constantemente para a direita em política orçamentária.

Na sexta-feira, a Casa Branca notificou o Congresso de que pretende cancelar US$ 2,3 bilhões em gastos permitidos por apropriações anteriores para programas domésticos como forma de conter o crescimento do déficit orçamentário após o aumento dos gastos pós-furacão.

E em vez de buscar novo financiamento como era esperado, a Casa Branca disse que realocará US$ 17 bilhões em recursos de ajuda emergencial para projetos de longo prazo como reconstrução de estradas e diques, estimulo a programas de ajuda a pequenos negócios, além de fornecer mais dinheiro para habitação, manutenção da lei e outras necessidades pós-Katrina.

Os republicanos disseram que esperam que Bush adote uma posição cada vez
mais agressiva quando se tratar de corte de outros gastos, especialmente
programas para agradar eleitores que são prezados por membros de ambos os partidos no Congresso. Os democratas e alguns republicanos centristas já estão fazendo objeção aos esforços de cortes mais profundos em programas sociais como o Medicaid, o serviço de saúde para os pobres, após o furacão Katrina ter tornado a pobreza uma questão mais visível.

Outras grandes questões na agenda de Bush também poderão se transformar em campos minados. A proposta de Bush de dar status legal temporário aos
imigrantes ilegais que tiverem empregos foi bloqueado pelos conservadores de seu próprio partido, e o esforço da Casa Branca de adotar em contrapartida uma medida para aumentar a segurança na fronteira não ajudou a curar o racha ideológico e regional entre os republicanos em torno da questão.

Nesta semana a comissão criada por Bush para apresentar formas de reformar o código tributário apresentará seu relatório a John W. Snow, o secretário do Tesouro, dando a tacada inicial de uma questão que a Casa Branca espera colocar no centro de sua agenda para 2006.

Mas suas principais recomendações incluem o fim ou redução de isenções que o contribuintes poderão não gostar de abrir mão. E seu fracasso neste ano em persuadir o Congresso a apoiar seu plano de reforma do Seguro Social -um esforço que supostamente era a peça central de sua agenda de segundo mandato- é um lembrete para Bush das dificuldades em persuadir autoridades eleitas a causar dor em seus eleitores mesmo a serviço de uma idéia ideologicamente atraente.

Há sinais de que a influência de Bush sobre seu partido no Congresso está enfraquecendo. No início deste mês, ele abandonou sua política de isentar os empregadores das regiões atingidas pelo furacão das exigências salariais federais após a objeção de alguns republicanos no Congresso. Ele sofreu uma grande derrota neste mês, quando o Senado concordou em peso em regular a detenção, interrogatório e tratamento de prisioneiros das forças armadas americanas, rejeitando os argumentos de Cheney de que isto restringiria indevidamente a autoridade do presidente em tempos de guerra.

Mas os líderes republicanos no Capitólio rejeitam a idéia de que estão se distanciando da Casa Branca. E disseram que não vêem nenhuma chance real de que os apuros de Bush possam levar à perda do controle da Câmara em 2006.

O deputado Thomas M. Reynolds de Nova York, presidente do Comitê Nacional Republicano para o Congresso, rejeitou a noção de que os eventos da semana terão influência política de longo prazo. "Faltam 12, quase 13 meses" para as eleições de 2006, ele disse. "Tudo o que ocorreu nesta semana estará esquecido em um ano. Estará esquecido em dois meses."

Não estará, disseram os democratas. Eles argumentam que o indiciamento de Libby incitará dúvida entre os eleitores sobre o argumento do governo para a guerra no Iraque. "Eles estão observando", disse o senador Jack Reed, democrata de Rhode Island. "Eles conseguem ligar os pontos." E os democratas sinalizaram a intenção de ligar o indiciamento e Libby aos problemas éticos e legais que atormentam outros republicanos, particularmente o deputado Tom Delay do Texas, que teve que deixar o cargo de líder da maioria após ser indiciado no Texas por crimes ligados a financiamento de campanha.

O deputado Barney Frank, democrata de Massachusetts, disse: "Grandes júris encontraram causa provável de que o líder da maioria e o chefe de Gabinete do vice-presidente tenham cometido crimes. É verdade, isto não significa culpa. Mas também não é uma medalha de mérito".

Ele acrescentou: "Estas são as pessoas que entraram; elas eram as
reformadoras, a entrada de ar fresco".

Aliados da Casa Branca disseram que esperam que os riscos legais de Rove na investigação do vazamento terminem rapidamente, talvez em questão de dias ou semanas, o livrando de qualquer ato indevido e permitindo que possa concentrar sua atenção na estabilização da presidência de Bush e na promoção da agenda republicana.

"É o pensamento da maioria das pessoas na Casa Branca, incluindo os
advogados, de que isto é certo", disse um republicano que mantém contato
próximo com altos funcionários do governo sobre a investigação.

Rove tem ido trabalhar normalmente na Casa Branca nas últimas semanas, mas mesmo simpatizantes têm atribuído parte da culpa pela má performance do governo em uma série de questões à probabilidade dele estar distraído pela possibilidade de um indiciamento.

Se Fitzgerald, o promotor especial, não encerrar a investigação de Rove em breve, isto no mínimo desviará a atenção da mídia do esforço de Bush de destacar sua agenda. George El Khouri Andolfato

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