UOL Notícias Internacional
 

30/10/2005

Promotor discreto faz indiciamentos que podem arranhar o governo Bush

The New York Times
Todd S. Purdum

em Washington
A capital parou na sexta-feira para assistir um promotor elegante, modesto e insinuante, cuja voz mal foi ouvida em dois anos, chamar de mentiroso o mais importante assessor do mais poderoso vice-presidente na história americana, o fazendo de forma calma e educada mas firme -repetidas vezes.

Mas o promotor, Patrick J. Fitzgerald, não indiciou ninguém na questão que levou à sua investigação: se alguém no governo cometeu um crime ao vazar a identidade confidencial da CIA da esposa de um dos maiores críticos do argumento do governo Bush para a guerra com o Iraque. Ele ofereceu novas evidências de um mais antigos axiomas de Washington: o acobertamento é sempre pior do que o crime.

Em uma coletiva de imprensa de uma hora, transmitida ao vivo pela televisão, Fitzgerald disse que o chefe de Gabinete de Dick Cheney, I. Lewis Libby Jr., disse repetidas vezes aos agentes do FBI, e posteriormente a um grande júri federal, que apenas estava "repassando a fofoca de um repórter para outro no final de uma longa série de telefonemas" sobre a identidade da agente, Valerie Plame Wilson. "Seria uma história convincente que faria o FBI ir embora. Se fosse verdade."

Era como se Fitzgerald repentinamente se transformasse de um astro sinistro de um longo filme mudo para um eco simpático de Kevin Costner em "Os Intocáveis". E o testemunho sob juramento de Libby de que soube da identidade de Valerie Wilson pelos repórteres repentinamente parecia derivar da mesma confiança de que nunca seria contestado que levou Bill Clinton a presumir que Monica Lewinsky não tinha guardado evidência do caso entre eles.

"Nós não obtivemos a história honesta", disse Fitzgerald, explicando sua
investigação até então secreta e suas ações às vezes inescrutáveis. "E nós tivemos que agir."

Enquanto Fitzgerald falava no Departamento de Justiça, as redes de televisão a cabo mostravam imagens mudas, no canto da tela, de discursos ao vivo programados para o mesmo momento do presidente Bush na Casa Branca e de Cheney em Savannah, Geórgia.

Bush começou o dia deixando a sede do governo para um discurso em Norfolk, Virgínia, no qual agradeceu a platéia "pela chance de sair de Washington". Ele o encerrou com uma breve manifestação furiosa de pesar pela renúncia de Libby, no Gramado Sul da Casa Branca, a poucos metros do local onde Clinton falou desafiadoramente no dia de seu processo de impeachment, antes de se juntar à fracassada candidata à Suprema Corte, Harriet E. Miers, para um vôo de helicóptero a Camp David para o fim de semana.

O marido de Valerie Wilson, o ex-embaixador Joseph Wilson IV, que questionou a afirmação pré-guerra do governo de que o Iraque tentou comprar urânio de Níger, não teve atendido seu desejo de ver o assessor político chefe de Bush, Karl Rove, ser afastado da Casa Branca. Fitzgerald não impetrou nenhuma acusação contra Rove. Mas a investigação continua, o que impede o presidente de deixar este assunto para trás.

"Isto continua pairando sobre suas cabeças", disse um alto funcionário de um governo republicano anterior, falando sob a condição de anonimato para não entrar publicamente em choque com Bush. "Ele precisa começar de novo. Agora é a hora de começar de novo. Mas não vejo sinal de que vão fazer isto."

E as acusações sem rodeios de Fitzgerald de que Libby mentiu repetidas vezes sobre seu conhecimento do papel de Valerie Wilson (quando suas anotações mostravam que Cheney era um dos que lhe disseram explicitamente que ela estava envolvida no trabalho de contraproliferação da CIA) mantiveram vivas as dúvidas sobre se o governo mentiu ao Congresso e à população com seu argumento original para a guerra com o Iraque, que nesta semana viu a 2.000ª
baixa americana.

"Este caso é maior do que o vazamento de uma informação altamente
confidencial", disse o líder da minoria democrata no Senado, Harry Reid, de Nevada. "Se trata de como a Casa Branca de Bush fabricou e manipulou
inteligência para apoiar seu argumento para a guerra no Iraque, e para
desacreditar qualquer um que ousasse contestar o presidente."

Como o caso envolve um cruzamento de política e imprensa, o dia às vezes
teve um elemento de sala dos espelhos. A certa altura, o ex-secretário de imprensa de Cheney, Pete Williams da "NBC News", perguntou a Fitzgerald como ele podia aceitar a palavra de "três repórteres" (incluindo seu atual chefe, Tim Russert) "contra a do chefe de Gabinete do vice-presidente", para o qual Williams trabalhou no Pentágono, quando Cheney era secretário de Defesa do primeiro governo Bush.

"Eu diria que estamos procedendo de forma tranqüila", respondeu Fitzgerald.

Por várias vezes Fitzgerald não mediu esforços para destacar que Libby tem o direito de ser considerado inocente até o final do processo. Mas a linguagem formal do indiciamento tem um tom condenatório inevitável. Ele acusa Libby de "agir de forma consciente e corrupta para influenciar, obstruir e impedir a devida administração da justiça", ao "enganar e mentir ao grande júri sobre quando e como Libby adquiriu e subseqüentemente revelou para a mídia a informação que ligava Valerie Wilson à CIA".

O caso Wilson não é um Watergate e o suposto crime de Libby pode parecer
pouca coisa em comparação ao trabalho dos "encanadores" da Casa Branca da era Nixon, mesmo que um funcionário de escritório em Alexandria, Virgínia, tenha ouvido no almoço alguém citá-lo como "G. Gordon Libby", uma referência misturada ao conspirador de Watergate, G. Gordon Liddy.

Mas a cadeia de eventos que levou a este indiciamento não é totalmente
diferente daquela que levou a Casa Branca de Nixon a tentar desacreditar
Daniel Ellsberg, o ex-analista do Pentágono que forneceu aos repórteres a história secreta do governo detalhando o crescimento do envolvimento
americano no Vietnã, que passou a ser conhecido como Documentos do
Pentágono. Naquele caso, assim como neste, a Casa Branca buscou lançar
dúvidas sobre um crítico de sua política externa, apenas para se ver atolada em problemas políticos e legais mais profundos ao tentar esconder seus esforços.

Fitzgerald usou uma metáfora de beisebol para explicar por que indiciou
Libby por fraude e obstrução, apesar de sua incapacidade de encontrar
evidência do crime de expor a identidade de Valerie Wilson. Ele comparou a situação a um árbitro de beisebol tentando julgar a intenção de um lançador que atirou uma bola rápida "direto na cabeça do rebatedor". "O que acontece quando alguém é acusado de obstrução da justiça", ele disse, "equivale ao árbitro ter areia jogada em seus olhos".

Da sua parte, Bush prometeu "continuar plenamente concentrado nas muitas
questões e oportunidades diante deste país", e ele acrescentou: "Eu tenho um trabalho a fazer". Libby emitiu uma declaração por meio de seu advogado expressando confiança de que será completamente inocentado.

Enquanto isso, a mídia e máquina legal de escândalo, ao mesmo tempo
familiares e incômodas, seguiam operando. À noite, a CNN reprisava imagens de 22 de janeiro de 2001 da posse de Cheney, em uma sala cheia de novos assessores da Casa Branca, todos jurando cumprir, proteger e defender a Constituição, cujos poderes e proteções levaram ao indiciamento de Libby. George El Khouri Andolfato

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