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30/10/2005

Série de TV sobre presidência também tem vazamento de informações

The New York Times
Patrick D. Healy
Uma Casa Branca preocupada com uma investigação de vazamento de informações. Um assessor do presidente que corre o risco de ser indiciado na Justiça por ter revelado dados sigilosos. Um repórter preso por não revelar a identidade da sua fonte.

Esse é o enredo dos últimos episódios da série "The West Wing". E perdoem aquele telespectador que acredita que a série da NBC, na sua sétima temporada, se transformou em reality-show. Isso não aconteceu. O que ocorre é que a série reflete de forma extraordinária os fatos reais.

"The West Wing" sempre procurou ser um drama espelhado na presidência, embora retratando uma administração democrata e liberal. Mas episódios anteriores sobre a política do setor de energia, a redução de impostos e o terrorismo parecem atualmente imitações ligeiras quando comparados aos episódios recentes a respeito de vazamentos de informações e juízes contrários ao aborto. Estes episódios se desenrolam quase que simultaneamente ao caso real de vazamento e à nomeação de Harriet E. Miers.

A inusual sobreposição de realidade e ficção é, em parte, premeditada, mas também é fruto da coincidência. John Wells, o produtor-executivo do programa, diz que a sua equipe de criação começou a esboçar a sua estória sobre vazamento de dados sigilosos há 16 meses, quando a administração Bush enfrentava a sua própria investigação sobre revelação indevida da identidade de uma oficial de inteligência da CIA. O enredo de "The West Wing" envolve a divulgação não autorizada do projeto de um ônibus espacial militar secreto, e a investigação no sentido de descobrir a fonte do vazamento.

"Nos interessamos pela idéia de determinar quem é o responsável, dentro da Casa Branca, por assumir responsabilidade individual pelos vazamentos", explica Wells. "Como funcionam os vazamentos? Como as pessoas vazam informações?".

Após consultar especialistas em direito, a equipe de "The West Wing" concluiu que o promotor especial no caso real de vazamento, Patrick Fitzgerald, provavelmente exigiria informações de repórteres que descobrissem a identidade de um oficial de inteligência da CIA, que os repórteres provavelmente se recusariam a fornecer tal informação; e que a investigação demandaria tempo.

Durante vários meses, também, Wells esteve consciente de que o grande júri de Fitzgerald deveria ser dissolvido na sexta-feira. E, assim, na noite do último domingo, a estória chegou ao clímax quando o personagem que encarna o diretor de comunicação da Casa Branca, Toby Ziegler, revelou ser a fonte do vazamento. No próximo domingo, os colegas de Toby arcam com as conseqüências.

Enquanto isso, na Washington real, Fitzgerald anunciou na sexta-feira que o grande júri indiciou I. Lewis Libby, chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, sob acusações de obstrução da Justiça, perjúrio e de ter dado falsas declarações durante uma investigação.

"Nós prestamos atenção nos fatos, na primavera e no verão, quando os jornalistas começaram a aparecer para dar depoimentos e uma repórter foi para a prisão", diz Wells. "Mas acreditamos que a investigação prosseguiria até a sexta-feira. E monitoramos as coisas bem de perto no início de setembro porque não queríamos terminar em uma situação esquisita. Poderíamos ter modificado as estórias anteriormente, caso quiséssemos".

Ao tentar mostrar como Washington funciona, "The West Wing" também procurou fazer comentários sobre o círculo supremo de poder, ao oferecer uma versão idealizada da Casa Branca e dos funcionários que lá trabalham. A estória do vazamento segue essa tradição, embora para os atores envolvidos o que está em jogo pareça ser mais alto do que na maior parte dos enredos da série.

Richard Schiff, que interpreta Toby Ziegler, diz que o vazamento ficcional assumiu dimensões morais de uma forma que ele imagina ser similar ao que ocorreu na Casa Branca de Bush. "Creio que a cultura de vazamento diz respeito à cultura da traição, não importa sob que ângulo se enxergue o problema, já que Toby está traindo a confiança do homem que ele mais respeita no mundo, o presidente", opina Schiff.

Wells diz que os vazamentos atingiram administrações democratas e republicanas, e que a sua equipe não procurou mostrar isso como um fenômeno exclusivo da Casa Branca de Bush. Toby também não foi absolvido. O seu patrão, o presidente Bartlet (Martin Sheen), o despediu no final do episódio do último domingo, e afirmou que o vazamento foi um episódio vergonhoso.

"O mais interessante para nós foi a idéia de que alguém fez algo que acreditava ser correto", diz Wells. "Será que, dentro da Casa Branca, eles realmente assumem a responsabilidade pelo que fazem, em vez de aguardarem para serem indiciados?".

O quadro partidário da equipe encarregada de escrever os roteiros de "The West Wing" inclui dois democratas, dois republicanos moderados e um centrista. Embora alguns republicanos há muito acusem o programa de ser uma terra da fantasia liberal, o principal enredo desta temporada - sobre a campanha para a sucessão do presidente Bartlet - mostrou um candidato republicano e as suas idéias.

Este candidato republicano fictício, o senador Arnold Vinick (Alan Alda), se envolveu em uma briga que ecoou a batalha quanto à nomeação de Miers - embora o episódio não espelhe a realidade política.

No momento em que a nomeação de Miers começava a naufragar em meio a dúvidas quanto a sua postura em relação ao aborto, o personagem Vinick enfrentou as demandas de pastores evangélicos no sentido de que ele prometesse nomear apenas juízes contrários ao direito ao aborto. Vinick apóia esse direito, mas ele mente para pacificar os que pensam de forma oposta. Mas tarde, ele se refere à direita cristã como sendo uma "gangue".

Miers desistiu da sua nomeação na última quinta-feira, em meio a críticas dos conservadores. Enquanto isso, em todo o país alguns republicanos moderados da vida real estão perturbados com a influência evangélica dentro do partido. Mas parece improvável que a nomeação republicana fosse conquistada por um Vinick, um conservador nas questões fiscais, mas também "um defensor do direito ao aborto, e segundo se diz, um candidato anti-Deus", conforme o define um outro personagem.

Mas, assim como ocorre com a confissão voluntária de Toby, a ascendência de Vinick representa um ideal no universo de "The West Wing".

"Os democratas da vida real estão mais assustados com a possibilidade de nomeação de um George Pataki ou um Arnold Schwarzenegger - um republicano moderado, favorável ao direito ao aborto, que possa unir o país", explica Wells. "O que procuramos fazer é refletir os pontos em comum com os quais a maioria dos telespectadores é capaz de se identificar". Danilo Fonseca

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