UOL Notícias Internacional
 

02/11/2005

Estiagem e má colheita acentuam fome na África

The New York Times
Michael Wines

Em Chikawa, Maláui
Quase não choveu por um ano. A escassa colheita de milho, de seis meses atrás, já acabou faz muito, e o hospital regional está enchendo de crianças à beira da desnutrição --foram 18 entradas em agosto, 30 em setembro e 23 até o meio de outubro.

O pior ainda está por vir. O que as pessoas aqui em geral chamam de estação da fome --a estação sem milho-- mal começou. "Antigamente tínhamos seis, sete crianças na unidade. O número deve crescer até dezembro, quando a fome é crítica", disse Emily Sarima, enfermeira chefe do distrito.

Maláui é o epicentro da segunda crise de fome da África em seis meses, e a segunda respondida com dolorosa lentidão pelo mundo desenvolvido.

A seca é apenas um motivo superficial para explicar por que milhões de malauianos e outros africanos estão passando fome. A verdadeira razão é a pobreza, agravada por déficits regionais e até pelo furacão Katrina, que ajudou a dobrar o preço do milho --base da alimentação na região-- em relação ao ano passado.

Como resultado, mais de 4,6 milhões dos 12 milhões de malauianos precisam de doações de alimentos para fugir da desnutrição até a próxima colheita, em abril. Em Zimbábue, ao menos 4 milhões precisam de assistência alimentar emergencial. O governo da Zâmbia já emitiu pedido urgente de alimentos, dizendo que 1,7 milhão de pessoas estão com fome; 850.000 precisam de comida em Moçambique, 500.000 em Lesoto, e ao menos 300.000 na Suazilândia.

O Programa Mundial de Alimentos, que tenta suprir grande parte da necessidade, pediu ao mundo desenvolvido US$ 400 milhões (em torno de R$ 920 milhões) para esse fim. Ainda faltam US$ 165 milhões (aproximadamente R$ 380 milhões). A contribuição dos EUA, de US$ 48 milhões (cerca de R$ 110 milhões) em milho comprado de fazendeiros americanos, não chegará antes do final do ano.

Como aconteceu na crise de julho no Sul de Níger, a falta de comida no Sul da África está saindo cara. A desnutrição crescente tem provocado doença e morte de crianças enfraquecidas pela fome.

Ainda assim, os problemas aqui não são tão agudos como em Níger, onde milhares de crianças desnutridas ainda enchem centros de tratamento, meses depois da chegada da ajuda internacional.

O tamanho da emergência desta região, entretanto, é muito maior --mais de 12 milhões de famintos, contra 2,5 milhões em Níger. E mesmo que o total de mortos não seja tão alto, o sofrimento é igualmente real.

"Fui a uma aldeia hoje, no interior da Zâmbia, onde havia uma senhora comendo um tipo de casca de árvore, fervida na água. Em três anos no Sul da África, ouvi falar sobre esse tipo de coisa, mas nunca tinha visto", disse Michael Huggins, porta-voz do Programa Mundial de Alimentos, em entrevista telefônica.

Em Chikwawa, distrito de 400.000 habitantes no sul de Maláui, metade da população já estava com fome em maio, quando a última colheita rendeu apenas dois quintos da necessidade nacional de milho. A organização de caridade britânica Oxfam estimou então que os necessitados do distrito estavam recebendo cerca de 30% de suas necessidades alimentares.

Seis meses depois, muitos acreditam que esta seja a pior crise de fome de Maláui desde 1993, quando a seca destruiu quase metade do milho. "Nesta altura, a maior parte das casas em Maláui está sem comida, particularmente no Sul. Eles têm que contar exclusivamente com o mercado" para obter milho e outros alimentos básicos, disse Schuyler Throup, representante Maláui de Serviços Católicos de Auxílio, em entrevista telefônica.

Mas poucos têm como pagar os preços de mercado. A 800 km ao sul de Maláui, a África do Sul está com um excedente de cinco milhões de toneladas métricas de milho, da boa colheita deste ano. No entanto, este alimento está basicamente fora de alcance do governo ou do povo malaiuano, 60% do qual sobrevive com US$ 1 (em torno de R$ 2,3) ou menos por dia.

O mesmo é verdade para a maior parte dos países vizinhos de Maláui. A guerra destruiu a economia moçambicana; a crise econômica e a queda dos preços do cobre reduziram a Zâmbia à penúria; a economia do Zimbábue entrou em colapso, depois que o governo confiscou as fazendas mais ricas, que eram de propriedade dos brancos.

Em Maláui, 20 anos de alternância de poder e políticas econômicas deixaram sem esperanças uma nação que já era pobre. A pandemia de Aids --o índice de infecção deve girar em torno de 15% entre adultos, mas talvez seja de 25% em Chikwawa-- ceifou os trabalhadores das famílias e deixou 900.000 crianças sem um ou os dois pais.

A maior parte dos malauianos sobrevive com terrenos de 8.000 metros quadrados, muitas vezes sem nem um boi para arar. A irrigação é desconhecida, o que os deixa dependentes das chuvas.

Recentemente, estas têm sido escassas. Houve uma crise aguda de fome em 2002 e 2003, e o desastre deste ano foi gerado quando as boas chuvas de 2004 secaram em 2005, justo quando o milho estava amadurecendo.

No entanto, mesmo nos bons anos, os malauianos são incapazes de se alimentar. Um relatório recente da Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA disse que a nação "agora está em um estado quase constante de falta de alimentos, com níveis persistentemente altos de privação nutricional". A maior parte dos malauianos não pode sustentar uma dieta minimamente adequada. Metade de todas as crianças tem déficit de crescimento --e 40% dessas são severamente atrofiadas, sinal de desnutrição profunda e prolongada.

Os preços do milho estão na base da crise deste ano. No passado, em anos de colheitas ruins, os malauianos compravam milho barato de comerciantes em Moçambique, Zâmbia e Zimbábue. Neste ano, a escassez de chuvas levou à falta do produto em toda a região, elevando os preços nos mercados malauianos. Em meados de outubro do ano passado, um quilo de milho em Chikwawa custava US$ 0,13 (em torno de R$ 0,30). Neste ano, custa cerca de US$ 0,32 (R$ 0,73).

Até o furacão Katrina colaborou para piorar o problema. Quando a tempestade fechou o porto de Nova Orleans, privou o Japão de sua fonte normal de milho. Os japoneses, então, procuraram a África do Sul. Semanas depois o preço do milho sul-africano em Maláui pulou quase 20%.

Durante meses, grupos de assistência internacional, que efetivamente impediram Maláui de afundar, operaram com o "Cenário 1", projetando que os preços do milho iam continuar acessíveis para a maior parte das pessoas e que os destituídos precisariam de apenas 272 toneladas de milho doado.

Os doadores prometeram quase isso. Mas agora, com os preços subindo, o número de malauianos que não pode pagar também está crescendo.

O "Cenário 2" pede 413.000 toneladas de alimentos doados, a preços consideravelmente mais altos. Especialmente no Sul, onde as colheitas foram piores, os preços altos provocaram crescente desnutrição e algumas vezes agitação social quando organizações de assistência tentam distribuir alimentos de menos para pessoas desesperadas demais.

Tragédias humanas

Uma visita recente ao centro de reabilitação do hospital regional na Cidade de Chikwawa, com cerca de 10.000 pessoas, deixou clara a razão.

Acampado na calçada da unidade, Samson Hanock, de 29 anos, cuidava do filho de dois anos, Ben, com sua mulher, Ester, 20, agarrada a um bebê nascido naquela unidade de atendimento em setembro. Ben foi trazido da aldeia de Mtobwe, a cerca de duas horas de distância, com desnutrição e anemia severa.

Hanock é jardineiro. Ele trabalha seis dias por semana, quatro semanas por mês, e recebe um salário de US$ 6,65 (em torno de R$ 15), do qual seu empregador deduz US$ 5,85 (cerca de R$ 13) para pagar a saca de 50 kg de farinha de milho da família.

Hanock gasta o resto com açúcar. "Faço doces e peço para minha mulher vender", disse ele. "Com isso, conseguimos algum dinheiro para comprar sabão e outras coisas."

Do outro lado do pátio, Severia Karunga cuidava de Precia Yaka, órfã triste, de nove anos, de Badueza, a 90 minutos de carro. Ela já tinha vindo à unidade de atendimento em julho com desnutrição, malária, edema e tuberculose.

O pai de Precia morreu há quatro anos. Sua mãe morreu aos 21 anos, um mês depois de ela chegar. Karunga, tia de Precia, agora cuida da menina, seu irmão e seus sete filhos. Ela mora com a mãe, que cuida dos dois filhos órfãos de seu irmão morto.

"Meu marido está se divorciando, porque não quer que eu cuide dessa criança", disse ela, fazendo um gesto para Precia. "Ele foi embora no mês passado."

A mãe, a filha e os 11 netos, com idades entre 6 e 18 anos, sobrevivem com menos de US$ 50 (aproximadamente R$ 115) por mês. A maior parte vem do salário de US$ 9 (em torno de R$ 20) por semana que a mãe consegue em um programa de caridade e auto-ajuda. A família tem um terreno de 32.000 metros quadrados, "mas neste ano", disse Karunga, "acho que não vamos conseguir cultivá-lo, pois passo todo meu tempo neste hospital".

Em todo o país, as admissões de crianças desnutridas nos 95 centros de reabilitação aumentaram 15% em setembro, em relação ao ano passado. É quase certo que esse número continue crescendo. A maior parte das crianças passa algumas semanas em reabilitação e volta para casa, disse Sarina, enfermeira do distrito.

E o ciclo recomeça.

"O problema", disse Sarina, "é que quando voltam, não há nada para as sustentarem". Períodos prolongados de desnutrição provocam atrofia nas crianças Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h19

    -0,77
    3,258
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h21

    1,09
    63.914,51
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host