UOL Notícias Internacional
 

03/11/2005

Bush enfrenta mau momento na América do Sul

The New York Times
Larry Rohter

No Rio de Janeiro
Se George W. Bush está esperando algum descanso de seus problemas domésticos durante a visita de quatro dias que fará à Argentina e ao Brasil a partir desta quinta-feira (03/11), vai ter um duro despertar.

Pesquisas mostram que Bush é o presidente americano mais impopular de todos os tempos entre os latino-americanos, e milhares de manifestantes liderados pelo ídolo do futebol Diego Maradona estão rumando para a cidade de Mar del Plata, na Argentina, para protestar contra a presença de Bush em uma cúpula de líderes do hemisfério ocidental.

A recepção de seus colegas chefes de Estado, que se queixam da negligência e indiferença de seu governo para com a região nos últimos cinco anos, também não promete ser especialmente calorosa.

"Ele não tem dinheiro para oferecer, portanto o presidente não tem realmente cartas para jogar", disse Riordan Roett, diretor do programa de estudos latino-americanos na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins. "Nenhum dos presidentes fiscalmente conservadores mas socialmente progressistas que existem hoje na região sairá em sua defesa."

O tema do que é formalmente conhecido como 4ª Cúpula das Américas é "Criar empregos para combater a pobreza e reforçar a governança democrática". Mas a sensação entre muitos latino-americanos é de que os EUA têm pouco a oferecer além da habitual panacéia do livre comércio, mercados abertos, privatização e austeridade fiscal, a mesma receita de reformas que fez a desigualdade social aumentar acentuadamente em toda a América Latina na última década.

"Quase todos nós já percorremos esse caminho e não funcionou", disse um diplomata de um país sul-americano, sob a condição do anonimato para não ofender o governo Bush. "Os EUA continuam vendo as coisas de uma maneira, mas a maior parte do resto do hemisfério mudou e está rumando em outra direção."

Mesmo na área do livre comércio, que Washington continua apresentando como a solução para os problemas da região, o progresso desacelerou acentuadamente. Washington recentemente fez um acordo desse tipo com os países da América Central, mas o prazo de 2005 para um acordo hemisférico mais amplo, definido na primeira cúpula em Miami em 1994, já passou.

Além disso, enquanto a América Latina teve um de seus melhores desempenhos econômicos no ano passado, grande parte desse crescimento veio das crescentes vendas de matérias-primas para a China, e não do comércio com os EUA.

"O ritmo das negociações sobre livre comércio desacelerou", mas não "o compromisso com algum tipo de acordo hemisférico maior", disse na terça-feira o secretário-adjunto de Estado para Assuntos Interamericanos, Thomas A. Shannon, em entrevista por telefone de Washington. "Não vemos qualquer afastamento drástico" da idéia de que "a democracia e os livres mercados realmente produzem bens", ele acrescentou.

Os diplomatas latino-americanos, porém, dizem que as negociações sobre o texto conjunto que será emitido no final da reunião de três dias foram marcadas pela discórdia. O governo Bush e o Canadá vêm pressionando por um endosso retumbante do que é conhecido como Consenso de Washington, que personifica a mensagem do livre comércio.

Mas a América Latina tem resistido, com o presidente populista da Venezuela, Hugo Chávez, particularmente severo em suas condenações e ameaçando roubar o show.

"Ainda não alcançamos uma linguagem comum", disse na semana passada o vice-ministro das Relações Exteriores da Argentina, Jorge Taiana. "Países diferentes têm experiências diferentes, e portanto visões diferentes das coisas."

Nenhum país do continente sofreu mais economicamente nos últimos anos do que a Argentina, e uma pesquisa feita no país no mês passado mostrou que a maioria da população simplesmente deseja que Bush fique em casa.

Depois de uma crise econômica e política em 2001 e 2002 que levou ao colapso de sua moeda e ao maior calote de dívida da história, a Argentina é hoje o país de crescimento mais rápido na América do Sul, apesar de ignorar as orientações do Departamento do Tesouro americano e do Fundo Monetário Internacional.

"Violador de acordos"

No mês passado, em uma conferência de chefes de Estado ibero-americanos na Espanha, os homólogos latino-americanos de Bush indicaram fortemente seu espírito beligerante. Em uma linguagem incomumente dura, o comunicado final criticou asperamente a posição de Washington sobre Cuba, que não foi convidada para a cúpula, e sobre o terrorismo.

Em vez de apenas condenar o embargo econômico americano a Cuba, a declaração referiu-se a um "bloqueio", termo que Fidel Castro prefere porque implica uma violação da lei internacional. A declaração também pediu que os EUA extraditem um exilado cubano procurado na Venezuela e em Cuba por explodir um avião cubano em 1976, dizendo que todos os países devem ter um "compromisso de combater o terrorismo em todas as suas formas e manifestações".

Shannon descreveu as declarações como "infelizes". Ele disse: "Por que outros países estavam preparados para aceitar essa linguagem? Bem, acho que vocês terão de perguntar a eles". E acrescentou: "Nós deixamos claro para nossos parceiros que esse tipo de linguagem certamente não ajuda" porque "representa erroneamente nossa política".

Também há a questão das recentes eleições na Organização dos Estados Americanos e no Banco Interamericano de Desenvolvimento, em que Washington teria tentado forçar seus candidatos. O governo Bush falhou no primeiro caso e teve sucesso no segundo, mas ambos parecem ter deixado um resíduo de ressentimento.

"Existe muito ceticismo e desconfiança, porque os EUA continuam vendo a América Latina como um fato consumado, que tem de nos acompanhar em tudo o que fizermos", disse Michael Shifter, um analista do Diálogo Interamericano, grupo de pesquisas baseado em Washington. "Mas a América Latina mudou e está se comportando de maneira muito diferente no cenário mundial."

A segurança para a cúpula de Mar del Plata atingirá níveis recorde, com mais de 7 mil agentes de segurança previstos. Mais de cem pessoas foram mortas em dois atentados terroristas anti-semitas em Buenos Aires nos anos 90, que as autoridades argentinas atribuíram ao Irã, e o presidente Nestor Kirchner teme uma recorrência.

Uma "anticúpula" organizada por grupos opostos ao livre comércio, à globalização e a Bush estava marcada para começar na quarta-feira. Maradona, chamando a presença de Bush de uma afronta à dignidade argentina, prometeu liderar as manifestações, e até Chávez, o atual herói da esquerda latino-americana, disse que participará.

"Bush é um torturador, um violador de direitos humanos e um assassino, que não respeita as resoluções da ONU, os tratados internacionais ou a soberania dos povos, como no caso do Iraque", disse Adolfo Perez Esquivel, um Prêmio Nobel da Paz que é um dos organizadores do protesto. "Ele não é bem-vindo à Argentina e deve ser repudiado." Pesquisas indicam profunda impopularidade do presidente na área Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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