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04/11/2005

Defendendo a nudez do Imperador

The New York Times
Paul Krugman

Em Nova York
NYT Image

Paul Krugman é colunista
Hans Christian Andersen compreendia os maus governantes. "A Roupa Nova do Rei" não termina com todo mundo aclamando o menino por dizer a verdade. Termina com o rei e seus homens recusando-se a admitir o erro.

Botei minhas mãos em um material extra que Andersen não publicou, descrevendo o que aconteceu depois da procissão real.

Bill O'Reilly, apresentador de um programa da televisão, gritou ao menino: "Cale-se! Cale-se! Cale-se!". Chamando-o de louco, ameaçou ir à casa do menino e "surpreendê-lo".

A Fox News várias vezes exagerou a possibilidade de roupas imperiais terem sido descobertas e engavetou reportagens que desacreditavam essas histórias. Meses depois da procissão nua, uma pesquisa concluiu que muitas pessoas que assistem à Fox acreditavam que o Imperador, de fato estava vestido.

Membros do governo, eventualmente, admitiram que não encontraram sinais da roupa, ou mesmo que houvera um esforço de produzi-la. Eles insistiram, entretanto, que encontraram evidências de atividades de um programa de fabricação e distribuição de peças de vestuário.

Depois da procissão, especialistas em roupas negaram que o rei estivesse errado. A culpa, disseram, era da CIA, que tinha dado ao Imperador dados errados sobre o potencial de confecção.

Uma rápida busca na Web mostra que, antes da procissão, esses mesmos especialistas atacavam os analistas da CIA porque eles tinham se recusado em apoiar as afirmativas fortes do governo sobre a roupa invisível.

Apesar de o governo ser conservador, seus planos para vestuário tiveram apoio crucial de um grupo de peritos liberais. Depois que a nudez do Imperador foi revelada, a revista online Slate fez um simpósio no qual oito desses peritos foram questionados se o fato de não haver roupa os tinha levado a reconsiderar suas opiniões. Somente um admitiu que tinha errado --e que tinha mudado de idéia sobre a roupa antes da procissão.

Helen Thomas, correspondente veterana do palácio, opôs-se ao projeto da roupa desde o início. Quando salientou que não havia roupas, o secretário de imprensa imperial acusou-a de se "opor à guerra mais ampla à nudez".

Apesar dos que duvidaram da roupa real terem sido justificados, os noticiários continuam a retratá-los como loucos. Por exemplo, as redes de televisão mostraram, repetidamente, um clipe do menino gritando em uma festa. O clipe era enganador: ele estava gritando para ser ouvido no meio do barulho do ambiente, que o microfone não pegou. Ainda assim, "o grito" tornou-se a base do discurso político.

O Rei fez muitos discursos no qual declarou que seu projeto era a "frente central" na guerra à nudez.

O editor de uma revista liberal, mas a favor da roupa do rei, admitiu que sabia desde o início que havia boas razões para duvidar dele. Mas disse que tinha colocado as dúvidas de lado porque isso o fazia se sentir "superior aos democratas". Descarado, continuou a denunciar os que se opunham à roupa como fracos em segurança.

No jantar anual dos Correspondentes de Rádio e Televisão, o Rei entreteve os jornalistas reunidos com humor: mostrou slides dele mesmo olhando debaixo dos móveis em seu escritório, procurando a roupa que não existia. Alguns dos convidados ficaram chocados, mas a maior parte do público caiu na gargalhada.

O presidente do Comitê de Inteligência do Senado supervisionou um inquérito sobre como o governo tinha acreditado em uma roupa inexistente. A primeira parte se concentrou nos erros dos alfaiates de carreira do governo. Mas a segunda parte do inquérito, sobre o papel dos membros da equipe imperial na promoção do projeto, desapareceu.

Dois anos e meio depois da procissão do Imperador nu, a maioria dos cidadãos acreditava que o governo tinha mentido deliberadamente para o país. Vários antigos membros do governo tinham revelado histórias sobre a obsessão deste governo com seu projeto desde o primeiro dia.

Os defensores do rei, porém, continuaram a negar qualquer sugestão de que as autoridades tinham mentido. Diziam que era uma louca teoria de conspiração. Afinal, em 1998, Bill Clinton achou que havia uma roupa.

E eles viveram felizes para sempre --na história. Aqui, na realidade, um número grande --e crescente-- está morrendo por ataques com bombas caseiras. Fiasco no Iraque mostra que Bush está nu como o rei da historinha Deborah Weinberg

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