UOL Notícias Internacional
 

04/11/2005

Exposição traz pintura sensível de Gainsborough

The New York Times
Grace Glueck

Em Nova York
Mais famoso como retratista da sociedade (lembre de "Menino de Azul", imagem altiva e nobre de Jonathan Buttall), o pintor inglês Thomas Gainsborough (1727-1788) de fato preferia fazer paisagens e considerava sua prática de retratista como ganha pão. Quando jovem, apesar de não ter educação artística, trabalhava em Londres com o gravador e ilustrador francês Hubert Gravelot e desenvolveu um interesse pelas paisagens holandesas de Hobbema, Van Ruisdael, Van Ostade e outros.

The Huntington Library, Art Collections, and Botanical Gardens/The New York Times 
"Porta do Casebre" retrata ambiente próximo do locus amoenus venerado pelos poetas árcades
Em visitas à casa de sua família em Sudbury, Suffolk, fez suas primeiras paisagens no estilo holandês. Mais tarde, combinou-as com retratos de corpo inteiro em pequenos trabalhos chamados "conversas".

Eventualmente, ele se voltou para o ramo mais lucrativo de retratos em escala real, e em 1759 mudou-se com mulher e filhos para Bath, onde encontrou uma clientela rica e sofisticada.

Nesta época, descobriu o elegante repertório de Van Dyck, reverenciado pintor da corte Stuart de Charles 1º. Ele foi refinando seu estilo e aumentando sua fama, enquanto suas paisagens tornaram-se meros cenários. Depois que se estabeleceu em Londres, em 1774, seus clientes eram os ricos e famosos, inclusive o rei George 3º e a Rainha Charlotte. Nesta época, o rival de Gainsborough como retratista era nada menos que Sir Joshua Reynolds.

Mesmo assim, para seu próprio prazer, ele continuava a pintar paisagens. No final dos anos 1770, interessou-se por temas rústicos idealizados, especialmente a vida agreste da Inglaterra, onde camponeses pobres levavam vidas duras em casas humildes, mas faziam o melhor possível em suas circunstâncias.

Seu mais famoso quadro do gênero é "A Porta do Casebre" ("The Cottage Door", 1780), uma ode à inocência pastoral que retrata sentimentalmente uma mãe e seu filho na porta de um casebre, enterrada dentro de uma floresta.

Os grupos de figuras diante de suas humildes moradas de Gainsborough ficaram entre os primeiros na pintura inglesa a abordar o tema da vida de camponeses. Seus trabalhos nesse veio também foram dos primeiros a endossar o movimento inglês do século 18 de "sensibilidade", que estimulava os artistas a responderem à beleza inocente da natureza e às qualidades pitorescas do campesinato inglês, ou até suas dificuldades e misérias.

A mostra "Sensação e Sensibilidade: Vendo a 'Porta do Casebre' de Gainsborough" no Centro Yale para Arte Britânica, é sobre esse movimento e as contribuições de Gainsborough e seus contemporâneos. A exibição, uma colaboração entre o Centro Yale, Biblioteca Huntington, Coleções de Arte e Jardim Botânico de San Marino, é a primeira a reunir essas pinturas, impressões e desenhos com acessórios para ajudar a atrair o público.

Esses acessórios incluem uma reprodução de uma forma primitiva de cinema que influenciou Gainsborough, o Eidophusikon. O mecanismo fazia um som de trovoada e um show de luzes com ilusões cênicas criadas à mão. Foi também recriada a "tenda", montada por Sir John Leicester, orgulhoso proprietário da "Porta do Casebre", em sua casa em Londres em 1818. Ele apresentava o quadro em uma tenda de tecido rico equipada com espelhos e lamparinas. Aqui também o ambiente é este.

Ao todo, Gainsborough fez cerca de cinco quadros de "Porta do Casebre", aparentemente tão influentes que o tema foi adotado por uma série de contemporâneos. No quadro de 1780, seu toque é suave, mas seguro, suas cores luxuosas e a mistura das pessoas com seu ambiente é destra. Mesmo assim, a obra parece posada e teatral, como a decoração de uma caixa de doces.

Um exemplo melhor é o "Camponês Fumando na Porta do Casebre" (1785-88), uma cena de felicidade doméstica, na qual o pôr-do-sol ilumina um camponês, que segura um caneco e fuma um cachimbo, em companhia da mulher e três filhos pequenos.

Nesta última década de sua vida, Gainsborough também estava estudando imagens de tipos da rua, pintados com simpatia e dignidade pelo artista espanhol do século 17 Murillo. Gainsborough fez a tradução dessas imagens urbanas para o campo: madeireiros, camponeses, pedintes e outros.

Entre esses trabalhos está um chamado "Os Catadores de Lenha" (1787), que mostra uma jovem em farrapos, segurando uma criança no colo e com um menino sentado ao seu lado em uma pedra. O cenário é bombástico; a menina olha para fora do quadro emotiva; o bebê olha na direção oposta, esticando um braço gorducho.

Mesmo assim, parece uma família de modelos aristocráticos de Gainsborough, e não é preciso muita imaginação para ver uma duquesa no lugar da menina, acompanhada de seus dois filhos de capote azul.

Em suma, com todo respeito à mestria de Gainsborough no pincel, não estou convencida de que suas descobertas interiores como retratista dos ricos ensinou-lhe como lidar com as pessoas de menos estatura. Para mim, sua preocupação com o tema da porta do casebre é tão paternalista quanto Marie Antoinette fazendo o papel de leiteira em Versailles.

"Sensação e Sensibilidade: Vendo a 'Porta do Casebre' de Gainsborough

A exposição continua no Centro Yale para Arte Britânica, 1080, Chapel St., New Haven, Connecticut. (203) 432-2800, até o dia 31 de dezembro. Pintor inglês retrata paisagens com estética similar à do Arcadismo Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host