UOL Notícias Internacional
 

05/11/2005

Problemas seguem Bush até cúpula na Argentina

The New York Times
Elisabeth Bumiller e Larry Rohter*

Em Mar Del Plata, na Argentina
Os problemas domésticos e externos do presidente Bush o seguiram até a abertura de um encontro de cúpula internacional aqui, enquanto dezenas de milhares protestavam nas ruas e Bush se esquivava das perguntas sobre seu principal assessor político, Karl Rove, que continua sob investigação no caso de vazamento da identidade de uma agente da CIA.

Ao ser questionado acerca de eventuais discussões na Casa Branca sobre se Rove deve ou não manter seu cargo, Bush respondeu que "a investigação sobre Karl, como vocês sabem, não foi concluída, portanto não comentarei sobre ele ou a investigação".

O presidente acrescentou calmamente: "Eu entendo a ansiedade e apreensão da imprensa em falar sobre isto". Mas ele chamou a investigação do vazamento da CIA de "muito séria" e disse que a Casa Branca está "cooperando em tudo o que o promotor especial deseja que cooperemos".

Ao mesmo tempo, o presidente populista da Venezuela, Hugo Chávez, reuniu cerca de 25 mil manifestantes no principal estádio de futebol deste balneário. Ele declarou que o acordo de livre comércio apoiado por Bush está morto e acusou o Pentágono de ter um plano secreto para invadir seu país rico em petróleo.

"Se ocorrer ao imperialismo americano, em seu desespero, invadir a Venezuela, uma guerra de 100 anos terá início", declarou Chávez provocando vivas.

A poucos quarteirões do hotel onde transcorria a conferência, alguns manifestantes atiraram pedras e provocaram incêndios durante a tarde, com a polícia atirando gás lacrimogêneo para dispersar as manifestações. Imagens de televisão mostraram a polícia de choque chegando em vans, motos e a cavalo e se reunindo perto da multidão.

Várias centenas de manifestantes cobrindo o rosto com lenços ou máscaras empunhavam bastões ou atiravam com estilingue contra a polícia e colocaram fogo em um banco, segundo relatos de agências de notícias. O tumulto começou após uma marcha de protesto muito maior e pacífica envolvendo várias milhares de pessoas, disseram as agências.

O presidente Bush chegou aqui na noite de quinta-feira, após uma das piores semanas de sua presidência, apenas para ser recebido por um forte sentimento antiamericano e escárnios de Chávez.

Na sexta-feira, Bush disse que ele e o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, concordaram em conversações que o papel dos Estados Unidos na região poderia ser construtivo e positivo. Bush acentuou a necessidade de decisões sábias para atrair investimentos.

Ao lado do presidente Kirchner, ele também fez o que pareceu ser uma referência aos protestos.

"Não é fácil receber a todos estes países", disse ele, se dirigindo a Kirchner. "Talvez não seja particularmente fácil me receber", disse ele, provocando risadas.

A Cúpula das Américas, um encontro de 34 países por dois dias, teve início oficialmente dedicado à criação de empregos e promoção da democracia.

Chávez, que acusou repetidamente o governo Bush de tentar assassiná-lo e invadir seu país produtor de petróleo, está usando o encontro internacional daqui para protestar contra a mensagem de livre comércio do governo e para tentar confrontar Bush, o homem que o governo venezuelano chama de "sr. Perigo".

Ele disse nesta semana que sua principal meta no encontro era um "enterro final" da proposta de acordo da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), que já está empacada.

"Eu acho que viemos aqui para enterrar a Alca", disse Chávez na sexta-feira, segundo comentários divulgados pela agência de notícias "Reuters". "Eu trouxe minha pá."

Bush disse que será "educado" quando se encontrar com Chávez.

A estratégia da Casa Branca é ignorar Chávez o máximo possível.

"O presidente Chávez tem sido bem claro sobre como vê o encontro e o que espera conseguir no encontro", disse Thomas A. Shannon, o secretário-assistente de Estado para assuntos interamericanos, para os repórteres no Força Aérea Um, na quinta-feira, enquanto seguia para a Argentina. "Quero dizer, ele vai se comportar da forma como quer se comportar."

No início desta semana, Bush não condenou um antigo pedido de Chávez para construção pelo governo argentino de um reator nuclear na Venezuela para produção de energia.

"Eu acho que se fosse um contribuinte na Venezuela, eu me perguntaria sobre a oferta de energia que a Venezuela dispõe", disse Bush em uma entrevista na Casa Branca, na terça-feira, para um grupo de repórteres de publicações latino-americanas. "Mas talvez faça sentido." Bush acrescentou que "é a primeira vez ouço a respeito".

Pouco mais de 24 horas depois, Stephen J. Hadley, o conselheiro de segurança nacional, pareceu desmenti-lo quando notou que Chávez pediu a vários países a construção de um reator nuclear na Venezuela e que ele estava longe de fechar um acordo.

"Eu acho que é porque as pessoas reconhecem que seria problemático a presença de Chávez no ramo nuclear, se quiserem", disse Hadley, acrescentando que "esta viagem, este encontro de cúpula, não se trata de Chávez".

Mas nos bastidores na quinta-feira, os Estados Unidos e a Venezuela estavam disputando intensamente uma vantagem. Como resultado, os negociadores ainda estavam lutando para chegar a um acordo sobre o texto final de um comunicado conjunto, que deveria ser baseado em um consenso, que os líderes esperam divulgar ao final do encontro, no sábado.

Na seção de criação de empregos, os representantes dos Estados Unidos sugeriram destacar as "96 milhões de pessoas que vivem em extrema pobreza" na América Latina e no Caribe, sobrevivendo com US$ 1 por dia ou menos. Mas a Venezuela disse que só concordaria com tal declaração, disseram diplomatas latino-americanos, se a seguinte frase também fosse incluída, "enquanto nos Estados Unidos há 37 milhões de pobres".

Os profundos desentendimentos estavam ligados à questão do livre comércio, que Bush ofereceu como chave para o crescimento econômico nas Américas. Washington estaria pressionando por uma declaração defendendo a retomada das negociações visando a implementação do acordo de livre comércio, mas tem enfrentado resistência não apenas da Venezuela, mas também do Brasil e da Argentina.

"O único tema que é um problema é a Alca", disse José Miguel Insulza, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos. "Nós estamos avançando para uma solução, não no encontro de cúpula, mas nos corredores."

Na "Cúpula dos Povos" paralela em Mar del Plata, na quinta-feira, organizada por uma coalizão de grupos de esquerda, indígenas e antiglobalização, as propostas americanas de livre comércio também foram criticadas, assim como o próprio Bush.

"Nós dissemos não e não significa não: não a Bush, não à Alca e não ao pagamento da dívida", dizia uma grande faixa na conferência, realizada em um conjunto de tendas e salas de aula no campus de uma universidade local. Vários milhares de pessoas participaram.

"Nós já estamos cheios do neoliberalismo e dos danos que causou a nossas sociedades", disse Juan Montenegro, que veio de Buenos Aires para participar. "Bush está tentando destruir o Iraque com armas e bombas e a América Latina com um programa econômico que nos roubará nossa soberania."

A "contracúpula" teve início no começo da semana e deverá culminar no sábado com marchas de protesto em massa, lideradas por Adolfo Pérez Esquivel, o vencedor do Prêmio Nobel da Paz, e Diego Maradona, o ídolo do futebol.

*Christine Hauser contribuiu com reportagem, de Nova York. Presidente sofre pressão de protestos, evento paralelo e de Chávez George El Khouri Andolfato

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