UOL Notícias Internacional
 

06/11/2005

Acordo de comércio empacado no fim da Cúpula das Américas

The New York Times
Larry Rohter
Em Mar del Plata, Argentina
Um encontro de cúpula de dois dias dos líderes de 34 países das Américas, do qual participou o presidente Bush, estava chegando ao fim aqui no sábado sem um acordo claro sobre quando e como seriam retomadas as negociações estagnadas que visam a criação de um bloco de livre comércio envolvendo as Américas.

Bush esperava persuadir seus pares da América Latina e do Caribe a apresentarem um forte endosso ao plano, conhecido como Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Mas as suspeitas em relação às intenções dos Estados Unidos prevaleceram e o comunicado final provavelmente ficará aquém de tal meta ambiciosa.

Presidentes americanos de ambos os partidos há muito lutam por uma zona de livre comércio envolvendo as Américas. Ronald Reagan falou sobre um mercado único se estendendo do Alasca até a Terra do Fogo; Bill Clinton esboçou formalmente a idéia na 1ª Cúpula das Américas, em Miami, em 1994.

A Alca seria um bloco ainda maior do que a União Européia, apesar de sem seu livre fluxo de trabalho e integração política. Os benefícios para os Estados Unidos como potência econômica dominante na região são óbvios: com a remoção das tarifas e outras barreiras que inibem a entrada de bens e serviços americanos, as exportações para a região passariam por um boom.

Mas o progresso estagnou, em parte porque os Estados Unidos e a América Latina estão aguardando pelo resultado das negociações comerciais na Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio, que estabelecerão certas regras globais que qualquer acordo regional terá que respeitar. Assim, o governo Bush se voltou para acordos bilaterais e regionais menores, como a Área de Livre Comércio da América Central, mas veio aqui na esperança de conseguir um compromisso de retomada das negociações no início do próximo ano.

"O motivo para o comércio ser tão vital é porque, particularmente no combate à pobreza, doações e empréstimos empalidecem em comparação ao tamanho do bem que pode ser obtido com o desenvolvimento do comércio em todos os níveis de governo, em todos os níveis da sociedade", disse Bush para um grupo de repórteres de publicações latino-americanas na semana passada.

Mas a América Latina nunca falou com uma voz única sobre livre comércio. Muitas camadas de dúvida e dissensão estão em exposição aqui, e algumas podem ter piorado com a insistência de Washington em um acordo.

Na esquerda estão aqueles liderados pelo presidente populista da Venezuela, Hugo Chávez, que é contra qualquer forma de livre comércio. Chávez chama a Alca de "um plano de anexação" que sufocará e destruirá a indústria local, reverterá as proteções sociais e trabalhistas e estenderá permanentemente o domínio político americano sobre a região para o reino econômico.

"Nós temos que enterrar a Alca" porque ela é a mais recente manifestação de "um antigo projeto da águia imperialista, que desde o início queria fincar suas garras" na América Latina, disse Chávez na sexta-feira em um comício realizado aqui, que reuniu 25 mil pessoas que entoaram slogans anti-Bush e anti-Alca. "Ela faz parte do modelo capitalista, dirigido por Washington, que abateu nossos povos por muito tempo."

Por outro lado, Brasil e Argentina, os líderes do bloco Mercosul, o terceiro maior bloco comercial do mundo, não são contra o conceito de livre comércio, apenas à versão de Washington. O Mercosul, que inclui o Paraguai e o Uruguai, foi criado em 1991 para eliminar as barreiras comerciais entre seus membros, mas também visava obter uma integração política. Ele cobre uma área com uma população de quase 250 milhões de habitantes e produz anualmente mais de US$ 1 trilhão em bens e serviços.

Como grande exportador de alimentos tão diversos como soja, carne, açúcar e mel, o Mercosul, às vezes chamado de Mercado Comum Sul-Americano, quer que o governo Bush coloque um fim aos bilhões em subsídios para a agricultura americana em troca das concessões latino-americanas a direitos de propriedade intelectual, regulamentação financeira e acesso ao mercado.

"Nós não estamos aqui nem para enterrar a Alca e nem para ressuscitá-la", mas para ver "quais são as vantagens", disse Celso Amorim, o ministro das Relações Exteriores do Brasil. "Nós não temos preconceito contra a integração comercial, mas não queremos colocar algo no papel apenas porque parece bonito."

Alguns outros países com economias dinâmicas e que já têm pactos de livre comércio com os Estados Unidos, como México e Chile, têm tentado amenizar as preocupações de seus vizinhos, enfatizando os efeitos favoráveis da liberalização do comércio sobre as exportações, financiamento e emprego. Na sexta-feira, o presidente do México, Vicente Fox, criticou o presidente da Argentina, Nestor Kirchner, o anfitrião do encontro, dizendo que ele "deve fazer mais para salvar esta conferência", e chegou até a sugerir a criação de um acordo regional com 29 membros em vez de 34, deixando de fora o Mercosul e a Venezuela. "Qualquer um que bloqueie um acordo como este certamente está preocupado com seus próprios interesses e não com os interesses dos outros", disse Fox. "A maioria dos países está avançando rumo a uma Alca boa, justa e benéfica."

Mas o presidente do Chile, Ricardo Lagos, sugeriu que os Estados Unidos precisam ser mais flexíveis. "É muito difícil promover acordos de livre comércio quando você tem este tipo de problema, no qual a assimetria favorece aqueles que têm mais e não aqueles que têm menos", disse ele.

O Brasil, que divide a presidência das negociações da Alca com os Estados Unidos, argumenta que nenhum acordo comercial das Américas pode ser significativo sem a participação dos membros do Mercosul.

"Se outros países querem implementar a Alca entre eles, isto é problema deles", disse Amorim, o chanceler brasileiro. "Mas falar de uma Alca sem o Mercosul me faz lembrar daquela frase de um político inglês, que disse que há uma neblina sobre o Canal da Inglaterra para que o Continente fique isolado".

A posição da Argentina é complicada pelo ressentimento e desconfiança resultantes do colapso da economia, que fará quatro anos no próximo mês. A Argentina argumenta que depois de ter sido a aluna exemplar do Fundo Monetário Internacional nos anos 90, ela foi abandonada pelos Estados Unidos em seu momento de crise, e tal sentimento tem marcado as negociações de Kirchner com o fundo e o governo Bush. As suspeitas em relação às intenções dos EUA prevaleceram e o comunicado final provavelmente ficará aquém da meta ambiciosa George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h00

    -0,25
    3,261
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h02

    0,10
    63.821,64
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host