UOL Notícias Internacional
 

08/11/2005

Nova Orleans sofre com a vagarosa reconstrução

The New York Times
Jennifer Steinhauer*

Em Nova Orleans, Louisiana
Algo antes inimaginável começou a acontecer aqui: o United Parcel Service está realizando novamente entregas no centro. No mercado Langenstein's, aipo e costeleta de porco estão sendo vendidos e farristas deixam os bares da Magazine Street nas noites de sexta-feira.

Mas a pouco mais de um quilômetro de distância, operários estão lutando para restaurar parte da proteção da cidade contra inundações, que dificilmente conseguiria permanecer seca mesmo em caso de uma tempestade tropical modesta.

Robert Caplin/The New York Times 
Diques derrubados pelo furacão ainda caídos no 9º Distrito, um dos locais mais castigados

Dezenas de milhares de proprietários de imóveis, diante de contas de reparos de seis dígitos para suas casas que estão apodrecendo, dificilmente receberão mais do que uma fração disto do governo. Enquanto telefones tocam em escritórios vazios, mesmo o negócios de camarões mal consegue encontrar clientes e a economia continua em coma.

Mais de dois meses após o furacão Katrina ter incapacitado a cidade, Nova Orleans conseguiu superar o choque de seu colapso e tem lentamente voltado a respirar. Mas enquanto passa da recuperação para a fase mais crucial da reconstrução, ela está apenas começando a lidar com questões básicas que moldarão seu futuro, muitas das quais levantadas na sessão especial do Legislativo Estadual da Louisiana, que teve início na noite de domingo (06).

Nova Orleans receberá um sistema de proteção contra inundações amplamente reforçado --ao custo de até US$ 20 bilhões-- ou será informada de que os bairros residenciais mais baixos voltarão a ser pântano? A cidade terá que assumir o controle de milhares de casas para reformá-las -a um custo que ninguém calculou-- ou terá que dizer a milhares de moradores evacuados para não voltarem?

Toda decisão importante parece depender de outra decisão importante que precisa ser tomada primeiro, e ninguém ainda se apresentou para anunciar o que a cidade fará e assim romper o ciclo de incerteza. Muitos moradores e donos de negócios, por exemplo, não voltarão e investirão sem uma garantia de proteção contra inundações. Mas os operários que poderiam reconstruir os diques --e grande parte do restante da cidade-- estão impedidos pela falta de moradia.

"Nós não podemos pedir para alguém trabalhar para nós se não tiverem onde viver", disse Robert Boh, presidente da Boh Brothers, uma construtora de Nova Orleans.

E a construção de novas casas, ou a reconstrução das antigas danificadas, está sendo impedida pelo alto custo, pelo tesouro vazio do governo local e pelo debate sobre como manter a base política e demográfica da cidade. Enquanto alguns especialistas têm alertado que não faz sentido econômico nem ambiental a reconstrução de áreas baixas como o 9º Distrito, o prefeito e muitas outras autoridades da cidade têm declarado enfaticamente que o bairro será reconstruído e protegido, independente do custo.

As construtoras ainda não receberam o tipo de incentivo fiscal que Washington forneceu a Nova York após 11 de setembro, e as autoridades locais estão se preparando para a perda de até metade das 115 mil pequenas empresas da cidade.

Em reconstrução, tempo certo e proporção são tudo. Diferente das autoridades de Nova York, que tiraram proveito de seu momento de compaixão nacional para garantir US$ 20 bilhões em recursos por parte do Congresso depois de 11 de setembro, os representantes da Louisiana pediram altos US$ 200 bilhões. Após tal pedido ter sido recusado, havia pouca clareza no pedido do Estado, dois terços do US$ 60 bilhões aprovados pelo Congresso para o Golfo ainda não foram gastos.

"A Louisiana perdeu sua credibilidade ao pedir tudo", disse Walter Isaacson, ex-presidente da CNN, que atua como vice-presidente da Autoridade de Recuperação da Louisiana, uma nova entidade estadual nomeada pela governadora para coordenar o esforço de reconstrução. "Agora é nosso trabalho dizer que temos algumas prioridades razoáveis para gastos e que seremos sensíveis e frugais a respeito."

Mantendo a cidade seca

Em meio às divisões da cidade, há uma área de consenso: seus diques e barragens devem novamente ser capazes de proteger Nova Orleans das águas do golfo antes que a cidade possa se recuperar plenamente. Mas até o momento o Corpo de Engenheiros do Exército tem realizado apenas reparos rudimentares, tapando buracos e armando estacarias de aço para criar uma versão rápida e improvisada de proteção contra furacões categoria 3.

Mas isto não será o bastante para restaurar a confiança no futuro da cidade entre os moradores traumatizados. Virtualmente todas as autoridades municipais e estaduais concordam que uma proteção de longo prazo contra inundações deve ser aumentada para suportar uma tempestade categoria 5.

"Uma recuperação costeira abrangente e um sistema de proteção contra furacões de categoria 5 são nossas prioridades federais", disse Andy Kopplin, o diretor executivo da autoridade de recuperação. "E dispor de uma proteção contra furacões de categoria 5 em Nova Orleans é essencial para sua recuperação a longo prazo."

Mas tal compromisso, segundo o Estado, custaria entre US$ 10 bilhões e US$ 20 bilhões e levaria até 10 anos para ser executado. A restauração da costa custará mais US$ 14 bilhões. Ainda não há sinal de que o governo está disposto a preencher cheques deste tamanho.

Na semana passada, o presidente Bush submeteu um pedido de gastos ao Congresso que incluía US$ 1,6 bilhão para o reparo das barragens e pântanos, e US$ 4,6 milhões adicionais para estudar a possibilidade de reforçar um dique. A proposta foi imediatamente criticada como totalmente inadequada pelos membros da bancada do Estado no Congresso.

Mesmo as obras imediatas de reconstrução estão progredindo lentamente. O corpo já abriu licitação para 49 contratos de obras de engenharia e construção na área, mas até o momento apenas uma dúzia foi concedido, disse Lewis F. Setliff III, que comanda a força-tarefa de restauração do corpo.

E há a terra. Mesmo os reparos mais básicos exigirão 2,7 milhões de metros cúbicos de terra, o equivalente a um campo de futebol com terra amontoada chegando a 480 metros de altura, disse Setliff. O corpo ainda precisa encontrar locais suficientes para os chamados "empréstimos" de solo, que idealmente precisam estar próximos dos locais de construção.

Dadas tais preocupações, não se sabe se o corpo cumprirá seu prazo auto-imposto de 1º de junho para devolver o sistema de controle de inundações da cidade ao estado pré-furacão Katrina, apesar desta continuar sendo sua intenção.

"É possível que em algumas áreas não haja o que você chamaria de proteção final", disse Donald L. Basham, o chefe de engenharia e construção do corpo. "Nós poderemos ainda deixar medidas de proteção interinas quando formos embora, deixando tal sistema para os próximos 20 anos, mas esta não seria a forma ideal de deixá-las. Não seria bonito."

Um teto acima

Milhares de moradores querem voltar para casa. Mas para muitos deles, não resta nada para o que voltar.

Em Lakeview e Mid-City, bolsões de classe média na metade oeste da cidade, rua após rua de casas vazias se encontram cobertas em até 2 metros de lama. Por todo o pobre 9º Distrito e na vizinha paróquia de Saint Bernard ao leste, centenas de casas foram virtualmente derrubadas, e lonas azuis estão esticadas em um telhado após o outro por toda a cidade. Ao todo, cerca de 40% das casas da cidade foram inundadas, e até 50 mil casas provavelmente serão demolidas.

"Habitação é provavelmente nosso problema mais urgente no momento", disse Nagin em uma entrevista. "Moradia temporária para os operários, moradias que foram danificadas ou inundadas, o reparo rápido disto. Não há moradias suficientes para acomodar as pessoas que desejam voltar imediatamente para a cidade."

A Agência Federal de Administração de Emergência (FEMA) começou a dar para dezenas de milhares de donos de imóveis da cidade uma assistência financeira para reconstrução, mas o teto é de US$ 26.200 por imóvel, insuficiente na maioria dos casos para uma grande reconstrução. Pacotes de incentivo fiscal para construtoras e outras formas de auxílio financeiro -concedidos à baixa Manhattan em 2001- foram discutidos no Congresso mas não foram aprovados. Como resultado, várias idéias que antes poderiam ser consideradas bizarras estão sendo consideradas para ressuscitar as moradias da cidade.

Segundo uma idéia que está sendo discutida por um importante membro da comissão de reconstrução de Nagin, a cidade assumiria o controle do imóvel, o consertaria e então o alugaria. No final o dono original teria o direito de voltar e retomar a propriedade do imóvel. A idéia, baseada em um antigo conceito legal da Louisiana conhecido como usufruto, já encontrou alguma oposição política, mas seus defensores disseram que o governo municipal poderá não ter escolha a não ser fazer isto.

Joseph C. Canizaro, um rico construtor que faz parte da comissão do prefeito, propôs a construção de novas moradias no City Park, o amado equivalente de Nova Orleans ao Central Park, permitindo que alguns bairros baixos voltem a ser pântanos. Mesmo sendo uma idéia politicamente difícil de imaginar, é notável o fato dela estar sendo discutida.

Mas o temor de conseqüências políticas começaram a minar o processo de fazer com que algo seja feito de fato. Muitos dos lares destruídos se situam em áreas que já estavam arruinadas antes da primeira gota de chuva da tempestade ter caído, e muitos se encontram em áreas que estarão vulneráveis na próxima tempestade.

Apesar do emaranhado político, o futuro de milhares de pessoas está em jogo. "Nós precisamos saber o que cidade fará", disse Oliver Thomas, presidente da Câmara dos Vereadores de Nova Orleans, "para que possamos começar a planejar nossas vidas".

À procura de trabalho

Enquanto a cidade luta para recuperar sua forma física, a espinha de sua economia está partindo. Na semana passada, o Chase Bank reabriu sua agência principal em um prédio a um quarteirão da Canal Street. Quatro caixas estavam em seus lugares e três outros funcionários estavam atrás de suas mesas, em uma agência que estava sem nenhum cliente às 14 horas de uma quarta-feira.

Nova Orleans está perdendo US$ 1,5 milhão em receita de turismo por dia desde a inundação, segundo o Escritório de Turismo da Louisiana, e apenas 25% de seus 3.400 restaurantes reabriram. Em setembro, o índice de desemprego atingiu 14,8%.

A perda do turismo a Nova Orleans repercute por toda a região. Por exemplo, a indústria da pesca, prejudicada pelos estragos nos barcos e na infra-estrutura, precisa de bocas para alimentar na cidade para sobreviver.

"Nós pescamos 3,7 milhões de quilos de camarão no ano passado, e 2,2 milhões foram para a área de Nova Orleans", disse Dean Blanchard, vice-presidente da Associação do Camarão da Louisiana, que é dono de sua própria instalação de descarga. O volume de navios que estão usando o porto da cidade -o quinto maior do país- ainda está a 70% de sua capacidade normal, disse John Kallenborn, o presidente do conselho do Porto de Nova Orleans.

As pequenas empresas estão lutando para sobreviver por causa da escassez de moradores e falta de turistas, e muitas grandes empresas ainda precisam voltar. Antes do furacão, Nova Orleans contava com 115 mil pequenas empresas. "Perder metade destas empresas não é improvável", disse W. Anthony Patton, um membro da comissão de reconstrução.

A Autoridade de Recuperação está considerando pedir US$ 10 bilhões em recursos para ajudar as pequenas empresas, e o Congresso está agora considerando uma proposta que separará imediatamente US$ 450 milhões para empréstimos para pequenas empresas.

A cidade já perdeu 29 das 70 convenções que estavam agendadas para 2006. O centro de convenções da cidade ainda precisa ser reaberto e isto provavelmente só ocorrerá no próximo ano.

Mas vista do ponto de vista do Bairro Francês e bairros seletos como Garden District e Algiers, a cidade até parece estar surpreendentemente robusta. Mercados estão abertos na Margem Oeste, assim como agências bancárias, muitos restaurantes e cinemas.

"É como se a cidade estivesse respirando novamente", disse Nagin, apesar de ter reconhecido não ter idéia de quantas destas pessoas realmente moram na cidade de Nova Orleans.

Mas alguns dos maiores prédios da cidade, incluindo o One Shell Plaza e Dominion Towers, ainda estão fechados. A Rubenstein Brothers, uma loja de roupas na Canal Street há 81 anos, reabriu com grande estardalhaço no mês passado, mas no meio da tarde seus funcionários, bem-vestidos e atentos, não tinham nada o que fazer.

Quando será que o resto do mundo beberá café, assistirá aos concertos gratuitos da Rebirth Brass Band e caminhará pelo Bairro Francês falando de algo que não seja tempestade e FEMA? Poderá levar anos.

"Nós chegamos ao fundo do poço e agora estamos começando a escalada para sair dele", disse Scott Cowen, o presidente da Universidade Tulane. "Poderá levar de três a cinco anos para realmente construir a cidade modelo que todos queremos que Nova Orleans seja."

*Com reportagem de Adam Nossiter e Gary Rivlin, em Nova Orleans; Eric Lipton, em Washington; e John Schwartz e Jennifer Steinhauer, em Nova York. Empresas e vítimas do Katrina ainda não receberam a ajuda federal George El Khouri Andolfato

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