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10/11/2005

Bloomberg tem grande vitória na disputa pela prefeitura de Nova York

The New York Times
Patrick D. Healy
Michael R. Bloomberg foi reeleito prefeito de Nova York por uma margem histórica na terça-feira, derrotando a tentativa de Fernando Ferrer de formar uma coalizão multiétnica e dando aos republicanos uma quarta vitória consecutiva sem precedentes sobre o Partido Democrata, que controlou a política da cidade por grande parte do último século.

A vitória de Bloomberg por mais de 20 pontos percentuais, segundo resultados não oficiais, poderá quebrar o recorde republicano de margem de 16 pontos percentuais, estabelecido pela vitória de Rudolph W. Giuliani, em 1997, e até superando a vitória esmagadora de Fiorello H. La Guardia por 19 pontos, em 1937. Ferrer aparentemente contou com o menor número de votos de um candidato democrata a prefeito desde 1917, quando John F. Hylan foi eleito com 313.956 votos.

O resultado também levou os líderes democratas, que estavam incomumente unidos no apoio a Ferrer, a uma temporada de auto-análise sobre sua estratégia política enquanto enfrentam um exílio de 16 anos da Prefeitura até a eleição de 2009.

Eleitores assim como analistas independentes viram o sucesso de Bloomberg como um triunfo da competência sobre a ideologia, política étnica e apelos partidários presentes no coração da campanha de Ferrer, que se apoiou fortemente em endossos da elite do partido, incluindo Bill e Hillary Clinton, enquanto lutava para encontrar uma mensagem que funcionasse.

Bloomberg, um empresário bilionário que pagou mais de US$ 70 milhões por sua própria campanha, se retratou como um tecnocrata que não deve nada a ninguém e que ajudou a tirar a cidade dos dias sombrios pós-11 de setembro, com queda na criminalidade, alta na nota média dos estudantes e uma recuperação da economia.

O resultado da eleição também sugere que Bloomberg e seu antecessor republicano, Giuliani, estabeleceram um padrão ao mostrar que eleitores de ambos os partidos querem um prefeito de mentalidade independente e poder de comando, capaz de mostrar resultados mensuráveis em segurança, educação e qualidade de vida.

"Os nova-iorquinos agora votam em visões, idéias e capacidades que unam a cidade, e em líderes voltados ao nosso interesse público comum, em vez de interesses especiais", disse Dick Dadey, diretor executivo da Citizens Union, um grupo de fiscalização da administração que apoiou o prefeito. "Este é o apelo de Bloomberg; as pessoas acreditam que ele não é o político típico e que sua única prioridade é uma cidade bem administrada."

Com informações de 100% dos distritos eleitorais às 00h18 de quarta-feira, Bloomberg contava com 59% dos votos, contra 39% de Ferrer. Ferrer reconheceu a derrota em um telefonema a Bloomberg logo após as 22 horas, no qual o prefeito lhe disse: "Obrigado, Freddy. Você foi um cavalheiro em ligar".

Às 22h30, Ferrer agradeceu aos simpatizantes em um palco no Waldorf-Astoria Hotel, onde sua avó trabalhou por baixa remuneração décadas atrás.

"Eu sou realmente o homem mais sortudo de Nova York", disse um Ferrer sorridente, que apresentava um aspecto de orgulho e, às vezes, alívio após uma batalha de um ano pela indicação do partido e depois contra Bloomberg.

"Eu não mudaria o último ano nem por todo o dinheiro do mundo", disse ele, fazendo uma leve insinuação à grande vantagem financeira de Bloomberg na disputa. "Apesar de ter concorrido para vencer, é claro, eu sabia que perderia. Assim, eu concorri primeiro e principalmente para levantar uma voz para aqueles sem uma -e meus amigos, não se enganem, esta voz, nossa voz, foi ouvida!"

"Gracias, mi familia, gracias", concluiu Ferrer, que buscava se tornar o primeiro prefeito latino da cidade.

Meia hora depois, Bloomberg apareceu na festa da vitória no Sheraton New York, que parecia digna de um astro do rock, com luzes e música pulsantes e centenas de simpatizantes, incluindo Giuliani, Magic Johnson, as duas filhas do prefeito, sua namorada e sua mãe de 96 anos.

"Isto certamente supera a alternativa", disse Bloomberg. Lembrando de sua primeira vitória há quatro anos, logo após 11 de setembro, Bloomberg disse: "Naquela noite nós dissemos ao mundo que Nova York estava viva, passando bem e aberta para os negócios. Hoje, o mundo sabe que Nova York está de volta à ação!"

"Nesta noite, nós celebramos -amanhã, voltaremos ao trabalho", continuou o prefeito. "Nós voltaremos a lutar por uma Nova York onde as famílias podem viver em segurança e crescer, onde os direitos de todos os cidadãos são protegidos, uma cidade onde as crianças podem aprender, com bons empregos, moradia e saúde para todos. Mal posso esperar."

Ferrer nunca foi mais que um azarão, enquanto a disputa entre eles se tornava rapidamente uma das mais desiguais na história da cidade. Bloomberg gastou mais de US$ 70 milhões do próprio bolso em sua campanha, enquanto Ferrer lutou para arrecadar apenas US$ 5 milhões.

Alguns assessores de Ferrer admitiram pela primeira vez na terça-feira que já sabiam semanas atrás que seriam derrotados -em parte por causa da propaganda ilimitada do prefeito na televisão, mas também porque Ferrer pediu às pessoas que votassem nele apenas pelo fato de ser democrata, sem nunca encontrar uma mensagem política que estimulasse os eleitores, doadores e a mídia.

"O Partido Democrata está realmente em desarranjo, não tendo nenhum foco em particular com o qual a população se identifique", disse Stan Altman, um professor de assuntos públicos da Baruch College. "O fato é que os nova-iorquinos se importam muito mais com questões importantes do que os democratas lhes deram crédito."

No final, o resultado da disputa pela Prefeitura de Nova York nunca esteve em dúvida.

A vantagem de Bloomberg crescia a cada pesquisa, chegando a 38 pontos em uma pesquisa Quinnipiac na segunda-feira. O prefeito até mesmo foi jogar golfe na terça-feira, enquanto seus assessores políticos brincavam sobre quem iria ao gabinete para atender os telefones na quarta-feira.

O comparecimento dos eleitores pareceu ser de leve a modesto por toda a cidade, negando a Ferrer o grande comparecimento de eleitores latinos e democratas fiéis que ele precisava desesperadamente para superar Bloomberg.

Ao mesmo tempo, os assessores de Bloomberg tentavam reduzir as expectativas na terça-feira sobre a margem da vitória, aparentemente na esperança de fazer com que o resultado final seja mais impressionante. O prefeito espera vencer a disputa com a maior margem possível para reivindicar um mandato político que fortaleceria sua posição junto à Câmara dos Vereadores controlada pelos democratas e junto aos responsáveis pelo orçamento em Albany e Washington.

A principal mensagem política de Ferrer, seu apelo para unir as "duas Nova Yorks" que separam aqueles que têm daqueles que não têm, pareceu menos atraente aos eleitores do que a estratégia de Bloomberg de se apoiar em seu retrospecto impressionante, algo reconhecido até mesmo por muitos democratas. Um governo baseado em resultados tem sido o mantra do prefeito, e suas propagandas políticas e eventos de campanha visavam principalmente reforçar a aura de realização.

"Este é um testamento de que os eleitores reconhecem que Mike é um excelente administrador, com seu talento se transferindo de forma eficaz do setor privado para o setor público, e os eleitores foram às urnas cientes disto", disse Giuliani na noite de terça-feira.

A derrota democrata colocou em dúvida a estratégia fundamental do partido de buscar unir uma coalizão multirracial em apoio a seu candidato a prefeito, o que a equipe de Ferrer tentou obter com dezenas de endossos de líderes negros e latinos, uma estratégia que levou à última vitória democrata, quando David N. Dinkins foi eleito prefeito em 1989.

Os democratas também acreditaram, aparentemente de forma incorreta, que as raízes porto-riquenhas de Ferrer garantiriam um forte apoio dos latinos, o segmento do eleitorado que mais cresce. "Na primeira vez em que o Partido Democrata indica um latino para prefeito, ele não apenas não obtém um forte apoio de outras partes da 'coalizão liberal' -negros e brancos liberais- como também foi incapaz de gerar grande fervor entre os latinos", disse John H. Mollenkopf, diretor do Centro de Pesquisa Urbana do Centro de Doutorado da Universidade Municipal de Nova York.

A campanha de Ferrer tinha problemas desde o início. Presidente do distrito do Brooklyn de 1987 a 2001, Ferrer entrou na disputa há um ano sem um forte palanque, sem um grande respaldo financeiro e sem uma mensagem além do tema populista de devolução dos valores democratas à Prefeitura.

Um tipo burocrático que nunca pareceu à vontade entre os poderosos e jornalistas, Ferrer fracassou em assegurar desde o início o endosso de líderes empresariais, autoridades negras e sindicatos trabalhistas, e foi objeto de constante escárnio pelos tablóides. Muitos eleitores brancos ainda se ressentem do fato de, após ter perdido a indicação democrata em sua segunda tentativa de chegar à Prefeitura em 2001, ele ter se recusado amargamente a apoiar seu antigo rival, Mark Green, que foi derrotado por Bloomberg.

Mas o momento mais prejudicial para Ferrer, aquele que os assessores passaram a considerar virtualmente fatal, ocorreu em março, quando ele afirmou que a morte de Amadou Diallo, um imigrante africano desarmado que foi fuzilado pela polícia em 1999, não tinha sido um crime. A morte horrorizou muitos nova-iorquinos e dividiu profundamente alguns seguindo as divisões raciais. Ferrer foi um forte crítico da polícia na época, até mesmo se permitindo ser preso em um protesto. Mas seus comentários em março provocaram forte revolta entre os eleitores negros com os quais contava.

Olhando para trás, os assessores de Ferrer disseram que concluíram no final de setembro que não tinham chance de vencer. As pesquisas públicas e da campanha mostravam que mesmo se Ferrer acertasse todos os golpes desferidos contra o prefeito, promovendo ao mesmo tempo sua mensagem positiva, o prefeito ainda assim venceria.

A maioria dos nova-iorquinos acredita que a cidade está no caminho certo e que o prefeito merece crédito substancial pela condução da recuperação após 11 de setembro, assim como pela eliminação de um déficit orçamentário bilionário sem prejuízo aos serviços da cidade.

Os assessores de Ferrer disseram que sua maior desvantagem ocorreu na arrecadação de fundos. Eles esperavam levantar US$ 10 milhões ou mais, mas mal conseguiram metade disto. Eles até mesmo produziram um comercial no final da campanha mostrando Bloomberg em uma pose cartunesca ao lado do presidente Bush, na esperança de que isto incitaria os democratas a doar devido à sua raiva em relação aos republicanos (como o prefeito). Mas apenas uma pequena quantia foi arrecadada, disseram os assessores.

Se a derrota de Ferrer era amplamente prevista, a vitória de Bloomberg ainda representa uma recuperação política desconcertante para um político novato. Seus assessores ainda se estremecem quando lembram de que o índice de aprovação do prefeito era de 24% em uma pesquisa do "The New York Times" em junho de 2003, o mais baixo de qualquer prefeito desde 1978.

Àquela altura, muitos eleitores viam o prefeito como um bilionário altivo cujas políticas -fortes aumentos de impostos imobiliários em 2002, cortes nos serviços públicos, expansão da proibição do fumo para toda a cidade- ignoravam as preocupações e necessidades das pessoas comuns e até mesmo contribuíam para a continua perda de empregos.

Os assessores de Bloomberg mantinham a esperança de que os aumentos impopulares de impostos e reveses econômicos tinham ocorrido cedo em seu mandato para que a revolta passasse até a eleição de 2005. A sorte política do prefeito também foi ajudada, indiretamente, pela redução federal de impostos que representaram um alívio para muitos executivos e nova-iorquinos abastados. O prefeito começou a dar mais passos para melhorar sua imagem ao cortejar os líderes trabalhistas, defender iniciativas positivas, realizar mais eventos políticos ao estilo de campanha e buscar reduzir suas gafes.

A equipe de Bloomberg empregou cerca de 10 mil voluntários na terça-feira para mobilizar os eleitores e realizou telefonemas automatizados de última hora convocando as pessoas a votar, enquanto Ferrer tinha poucas milhares de pessoas trabalhando nas ruas e telefones enquanto contava com o comparecimento em massa de eleitores fiéis.

Em entrevistas em dois locais de votação, eleitores do Bronx e latinos falaram com orgulho de seu filho favorito e sua meta de se tornar o primeiro prefeito latino da cidade. Mas também viam com clareza sua batalha colina acima contra Bloomberg.

"Eu sou latino", disse Hugo Orosco, 50 anos, quando perguntado sobre o motivo de ter votado em Ferrer. "Nosso número está crescendo, mas ainda não contamos com uma representação adequada." George El Khouri Andolfato

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