UOL Notícias Internacional
 

10/11/2005

Judith Miller deixa o "New York Times"

The New York Times
Katharine Q. Seelye

Em Nova York
O jornal "The New York Times" e sua repórter veterana Judith Miller chegaram a um acordo na quarta-feira que pôs fim à carreira de 28 anos de Miller no jornal, após mais duas semanas de negociações.

Miller foi presa no último verão porque não quis revelar uma fonte confidencial no caso de vazamento da CIA. Mas sua libertação da prisão, 85 dias depois, quando ela concordou em depor diante de um grande júri, e questões persistentes sobre seus atos reforçaram antigas preocupações sobre ela na redação e levaram à sua saída.

O editor-executivo Bill Keller anunciou a medida à equipe em um memorando na quarta-feira, dizendo: "Em seus 28 anos no 'Times', Judy participou de algumas excelentes reportagens premiadas".

Em uma declaração, Arthur Sulzberger Jr., diretor de redação do "New York Times", disse: "Estamos gratos a Judy por seu significativo sacrifício pessoal para defender um importante princípio jornalístico", acrescentando: "Respeito sua decisão de se demitir do 'Times' e desejo-lhe sorte".

Miller, 57, disse em uma entrevista que ficou "muito satisfeita" com o acordo e se descreveu como uma "mulher livre" do que ela chamava de "convento do 'New York Times', um convento com sua própria teologia e seu próprio catecismo".

Ela disse que nas poucas horas desde que sua saída foi divulgada já havia recebido várias propostas "de todo tipo" de futuros empregos, que não quis especificar.

Mas seu plano imediato é tirar férias. Ela disse que depois do período na cadeia foi "atingida por um tsunami de 40 dias" de críticas e precisava de descanso, embora tenha marcado várias aparições públicas, incluindo uma na quarta-feira à noite.

Ela falou em Manhattan num painel de advogados da mídia e jornalistas, patrocinado pelo Centro de Recursos Jurídicos da Mídia.

Os advogados de Miller, que é membro do Sindicato de Jornais de Nova York, e o jornal negociaram um pacote de desligamento, cujos detalhes ambos os lados concordaram em não revelar.

Segundo o acordo, Miller sairia do jornal e o "Times" publicaria uma carta que ela escreveu ao editor explicando sua posição. Miller originalmente pediu para escrever um ensaio para a página editorial do jornal, contestando as críticas feitas a ela por parte da equipe.

O "Times" recusou o pedido. Gail Collins, a editora da página editorial, disse: "Não usamos a página editorial para fazer leva-e-traz entre uma parte do jornal e outra". Mas Collins concordou em publicar a carta de Miller.

Nessa carta, publicada no "Times" hoje sob o título "A despedida de Judith Miller", a jornalista disse que estava saindo em parte porque alguns de seus colegas discordaram de sua decisão de depor no caso da CIA. "Mas principalmente decidi me demitir porque nos últimos meses eu me tornei a notícia, algo que um repórter do 'New York Times' não quer ser", ela escreveu.

Kenneth A. Richieri, o advogado do "Times" que negociou o acordo para o jornal, disse que uma coisa ficou clara desde o início das negociações para ambos os lados. "O que possibilitou o acordo foi o entendimento comum de que ela não podia continuar escrevendo matérias sobre segurança nacional para o 'New York Times'", ele disse. "Ela se tornara uma parte importante da história."

Catherine Mathis, uma porta-voz do jornal, disse que foi explicado a Miller que ela não poderia continuar sendo repórter de qualquer tipo, e não apenas na cobertura da segurança nacional.

O trabalho de Miller foi criticado depois que suas reportagens sugeriram que o Iraque possuía armas de destruição em massa, o que ajudou o governo Bush a reforçar sua tese para invadir o Iraque, que afinal estava errada.

Em sua carta ao editor, Miller comentou que mesmo antes de ser presa havia se "tornado um pára-raios da fúria pública sobre as falhas da inteligência que ajudaram a levar nosso país à guerra". Ela disse lamentar que "não tive permissão para responder" às perguntas sobre essas falhas da inteligência.

Como parte do acordo, Keller divulgou uma carta pessoal que escreveu para Miller esclarecendo alguns elementos de um memorando que ele enviou à redação em 21 de outubro, que ela considerou crítico à sua pessoa.

Nessa carta, Keller disse que jamais pretendeu implicar que ela teve uma relação inadequada com I. Lewis Libby Jr., sua fonte e ex-chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, quando ele descreveu seu contato como um "emaranhado".

Keller também explicou, mas não recuou de seus comentários sugerindo que ela havia enganado um editor, o chefe da sucursal de Washington, Philip Taubman. "Continuo perturbado por esse episódio", Keller escreveu. "Mas você tem razão de que o próprio Phil não afirma que você o enganou; e, é claro, eu não participei da conversa entre você e Phil."

Miller escreveu em sua carta que ficou feliz por Keller "ter finalmente esclarecido comentários feitos por ele que não eram sustentados pelos fatos e que eram pessoalmente incômodos".

Ela acrescentou, referindo-se a Keller: "Alguns de seus comentários sugerem insubordinação de minha parte. Eu sempre escrevi as matérias que me foram destinadas, respeitei as fontes e as diretrizes éticas do jornal e cooperei com decisões editoriais, mesmo aquelas de que discordava".

Miller deixou o jornal depois de servir por muitos anos como correspondente investigativa e de segurança nacional. Ela escreveu quatro livros e em 2002 participou de uma equipe que ganhou um Prêmio Pulitzer de jornalismo explanatório, por uma reportagem, antes dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, sobre a crescente ameaça de Osama bin Laden e da al Qaeda. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h30

    -0,28
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    15h39

    -0,87
    75.310,64
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host