UOL Notícias Internacional
 

12/11/2005

Libéria elege a primeira chefe de Estado da África

The New York Times
Lydia Polgreen

Em Dakar, Senegal
Ellen Johnson-Sirleaf, economista formada em Harvard e ex-funcionária do Banco Mundial, travou uma campanha presidencial feroz contra o astro do futebol George Weah. Ela emergiu vitoriosa na sexta-feira (11/11) em sua busca para dirigir o país destruído pela guerra e se tornar a primeira mulher eleita chefe de Estado na história da África moderna.

"Tudo está do nosso lado. Os eleitores escolheram um futuro novo e mais luminoso", disse Morris Dukuly, porta-voz de Johnson-Sirleaf.

Com 97% das urnas contabilizadas na sexta-feira, Johnson-Sirleaf alcançou uma liderança insuperável de 59%, contra 41% de Weah, em uma nação onde as mulheres são mais da metade do eleitorado.

A vitória de Johnson-Sirleaf colocou-a em um grupo de bolinha radical. Os homens dominam a política africana desde o início da luta anti-colonial.

"Há tantas mulheres capazes. Mas elas nunca têm a chance de governar", disse Yassine Fall, economista senegalesa e feminista que defende os direitos humanos das mulheres na África.

De fato, quando os partidários de Johnson-Sirleaf, 66, marcharam pelas ruas dilapidadas de Monróvia nos últimos dias da campanha, eles gritaram e acenaram cartazes com os dizeres: "Ellen é nosso homem."

Dukuly disse que Johnson-Sirleaf não declarou vitória formalmente porque Weah, que venceu o primeiro turno das eleições no mês passado e tem amplo apoio da enorme população jovem do país, alegou que os resultados haviam sido fraudados.

Weah disse aos repórteres em Monróvia que tinha submetido uma queixa formal à Suprema Corte, que fará investigações. Observadores internacionais disseram que, apesar de haver pequenas irregularidades, elas foram pequenas demais para modificar os resultados.

Weah, pediu calma a uma multidão de partidários na sexta-feira na sede se deu comitê, mas centenas de pessoas com pedaços de pau marcharam pelas ruas em protestos, recitando: "Sem Weah, sem paz!"

Elas jogaram pedras na polícia na frente da Comissão Nacional Eleitoral. Agentes da força de paz da ONU atiraram gás lacrimogêneo para impedir que os manifestantes invadissem a embaixada americana, de acordo com a Reuters.

Weah tem como base a jovem população que o idolatra por seu desempenho no campo de futebol e sua história de ascensão social. Como os jovens são mais de 40% do eleitorado, ele era considerado o favorito.

No entanto, a votação das mulheres parece ter sido mais forte. O número de mulheres inscritas para votar na Libéria foi ligeiramente superior aos homens e, apesar de não haver pesquisas de boca-de-urna confiáveis, as mulheres parecem ter tido forte presença nas votações.

A estratégia política também teve seu papel. Nas últimas semanas, Johnson-Sirleaf formou alianças cruciais com partidos cujos candidatos haviam perdido no primeiro turno, que afunilou a disputa de 22 concorrentes para dois.

O impacto de sua vitória chegou longe, muito além da nação que ainda tenta se recuperar de mais de uma década de guerra civil.

A história do continente é cheia de heróis como Kwame Nkrumah, Nelson Mandela e Jomo Kenyatta, pais dos Estados africanos modernos que ajudaram a formar, e vilões como Mobutu Sese Seko, Idi Amin e Sani Abacha, déspotas que governaram brutalmente, enriquecendo-se no processo.

Apesar do amplo papel das mulheres em muitas lutas nacionais pela independência, elas foram relegadas ao segundo plano na era pós-colonial. As mais ambiciosas muitas vezes iam para o exterior; algumas, como Johnson-Sirleaf, alcançaram proeminência em organizações internacionais como a ONU e Banco Mundial.

No entanto, nos últimos anos, as africanas conquistaram mais poder e visibilidade. Em 2004, uma ambientalista queniana, Wangari Muta Maathai, conquistou o prêmio Nobel da Paz, enquanto era ministra das Finanças da Nigéria; Ngozi Okonjo-Iweala surgiu como uma das mais respeitadas autoridades do país em sua luta contra a corrupção.

As mulheres também obtiveram ganhos nas urnas. A primeira-ministra de Moçambique, Luisa Dias Diogo, é considerada forte candidata à presidência. Em Ruanda, a proporção de mulheres no Parlamento é maior do que em qualquer outra nação; elas ocupam quase metade dos assentos.

De fato, no mundo em desenvolvimento, a África tem a maior percentagem de mulheres em cargos legislativos, cerca de 16%, de acordo com a União Inter-Parlamentar, organização de corpos parlamentares do mundo todo.

No entanto, maior número de dirigentes do sexo feminino não significa mais decisões que beneficiem as mulheres. Apesar de geralmente tomarem decisões que favorecem mulheres e crianças, freqüentemente elas ganham poder político como minoria e sentem-se obrigadas a seguir a opinião dos homens para manter o poder, disse Geeta Rao Gupta, presidente do Centro Internacional de Pesquisa sobre Mulheres, um grupo de pesquisa de Washington.

"Quando há massa crítica de mulheres, elas ganham confiança e têm maiores chances de exibirem sua experiência feminina em suas decisões", disse Rao Gupta. "É preciso alguns ciclos para que isso realmente se enraíze."

A eleição presidencial da Libéria aconteceu dois anos depois de a nação emergir de uma guerra civil brutal que tomou mais de 200.000 vidas e deslocou um terço da população. Tirado do poder pelos rebeldes, Charles Taylor, senhor de guerra que se tornou presidente e fomentou guerras sangrentas que afligiram a região por mais de 10 anos, foi para o exílio em 2003.

Ele deixou para trás uma nação destruída pela guerra, inclusive toda sua infra-estrutura, desde estradas até as redes elétricas e de água. Apesar de sua riqueza natural em gemas, borracha e madeira, a Libéria é uma das nações mais pobres.

Johnson-Sirleaf foi funcionária da ONU e ministra das Finanças e é conhecida como a Mulher de Ferro da Libéria desde que concorreu contra Taylor para presidente em 1997. Ela foi presa por mais de um ano sob o ex-ditador Samuel K. Doe e não terá dificuldades para se encaixar no clube todo masculino de chefes de Estado africanos, disse Fall, a economista, que conhece Johnson-Sirleaf há anos.

"Ela é destemida", disse Fall. "Nenhum homem a intimida." Ellen Johnson-Sirleaf vence a eleição para a presidência do país Deborah Weinberg

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