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13/11/2005
Eu, eu mesma e Madonna

Stephanie Rosenbloom

Foi minha devoção a Madonna, e não ao catolicismo, que me animou a pedir aos meus pais uma cruz --não uma pequena e delicada, que ficasse aninhada na depressão do meu pescoço, mas uma cruz exagerada, dessas de afastar vampiros. A reação de meus pais foi me dar uma estrela de Davi, pouco menor que o enfeite no capô do nosso Buick.

Uma cruz, como qualquer fã do início da década de 80 sabia, era o acessório essencial das que estavam decididas a se vestir como Madonna. Mas eu tinha oito anos e não era corajosa o suficiente para emprestar uma sub-repticiamente de uma amiga. Eu também tinha um vago temor de ser atingida por uma força superior. Para piorar as coisas, não tinha permissão para me vestir de preto, a cor que Madonna usou da cabeça aos pés em seu videoclipe "Lucky Star". ("Você terá muito tempo para usar preto quando for adulta", disse minha mãe.) Quando amarrei meu cabelo para trás com uma tira de tecido, como fazia Madonna, minha mãe empregou a palavra iídiche para "trapo" e avisou: "Tire esse 'shmatte' da cabeça".

Daí que minha devoção a Madonna se expressava somente em meu quarto, aquele casulo em cores pastel cheio de sussurros, onde eu dançava entre os bonecos e cantava "Like a Virgin". Não importava que eu não soubesse o que era uma virgem. Quando dançava ouvindo Madonna, me sentia com 18 anos, e não oito.

Como inúmeras garotas da minha geração, fui cativada por seu estilo (as luvas sem dedos, as camisetas mostrando o umbigo, as inúmeras pulseiras, a cruz proibida) e maravilhada por seu desafio insolente das convenções de gênero. Nunca havíamos visto alguém tão ousado, poderoso e sexualmente agressivo que não fosse homem. Às vezes ela era grosseira. Às vezes era maligna. Mas nos fazia considerar que tipo de mulheres queríamos ser.

Na próxima terça-feira, o décimo disco de Madonna gravado em estúdio, "Confessions on a Dance Floor", será lançado nos EUA. O site da MTV começou a tocar uma cópia antecipada no final da semana passada, e no mês passado o canal mostrou a estréia de "I'm Going to Tell You a Secret", um documentário sobre a turnê mundial "Re-Invention" e a viagem a Israel de Madonna em 2004. Os visitantes do recém-reformado site Madonna.com podem encontrar links para sua nova página MySpace.com e um número para fazer ligações gratuitas e confessar seus "segredos".

Aqui está o meu: depois de mais de 20 anos descobrindo heróis desconhecidos nas mulheres ao meu redor --mentoras e amigas que são duras e sexy de maneiras que não exigem cabelos platinados e sutiãs em forma de cone--, ainda amo Madonna.

Enquanto escrevo estou escutando o primeiro single do disco ("Hung Up"), e minha perna direita balança ao seu ritmo hipnótico. Vem bem a calhar: a música de Madonna foi a trilha sonora da minha vida desde a época em que coloquei uma peruca loura e saí pedindo balas em Halloween até quando organizei uma festa no colégio com o tema Madonna, em que as mulheres usavam pouca roupa e os homens, sutiãs feitos de copos plásticos do refeitório.

Em 1989 meus amigos e eu tivemos um curso relâmpago de censura quando a Pepsi cancelou um comercial de televisão que mostrava Madonna, depois de saber que os consumidores o haviam confundido com seu clipe "Like a Prayer", que incluía estigmas, cruzes queimando e cenas de amor inter-racial. Tivemos mais uma aula em 1990, quando a MTV proibiu seu videoclipe orgiástico "Justify My Love", e novamente em 1991, quando o documentário "Madonna: Truth or Dare" revelou que ela foi ameaçada de prisão em Toronto sob acusação de obscenidade durante a turnê "Blond Ambition".

Foram esses os momentos Madonna que me ajudaram a cristalizar minhas opiniões sobre liberdade de expressão. Depois houve os momentos que meus amigos e eu criamos por puro escapismo: dirigir durante uma hora na chuva para ver Madonna no filme "Evita" no dia do lançamento em 1996; cantar "Holiday" a capela em viagens num Dodge Colt com o rádio quebrado; sair correndo de uma lanchonete Taco Bell antes de receber a comida que tínhamos comprado porque alguém disse que Madonna estava perto dali.

Senti-me traída quando Madonna se mudou para o campo inglês e começou a escrever livros infantis. Eu já tinha superado há muito meu desejo de usar uma cruz enorme, mas a mulher recatada com um pseudo-sotaque inglês não era a amazona das pistas de dança com a qual eu cresci. Mas ela continuava sendo uma mulher de negócios esperta, com um senso de humor mordaz. E mantinha-se fiel à única coisa que sempre foi: um camaleão.

Madonna se transformou tantas vezes que quase todos os fãs viam um lampejo de si mesma, ou si mesmo, refletido nela em algum momento. Fosse celebrando as relações inter-raciais, a cultura dos clubes gays ou o sadomasoquismo, o espírito de seu trabalho sempre foi inclusivo. Ver uma parte de si mesma adotada por ela, especialmente uma parte que você sente que é marginalizada, pode ser uma validação inebriante.

Então imagine meu deleite durante a turnê "Re-Invention" no verão passado, quando, molhada de suor e perdida na música, de repente olhei para o palco e vi imponentes letras hebraicas flutuando numa tela. Demorei um momento para registrar que estava olhando para a linguagem da Torá. Depois de anos perseguindo Madonna, ela finalmente viera a mim.

Sua forma de cabala pode ser controversa, mas ela disse que a ajudou a explorar as respostas para perguntas como "Por que estou aqui?" e "Qual é minha finalidade?" E na verdade minha preocupação com Madonna sempre foi menos pelas opções de vida dela do que pelas minhas. Quer eu gostasse do que ela estava fazendo quer não, ela me levou a considerar as opções que eu fazia para mim mesma.

Faz mais de duas décadas desde o lançamento de "Like a Virgin". E, como qualquer fã sabe, o acessório essencial de Madonna hoje é o bracelete vermelho da cabala. Mas esses detalhes não importam. Não me visto mais como Madonna. Visto-me como minha mãe, toda de preto. Mais ou menos nesta época no ano passado, estávamos à beira da piscina em Orlando, Flórida. Eu prendi meu cabelo para trás com uma faixa enquanto aplicava filtro solar e curtia a música de Madonna tocando alto nos fones de ouvido. Minha mãe estava lendo, mas a interrompi para perguntar se eu tinha espalhado direito o creme no rosto. "Está certo?", perguntei de trás dos grandes óculos escuros. "Você está linda", ela disse, espiando por cima de seus óculos ainda maiores. "Mas tire esse 'shmatte' da cabeça."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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