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15/11/2005

"Born to Run" renasce 30 anos depois

The New York Times
Jon Pareles
Em Nova York
Na primavera de 1974, Bruce Springsteen era um músico franzino, descabelado, de 24 anos de Jersey Shore, prestes a gravar seu terceiro disco. Estava sob pressão. Apesar de ser sensação nos clubes da Costa Leste e favorito dos críticos de rock, seus primeiros dois discos não tinham vendido o suficiente para convencer sua gravadora, Columbia, de que não era um fiasco. Talvez fosse sua última chance.

Peter Cunningham/Shore Fire Media/The New York Times 
Bruce Springsteen lança "Born to run" em show em Nova York, em 13 de agosto de 1975

Ainda assim ele entrou no estúdio não para fazer um sucesso comercial, mas para fazer uma obra-prima. "Nós tínhamos uma grande ambição", disse Jon Landau, hoje agente de Springsteen. Ele produziu o álbum com Springsteen e seu agente na época, Mike Appel.

"Sabíamos exatamente o que queríamos", lembrou-se Landau em entrevista na semana passada. "Não estávamos naquilo para fazer algo razoável. Não estávamos naquilo para fazer uma música chegar às rádios. Estávamos naquilo para fazer algo grande."

O resultado --depois de 15 meses reescrevendo músicas, depois de sessões de gravação incansáveis, de 18 horas, e da substituição de metade da E Street Band-- foi "Born to Run", lançado no dia 25 de agosto de 1975. O disco levaria Springsteen de sensação local para arquétipo do rock americano.

Trinta anos depois, Springsteen está relançando "Born to Run" em uma caixa (US$ 39,98 ou cerca de R$ 90) que Landau descreveu como "corrida da vitória". Inclui um CD remasterizado do disco original e dois DVDs: "Wings for Wheels", um documentário sobre a produção do disco e "Hammersmith Odeon, London '75", a filmagem da apresentação de duas horas de Springsteen e a E Street Band arrasando, para um público desconfiado em seu primeiro show na Inglaterra.

No final de "Wings for Wheels" tem outra apresentação: Springsteen toca três músicas com sua banda em 1973 em um clube em Los Angeles, inclusive "Thundercrack", que só surgiu quando ele lançou sua coleção "Tracks" em 1998.

O documentário, com imagens das sessões de gravação que não tinham sido apresentadas até hoje, mostra parte do trauma do processo. O filme do show em Londres, que ficou guardado por três décadas nos arquivos de Springsteen, apresenta um triunfo emocionante e ensurdecedor: os rapazes de Jersey apresentaram coragem, adrenalina e virtuosismo.

"Wings for Wheels" usa filmagens de Barry Rebo, que na época era fã e amigo de Springsteen e hoje é diretor da Emerging Pictures, uma rede nacional de cinemas de filmes digitais. Rebo gravou seu primeiro filme de Springsteen em Super-8, em 1970, e a partir daí passou a filmar Springsteen nas apresentações e gravações durante uma década.

"Se eu quisesse ser câmera, que era meu objetivo, ele era o tema mais perfeito que poderia ter", disse Rebo em entrevista telefônica no domingo (13/11), antes de ir para Atlantic City assistir a um show de Springsteen. "Ele era tímido, mas no palco tornava-se um músico incrivelmente carismático."

Rebo gravou mais de 100 horas de vídeo e filme sobre Springsteen, incluindo seus shows no Bottom Line em Manhattan e no Roxy em Los Angeles.

"Se as filmagens não encontrassem um caminho até o público iam se tornar apenas lembranças da família", disse Rebo. Springsteen comprou o material de Rebo neste ano, e a nova caixa oferece ao público um primeiro vislumbre.

Em 1974, Rebo levou uma câmera P&B para o 914 Sound Studios em Blauvelt, N.Y., onde Springsteen começou a gravar "Born to Run". Landau educadamente descreveu 914 como um "estúdio velho e depredado". Entre outras coisas, o piano, que era central para as músicas, não ficava afinado. Springsteen trabalhou ali durante meses, entre apresentações em clubes, nos 4,5 minutos da música "Born to Run".

Thom Zimny, que dirigiu "Wings for Wheels", disse que quase todas as versões das músicas do DVD não estavam no disco final, mas foram tiradas de inúmeras tomadas. (As opções do DVD usam trechos de conversa do estúdio).

Uma seção fascinante mostra como as camadas da música "Born to Run" foram montadas, como foram misturados os canais dentro da densa música. "Não dava para dizer quantas duplicações de canais havia", disse Zimny. Quando a música ficou pronta, o tecladista da banda, David Sancious, e o baterista Ernest "Boom" Carter saíram. Seus substitutos, Roy Bittan no piano e Max Weinberg na bateria, ainda estão na banda.

Springsteen também teve dificuldades em Blauvelt com a música épica que fecha o disco, "Jungleland", que ele só conseguiu terminar no outro ano. "Eles estavam empacados", disse Rebo. "Era Bruce tentando ouvir e articular algo para as pessoas que nunca tinham feito um disco assim."

Usando a câmera modificada para poder filmar com pouca luz --algumas vezes apenas a luz do console da sala de controle-- Rebo capturou Springsteen exausto, mas determinado, insatisfeito com o som e fazendo intermináveis repetições.

Mesmo assim, quando Springsteen vai para trás do microfone para cantar "Jungleland", fica claro que pensado cada inflexão dramática, desde o sussurro até o grito.

Springsteen convidou para participar das gravações Landau, jornalista de rock que tinha proclamado Springsteen como o futuro do rock'n'roll. Landau começou a dar conselhos. Ele persuadiu Springsteen a deixar Blauvelt e mudar-se para um estúdio de primeira, o Record Plant, em Manhattan, onde o álbum foi terminado.

Em "Wings for Wheels", Springsteen descreve o disco como a composição mais teatral de sua carreira. Ele diz que tentou fazer as músicas cinematográficas, completas, com introduções às cenas, personagens e interlúdios.

"A letra inicial teria sido um filme de segunda categoria", observa. "O produto final era para ser como um bom filme B, imbuído de uma coisa espiritual."

"Born to Run" é a "linha divisória" entre seu trabalho adolescente e adulto, diz Springsteen. É também um fim e um começo. Canções como "Thunder Road" e "Jungleland" têm mais em comum estruturalmente com músicas elaboradas como "Rosalita" do que com as músicas mais recentes de Springsteen.

"Ele não queria fazer uma seqüência", disse Landau. "E nunca fez. Ali houve a culminação de parte de sua composição que ele não repete."

16 horas

Fãs antigos de Springsteen talvez fiquem surpresos em ver Appel tão proeminente no documentário. Ele foi o agente que ajudou Springsteen a fechar seu contrato com a gravadora e convenceu-a a continuar colocando dinheiro em "Born to Run". Landau disse: "Mike era muito bom em derrubar as portas e, você sabe, bater nas pessoas até conseguir o que queria."

Appel e Springsteen produziram a música "Born to Run" antes de Landau começar a trabalhar com eles. Mas Landau superou Appel como principal assessor de Springsteen. Depois que o álbum foi lançado --e do período coberto pelo documentário-- Landau e Appel brigaram sobre a carreira de Springsteen.

O contrato de longo prazo que o jovem Springsteen tinha assinado com a empresa de Appel, Laurel Canyon, cedia à esta o controle dos direitos de publicação de Springsteen e mais royalties por disco vendido do que o próprio Springsteen ganharia.

Em 1976, quando Springsteen quis começar a trabalhar em seu próximo disco, com Landau na produção, Appel recusou-se a permitir e conseguiu uma ordem judicial impedindo que os dois trabalhassem juntos. Springsteen solicitou uma auditoria de seus contratos e um relatório do contador descreveu-os como "exploração inescrupulosa".

Depois de quase um ano de processos judiciais, Springsteen e Appel chegaram a um acordo. Springsteen conseguiu os direitos de publicação e começou a gravar com Landau "Darkness on the Edge of Town".

Mesmo assim, Appel talvez tenha inadvertidamente ajudado Springsteen a finalmente completar "Born to Run". Appel já tinha marcado uma excursão para divulgar o disco, acreditando que estaria pronto.

De acordo com Landau, o último dia de gravação antes de a banda pegar a estrada foi uma maratona na qual Springsteen e o saxofonista Clarence Clemons ponderaram cada nota do solo de Clemons em "Jungleland", por 16 horas.

"Foi um pesadelo", disse Landau. "Ele tinha uma visão em mente. E a única forma de esclarecê-la era por tentativa e erro com Clarence. E ele era muito obsessivo com o disco."

Landau lembra-se: "Ele estava terminando com Clarence em uma sala. A banda estava em outra. Eles estava mixando 'Jungleland' sem o sax, esperando para acrescentar o canal em outra sala. E lá pelas 7h ou 8h da manhã, saíram do estúdio, entraram em uma van e foram para Providence começar a excursão."

A plena teatralidade da composição de Springsteen para "Born to Run" aparece no DVD do show de Hammesrmith Odeon. Filmado e gravado em 24 canais. Springsteen já tinha quase esquecido dele até que começou a rever seus arquivos recentemente. "Disseram-me: 'Ele vai mandar algum material'", disse Zimny. "Eram 16 latas, sem rótulo, de 1975".

As imagens estavam separadas do som, então Zimny teve que ler lábios para conectar o filme às músicas. No palco, Springsteen veste um gorro que balança tanto quanto ele; os membros da banda usam chapéus e ternos vibrantes com calças boca-de-sino.

Eles aceleram as músicas ao máximo. "Born to Run" provavelmente nunca foi tocado tão rápido."She's the One" começa com a gaita solitária de Springsteen e cresce no ritmo de Bo Diddley para uma batida sincopada.

Se Springsteen estava nervoso --ele passou a tarde no teatro jogando fora material promocional que considerava excessivo-- quase não parece quando se empertiga, brinca, emociona e sua.

"Estávamos procurando os holofotes, estávamos tentando fazer algo que fosse notado", diz ele no documentário. "Queríamos algo explosivo". Ele era apenas um rapaz de Jersey, pronto para tomar o mundo. Música é um divisor-de-águas da carreira de Springsteen e do rock Deborah Weinberg

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