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16/11/2005

Crise no Brasil fica perto do ministro da Fazenda

The New York Times
Paulo Prada

No Rio de Janeiro
Um escândalo que devastou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos últimos meses poderá derrubar uma autoridade há muito considerada o pilar de estabilidade do governo: Antônio Palocci, o influente ministro da Fazenda do Brasil.

Depois de ficar dormente por um breve momento, ressurgiu uma série de acusações de que Palocci teria participado de uma trama para financiar ilegalmente a eleição de 2002 que levou Lula ao poder. O coro de críticas que surgiu em agosto foi ampliado recentemente por alguns membros do governo, que agora questionam até a elogiada administração da economia por Palocci.

Além disso, ex-assessores de Palocci, quando ele foi prefeito da cidade de Ribeirão Preto, disseram em depoimento na semana passada que a prefeitura aceitou propinas em troca de contratos municipais. Embora Palocci tenha negado as acusações quando elas surgiram, ultimamente ele mantém silêncio.

Essas declarações rapidamente atingiram o ministro, um dos principais assessores de Lula.

"Palocci sempre foi apoiado por consenso", diz Luciano Dias, um analista político da Goes & Consultores Associados, uma consultoria de Brasília, referindo-se à popularidade da agenda econômica do ministro. "Como agora ele foi envolvido no conflito, perdeu o apoio que antes recebia até da oposição."

Embora não tenham surgido provas que o incriminem diretamente, as acusações contra Palocci tornaram-se mais sérias e levantaram perguntas sobre as práticas que ajudaram o Partido dos Trabalhadores a vencer as eleições.

O ataque é tal que, segundo diversas reportagens na imprensa brasileira, Palocci disse ao presidente no final da semana passada que desejava renunciar. Uma pessoa que foi informada dos planos de Palocci disse que ele aproveitou o fim de semana prolongado --terça-feira foi feriado nacional no Brasil-- para avaliar se permaneceria no cargo.

"É um momento delicado para o ministro da Fazenda sair", disse Dias. "Houve uma política econômica coerente que até agora parecia acima da crise política."

Os principais jornais do Brasil divulgaram na segunda-feira que o presidente, diante da possibilidade da saída de Palocci, está examinando uma pequena lista de possíveis sucessores. Ana Maria Carneiro de Matos, uma porta-voz do gabinete de imprensa do presidente, apenas repetiu uma declaração feita por Lula no fim de semana de que o presidente não está considerando mudanças na política econômica ou em sua administração.

A saída de Palocci certamente provocaria dúvidas sobre o futuro da economia. Elogiado por seu estrito respeito à disciplina fiscal e pelas políticas voltadas para o mercado, Palocci ajudou Lula, um ex-líder sindical que já foi temido por sua retórica inflamada, a tranqüilizar os eleitores da corrente dominante e a convencer a comunidade empresarial de que ele não abandonaria a liberalização econômica iniciada no governo anterior.

Ao domar a inflação, reduzir a dívida externa e controlar ainda mais os gastos oficiais, o governo Lula melhorou a balança do Brasil e abriu caminho para o que muitos economistas consideram que será um crescimento econômico sustentado.

Mas o zelo pela austeridade fiscal também irritou muitos antigos seguidores do Partido dos Trabalhadores, que se decepcionaram com o que consideram o fracasso do governo em executar sua ambiciosa agenda social, incluindo a promessa de erradicar a fome e redistribuir a terra, que o ajudou a eleger-se. Além disso, o rígido controle de Palocci sobre os gastos do governo levou outros ministros a criticar o que consideram uma falta de investimentos em áreas-chave como agricultura, infra-estrutura e energia.

Com um surto de febre aftosa que fez as exportações de carne despencarem no mês passado, Roberto Rodrigues, o ministro da Agricultura, afirmou que o problema poderia ter sido evitado se o governo tivesse aprovado verbas anteriormente solicitadas para vacinas e testes dos rebanhos. E na semana passada Dilma Rousseff, chefe de gabinete de Lula e defensora de gastos públicos mais flexíveis, chamou de "rudimentares" os planos do Ministério da Fazenda de estender suas medidas de austeridade.

As críticas deixaram Palocci cada vez mais vulnerável. E para a oposição política, ávida para enfraquecer o governo, sua partida representaria uma vitória no último ano do mandato de Lula.

"Sem Palocci não haveria mais esse compromisso sólido com a responsabilidade fiscal", disse Christopher Garman, um analista político da consultoria de risco Eurasia Group. "Isso coloca uma grande questão política para o governo antes de um segundo mandato." Sem Palocci, não haveria mais compromisso fiscal, afirma consultor Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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