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17/11/2005

A dialética de Shakira, a "mulher cheia de graça"

The New York Times
Jon Pareles

Em Londres
Na capa de seu novo álbum, "Oral Fixation, Vol. 2", a cantora pop e compositora colombiana Shakira reencarna Eva, vestida apenas com estratégicas folhas de parreira. Numa árvore, dependurada perto dela, está uma bebê, tentando alcançar a maçã que Shakira segura nas mãos.

Por razões óbvias, isso tem um apelo visual, assim como acontecia na capa do álbum-irmão em língua espanhola que Shakira lançou em junho, "Fijacion Oral, Vol. 1", que a mostra vestida da cabeça aos pés e segurando a mesma menininha, como se a amamentasse. E, mesmo com o intervalo de quatro anos desde o lançamento do álbum anterior, "Fijacion Oral, Vol. 1" disparou para a posição de número 4 nas paradas pop da Billboard.

EFE 
Musa latina alude à psicanálise na capa de seu novo álbum, "Oral Fixation 2", lançamento do fim do ano
Como maneira de despertar a atenção, uma estrela pop exibindo a sua pele já tem por si só um efeito auto-explicativo. Mesmo assim, Shakira, aos 28 anos, tem outras idéias a respeito dessa sua última escolha em termos de imagem pública. "Quero atribuir a Eva uma razão a mais para morder a fruta proibida, e essa seria o motivo da fixação oral dela", declarou a cantora recentemente. "Eu sempre me senti como uma pessoa muito oral. Essa é a minha maior fonte de prazer."

"De um ponto de vista psicanalítico, nós começamos a descobrir o mundo através de nossas bocas nos primeiros estágios de nossas vidas, logo após o nascimento", diz Shakira. "A primeira capa (da versão em espanhol) é mais freudiana, e a segunda tem mais a ver com Jung, porque Eva é um arquétipo universal. Eu tentei manter uma unidade entre as duas capas dos discos, e preferi adotar essa iconografia renascentista. A mãe, o filho e o pecado original são conceitos recorrentes do período da Renascença, e eu quis recorrer a esses personagens históricos."

Psicanálise, revisionismo bíblico, pinturas renascentistas. Isso sem falar na pesquisa das origens do multiculturalismo, passos tórridos de dança e um ouvido atento a ritmos e sonoridades de toda parte do mundo. Preencher as necessidades básicas do pop atual --chegando com uma canção envolvente e um rosto bonito-- começa a não bastar para as radiantes ambições de Shakira. Ela é a sensação latina pop do século 21, é doce e entusiasmada faceta da globalização, e um pouco mais.

"Não sou eu quem está provocando tudo isso", diz a cantora. "Sou apenas uma conseqüência do grande momento musical e das grandes mudanças pelas quais passamos no mundo."

E ela é bem capaz de seduzir o mundo. Gabriel Garcia Marquez, o romancista colombiano vencedor do prêmio Nobel de literatura, escreveu que "ela inventou sua própria espécie de sensualidade inocente." Conversando enquanto saboreia delícias indianas como pastéis samosas e tikkas de frango, ela parece tranqüila, confiante, de alma leve e completamente desarmada.

Em seu novo single, "Don't Bother", Shakira canta o drama de ser trocada por uma mulher que é alta e "fat-free" (sem gorduras), mas insistindo que irá se recuperar. O clipe da canção, depois de mostrar cenas de amor feitas sob o chuveiro, mostra a vingança dela, provocando a destruição do carro do amante.

"Se machucou?", ela comenta, rindo curiosa sobre qual seria a reação de um espectador masculino. "O carro de um homem é como se fosse a extensão do ego e da masculinidade dele. Pensei que esse seria um vídeo que faria as mulheres dizerem, `É isso aí!' e que faria os homens se sentirem --ela emite um som de alguém assustado-- `Oohh..."' Ela se diverte com a idéia.

Sons e vídeos "exorcizam as coisas ruins que poderiam acontecer ao seu relacionamento", acredita Shakira. "Dentro de mim há uma verdadeira besta ciumenta, que eu estou tentando domar."

Mesmo ela assim ela ressalva: "Meus vídeos representam muito bem a artista que existe em mim, mas não o tipo de mulher que eu sou. Quando assistem aos meus vídeos, as pessoas podem pensar que eu sou uma pessoa sexualmente muito agressiva, mas eu sou exatamente o oposto. Tenho muita timidez em relação ao meu corpo. O máximo que eu consigo mostrar é a minha barriga. Eu admiro as pessoas que conseguem fazer nus artísticos. Eu não consigo. E eu visto o bastante para cobrir o que minha mãe quer que eu cubra."

EFE 
Shakira durante programa da TV alemã
"Eu acredito que a arte e a música devam ser sensuais", acrescenta a cantora. "Não necessariamente sexuais. Entre o sensual e o sexual há mais do que as aparentes onze letras que separam o N do X no dicionário. Sensual é tudo o que se refere ao desfrute dos sentidos. E é isso o que os artistas fazem, estimulam os sentidos de todas as formas. Não acho que eu deva pendurar em mim um pequeno cartaz dizendo, `Ei, vejam como sou sexy,' para depois retirá-lo e dizer, `Ei, vejam que eu agora estou séria.' Eu prefiro poder apenas flutuar e oscilar de um lado para outro, sempre que meus instintos assim me ordenarem."

Se as canções dela não tivessem se transformado em hits internacionais da música pop, Shakira teria sido aclamada como uma inovadora no rock alternativo latino. As letras dela, quase sempre sobre romances, misturam sentimentos pop generalizados com surpreendentes pílulas confessionais. Na balada "Your Embrace" (Seu Abraço) que está no novo disco, Shakira quer saber "Qual é a utilidade dessa cinturinha de 24 polegadas se você não me toca/Me diga pra que serve estar na TV todos os dias se você não assiste a mim?"

E a música de Shakira tem um ecletismo perspicaz mas que quase chega às raias da perturbação. Outra nova canção, "Animal City", começa com um floreado vocal arábico-flamenco, depois muda para um estilo synth-pop, em seguida vira para o estilo das guitarras do surf e depois cobre tudo com metais mariachi: "Nunca se importe com as regras que a gente quebra", ela canta. Mesmo em suas canções rock ou pop mais convencionais, a voz dela é indomável, ou melhor, assim são as vozes dela: podem vir em tom alto, choroso e tórrido; num ataque roqueiro dilacerante; num gorjeio de menina; ou numa insinuação sussurrada. É proposital ainda que voluntariosa, segura de seus impulsos.

Nenhum plano de laboratório para produzir sucessos transculturais poderia ter criado uma figura como Shakira. A mãe dela é colombiana, o pai é libanês; em árabe, Shakira significa "mulher cheia de graça."

"Eu procuro pelos elementos mais primais que existem nessas duas culturas, e aí trago tudo isso para a minha música", diz a cantora. "Acho que é por isso que eu provavelmente sou uma pessoa romântica e apaixonada. Mas eu também tenho um lado muito disciplinado e de muita exigência. Às vezes o meu senso de responsabilidade é o meu pior torturador."

Shakira fala espanhol, português e inglês, e quer aprender outras línguas. Ela se considera uma nômade; tem casas nas Bahamas, onde vive agora, e em Miami, sendo que também visita regularmente sua cidade natal, Barranquilla, na costa caribenha da Colômbia.

As influências do Oriente Médio surgem através dos arabescos vocais e de movimentos de dança do ventre, mas ela também dá suas voltas pelo rock, pelo pop e pela disco; o primeiro álbum que ela teve, numa fita cassete, foi "Bad Girls", de Donna Summer.

"Eu me sinto confortável nos meus calçados pop", diz Shakira. "Eles me deixam andar em qualquer direção. Eu gosto de ir de um extremo ao outro. Um dia eu sinto que eu quero fazer uma canção com influência reggaeton , aí eu faço desse jeito. No dia seguinte eu me sinto com vontade de fazer uma canção com elementos de rock, aí eu vou lá e faço. E às vezes eu tento perceber se um bandoneon argentino (o acordeão usado no tango) pode sobreviver numa canção com sopros flugelhorns."

Shakira deu a entrevista num intervalo do ensaio com a banda dela num galpão ao sul de Londres, se preparando para aparições na televisão e no rádio que, na semana seguinte, a levariam até Dinamarca, Alemanha, Itália e Portugal.

Figura baixinha, com jeans e camiseta negra, ela realmente estava a mil; a noite incluiria não apenas uma entrevista e o ensaio mas também uma prova de roupas, um rápido jantar à base de quentinhas e, em algum momento após a meia-noite, um vôo para Copenhagen, Dinamarca. O braço dela tinha uma leve mancha vermelha provocada pelo ferro "chapinha" que moldou seus cachinhos louros a la Botticelli: "É uma boa desculpa para arrumar uma tatuagem", ela disse, às gargalhadas.

Cantando diante da banda, seu alto poderoso e trêmulo nem precisou ser amplificado para ecoar pelo ambiente. No final da canção, os integrantes da banda olharam para ela e Shakira perguntou, num tom de demanda gentil: "Vocês acham que podemos dar um pouquinho mais de pique? Para que cresça? Para que suba mais?"

Shakira tem se responsabilizado pela própria música já há uma década. Ela começou a escrever canções aos 8 anos de idade e assinou um primeiro contrato com gravadora aos 13 anos. Em Bogotá, ela produziu dois álbuns de pop latino que, conforme admite, "não me representam nem um pouco".

Ela também teve rápida participação como atriz numa novela colombiana; sinceramente, não acha que esteve muito bem no papel. Depois disso, com "Pies Descalzos" ("Pés Descalços"), lançado em 1996, Shakira começou a produzir seus discos com os colaboradores de sua própria escolha.

"Sempre tive muita certeza do que queria ouvir", diz a cantora. "Tive que lutar para ser ouvida, e falava: `Não toque aquela melodia nesse momento, toque a outra.' Os caras não gostam que as mulheres lhes digam o que fazer. Isso os faz lembrar das próprias mães, ou algo assim."

E ela acrescenta: "Não quero soar como uma feminista dizendo isso. Mas é verdade, esse é um mundo dos homens."

Shakira já havia se tornado uma estrela pela América Latina no final dos anos noventa. Então ela decidiu aprender inglês bem o bastante para escrever letras, e aí conquistou o resto do mundo com "Laundry Service" (Lavanderia), que vendeu 3 milhões de cópias nos Estados Unidos e cerca de 10 milhões em todo o planeta.

Entre esse álbum e o mais recente, Shakira escreveu 60 canções, algumas em espanhol e algumas em inglês, e depois enxugou para 20, antes de decidir fazer dois álbuns, um em cada idioma. Como sempre, como ela mesmo diz, ela ficou em agonia diante dos detalhes.

"Sou uma perfeccionista em recuperação", diz gargalhando. "Estou tentando lidar com esse monstro dentro de mim que quer que tudo seja feito corretamente. Ou ainda melhor que corretamente."

Ela levou um mês, segundo a própria estimativa, para arrematar "La Tortura", o primeiro single de "Fijacion Oral, Vol. 1", que mistura a cumbia colombiana, o reggaeton de Porto Rico, o dancehall da Jamaica, guitarras roqueiras, blips eletrônicos e também vocais com a participação especial de um grande astro pop da Espanha, Alejandro Sanz.

"Se há um problema, então eu preciso consertá-lo", ela diz, "e é doloroso porque você não sabe exatamente o que consertar, sabe? Os sons de baixo e da bateria, por exemplo --eu os modifiquei muitas vezes. Essa é uma canção que nitidamente precisava ter a produção certa e adequada. Se eu fosse um pouquinho para a esquerda ou um pouquinho para a direita, a canção sofreria, ficaria afetada. E eu lutei com a canção até finalmente dominá-la."

E ela ainda estava trabalhando em "Oral Fixation, Vol. 2" depois que o single desse disco em inglês, "Don't Bother" (Não Ligue), já havia sido lançado. À essa altura já estava sob a pressão do prazo final mas, como ela mesmo diz, "você não pode amadurecer uma fruta jogando pedras nela."

"Fijacion Oral, Vol. 1" voltou a conectar Shakira com seus tradicionais fãs da língua espanhola. "Oral Fixation, Vol. 2" inclui versões em inglês (não exatamente traduções literais) de duas canções do "Vol. 1"; as outras nove canções são novas. Talvez pelo fato de as canções terem sido escritas em inglês e não em espanhol, a música do volume dois se aproxima mais do anglo rock e do pop, com mergulhos no folk-rock, na tradição das baladas poderosas e toques do The Cure.

"Às vezes a melodia sugere em que língua a canção deve ser escrita", diz a cantora. "Acabo de aprender a escutar o que uma canção quer me dizer."

Embora o "Vol. 1" em espanhol traga canções menos convencionais, as canções de rock presentes no "Vol. 2" conservam os toques inconfundíveis de Shakira. Junto com as canções de amor, dessa vez ela olha além do panorama doméstico. A música de abertura, "How Do You Do" (Como Vai você?), começa com preces pelo perdão --recorrentes em árabe, hebraico, latim e inglês-- e depois dispara uma série de perguntas difíceis dirigidas a uma divindade.

E ela termina o álbum em inglês com "East Timor" (Timor Leste), que não é propriamente um hino sincero sobre mais uma região turbulenta no mundo, mas sim uma faixa dançante, ironicamente alegrinha e turbinada por sintetizadores, sobre a maneira como a mídia das futilidades e a cultura pop distraem nossa atenção dos sofrimentos que estão geograficamente distantes: "Está tudo bem, pelo menos temos a meia-verdade/ Ouvir o que nós queremos é o segredo da eterna juventude", ela canta, acrescentando que assim "Eu continuarei a vender discos/ Enquanto você tem a sua MTV."

Ela quase retirou "East Timor" do álbum em inglês. "Por um instante eu pensei que as pessoas não iriam entender essa mensagem", confessa. "Eles irão pensar que estou tentando falar da paz mundial, e tentando encontrar maneiras de resolver problemas que são tão complexos que nem mesmo críticos ou políticos conseguem encontrar as soluções. E aí seria uma garota de Barranquilla que aos 28 anos encontraria as soluções? No final das contas, escrevi essa canção porque veio num impulso."

O ensaio é promissor; em poucos dias, Shakira estará cantando essas canções diante das platéias pela primeira vez. "Somente hoje", segundo a cantora, "eu estou começando a entrar em contato com as músicas do ponto de vista do intérprete. Tipo assim, OK, como é que vou interpretar isso aqui com o meu corpo? Agora como é que eu vou começar a ter uma relação mais física com as minhas canções?"

A banda atacou "Hey You", uma canção insinuante com um balanço meio Liverpool dos anos sessenta. Nela Shakira se oferece a um homem para ser um pouco de tudo, de rainha a cozinheira a escrava: "Gostaria de possuir o zipper nos seus jeans, e mais aquela coisa que lhe faz tão feliz." Enquanto ela canta, primeiro fica parada, depois deixa a música lhe conduzir. Os ombros dela começam a girar, os pés passam a acompanhar o ritmo e logo os quadris começam a balançar.

"Meus quadris me dizem para onde e quando devo me mover", disse ela ao final da entrevista, antes de voltar ao ensaio com a banda. "E os meus quadris não mentem --meus quadris me dizem a verdade." "Eu sempre me senti como uma pessoa muito oral. Essa é a minha maior fonte de prazer", disse a cantora colombiana ao comentar sobre seu novo álbum, "Oral Fixation, Volume 2" Marcelo Godoy

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