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17/11/2005

Arquivos do Vietnã indicam paralelos com Iraque

The New York Times
Thom Shanker e David Stout*

Em Washington
Conselheiros da Casa Branca se reúnem em sessões secretas sobre os riscos políticos da revelação de que soldados americanos cometeram atrocidades na zona de guerra, e sobre se o presidente pode intervir delicadamente na investigação. Diante de uma guerra cada vez mais impopular, eles se perguntam sobre o impacto que terá no apoio doméstico. A melhor forma de sair da guerra, eles concordam, é estabelecer um novo governo que esperam ser capaz de unir o território estrangeiro dividido.

Com uma ressonância óbvia nos eventos de hoje, a Administração Nacional de Arquivos e Registros divulgou nesta quarta-feira (16/11) 50 mil páginas de documentos antes confidenciais do governo Nixon, que revelam como todos os homens do presidente lidaram com questões que apresentam paralelos assustadores com os problemas enfrentados pelo governo Bush.

Há muitas diferenças significativas entre as guerras no Vietnã e no Iraque --um ponto que altos funcionários do governo destacam em qualquer oportunidade. Mas em tom e conteúdo, o debate na era Nixon sobre o impacto da guerra daquela geração --e dos julgamentos de crimes de guerra--, sobre o apoio da população ao esforço militar e às iniciativas domésticas da Casa Branca apresenta muitas semelhanças.

Enquanto o governo Nixon travava uma guerra e tentava impor a paz no Vietnã do Sul, ele se preocupava intensamente em como o massacre de civis vietnamitas por soldados americanos, em My Lai em 1968, prejudicaria o esforço de guerra, tanto em casa quanto na Ásia.

My Lai "poderá ser profundamente embaraçoso para os Estados Unidos" e poderá afetar as negociações de paz em Paris, alertou ao presidente Nixon o secretário de Defesa, Melvin R. Laird. "Domesticamente, fornecerá munição aos ativistas antiguerra", disse Laird.

Documentos mostram como a Casa Branca de Nixon se preocupava com política e percepção, assim como a Casa Branca de Bush tem feito durante a guerra no Iraque, e que temia que os maus-tratos a civis poderiam arruinar sua imagem.

"O tratamento deste caso até o momento tem observado rigidamente o Código da Justiça Militar", escreveu Henry A. Kissinger, o então conselheiro de segurança nacional, em um memorando para um alto assessor de Nixon, H.R. Haldeman. Kissinger disse que a corte marcial do tenente William L. Calley Jr., que foi implicado no massacre e no final condenado, aliviaria as preocupações da imprensa de acobertamento.

Além disso, o presidente Nixon acreditava que imagens poderiam ser mudadas, como escreveu o assessor presidencial John R. Brown 3º para Kissinger. "O noticiário sobre o secretário Laird é uma medida das coisas boas que um antigo linha-dura pode obter fazendo o papel de defensor da paz para a imprensa liberal", escreveu Brown em 14 de janeiro de 1970.

Com tantos estudos acadêmicos, histórias populares e memórias nas estantes de livros --e mais de sete milhões de páginas de documentos de Nixon divulgados desde 1986 pelos Arquivos Nacionais-- historiadores que analisaram os arquivos na quarta-feira disseram estar à procura de agulhas de ouro em um palheiro mais do que explorando um veio antes desconhecido em busca de metais preciosos.

Os novos documentos divulgados incluem informações sobre as avaliações iniciais americanas do programa nuclear de Israel, debates sobre o apoio ao Paquistão durante a guerra com a Índia, em 1971, e a rivalidade de superpotências com Moscou.

Alguns dos documentos do Vietnã contêm detalhes sobre como o governo Nixon tentou escorar o presidente sul-vietnamita, Nguyen Van Thieu, nos bastidores enquanto o retratava publicamente como um líder corajoso, como fez o presidente Johnson.

Em termos que lembram as posições do governo Bush em relação à formação de um novo governo em Bagdá, a Casa Branca de Nixon disse em maio de 1969 que queria estabelecer no Vietnã "procedimentos para escolha política que dêem a cada grupo significativo uma oportunidade real de participar na vida política da nação".

"O que os Estados Unidos querem para o Vietnã do Sul não é o que importa", disse um memorando interno de iniciativa de planejamento da Casa Branca. "O que o Vietnã do Norte quer para o Vietnã do Sul não é o que importa. O que importa é o que a população do Vietnã do Sul quer para si mesma."

Os documentos também ilustram como em 1969, após tanto tempo, os líderes americanos realmente não sabiam muito sobre a psicologia do Vietnã do Norte --assim como sobre os sentimentos no Sul.

Em março de 1969, enquanto as negociações de paz em Paris estavam em andamento, as autoridades americanas se preocupavam em como reagir a um ataque de foguete a Saigon. O secretário de Estado, William P. Rogers, informou por cabograma aos diplomatas americanos sobre a decisão de não retaliar militarmente o Norte.

"Francamente, nós precisaremos fazer leituras constantes e contínuas da temperatura sul-vietnamita", escreveu Rogers, refletindo as preocupações em Washington de que o governo de Saigon poderia suspeitar de que estava sendo vendido.

Àquela altura, o Departamento de Estado sugeriu que o negociador americano Henry Cabot Lodge suavizasse a linguagem na transmissão do descontentamento americano para a delegação de Hanoi.

"Nós preferimos esta linguagem não por ser menos ambígua do que a versão original mas, ao contrário, por ser mais ambígua --e portanto mais flexível-- como nossa resposta", disse um cabograma do Departamento de Estado.

Naquele julho, Thieu se inquietou com a edição feita por Washington de um discurso que faria, recontando todas as concessões que teve que fazer aos comunistas e pedindo novamente por eleições gerais. Uma mensagem telegrafada para Saigon e Paris disse que um assessor de Thieu, ao descrever a irritação de seu chefe, "usou uma frase que, traduzida ao inglês, seria como 'o secretário Rogers deflorou meu discurso'".

O presidente Nixon elogiou o discurso de 11 de julho como sendo uma "proposta eminentemente justa, abrangente, de estadista, para um acordo político no Vietnã do Sul".

Os documentos mostram um debate interno em Washington sobre quais seriam os efeitos da morte de Ho Chi Minh, o líder norte-vietnamita, em setembro de 1969.

Kissinger disse ao presidente que a morte de Ho atingiria a moral do Vietnã do Norte mas provavelmente não reduziria sua determinação. Mas um cabograma do Departamento de Estado para seus diplomatas naquele momento, quando o departamento era chefiado pelo rival de Kissinger, Rogers, tinha um ponto de vista diferente.

"Nós estamos, é claro, incertos sobre as conseqüências da morte de Ho", ele diz em parte. "Nós estamos incapacitados em nossa análise pela escassez de boa inteligência sobre as intenções e política interna norte-vietnamitas."

Jogando para os dois lados

Durante o verão e outono de 1969, um grande esforço foi feito pela Casa Branca de Nixon para intervir em uma investigação militar de um grupo de Forças Especiais do Exército, que foi acusado de matar um suposto agente duplo em Nha Trang.

Em um memorando para Bryce Harlow, um assessor de Nixon, em 26 de setembro de 1969, Kissinger o aconselhou sobre como lidar com as preocupações do Congresso. "O principal ponto que deve destacar", escreveu Kissinger, "é que o presidente está muito preocupado com as implicações de longo prazo deste caso e que está ansioso para se livrar dele de uma forma que cause estragos mínimos em nossa segurança nacional, no prestígio e disciplina de nossas forças armadas e para preservar a liberdade futura de ação na área clandestina".

"Este é claramente um sinal do que virá --e nós certamente seremos atingidos", escreveu Haldeman para Kissinger, pedindo por uma solução discreta. "Há algo que possamos fazer --mesmo a esta altura?"

Em 29 de setembro, o secretário do Exército, Stanley R. Resor, disse que a Agência Central de Inteligência (CIA), "apesar de não envolvida diretamente no suposto incidente", se recusou a permitir o testemunho de seu pessoal.

"É meu julgamento que, sob tais circunstâncias, os réus não podem receber um julgamento justo", disse Resor. Ele ordenou o arquivamento do processo.

O suposto agente duplo, Thai Khac Chuyen, foi empregado pelas Forças Especiais como parte de uma operação de inteligência no Camboja. Após ser mantido em confinamento solitário, ele recebeu o que um dos soldados acusados chamou de "descarte molhado".

A acusação era de que oito soldados tinham drogado Chuyen, atirado nele e o amarrado a rodas antes de jogá-lo na Baía de Nha Trang.

Em outubro de 1969, após os processos terem sido arquivados, o governo pagou à viúva de Chuyen uma "gratificação de pessoa desaparecida" no valor de US$ 6.472.

*Colaborou John Files, com reportagem. Documentos inéditos de 1969 mostram coincidências entre guerras George El Khouri Andolfato

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