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17/11/2005

Nunca jovem demais: educação sexual de bebês

The New York Times
Jodi Kantor

Em Nova York
Em setembro último, Halley Vollmar, de três anos, da cidade de Bellmore, no Estado de Nova York, fazia o seu exame médico anual quando o pediatra fez uma pausa. "Agora vou dar uma olhada na sua pipi", alertou, enquanto abaixava a calcinha da menina. Mas Halley reclamou. "Mamãe, por que ele chama a minha vagina de pipi?", ralhou, dizendo ao pediatra atônito que ele era "um médico bobo", antes de permitir que este prosseguisse com o exame.

Phil Marino/The New York Times 
Mães levam filhos para reunião de grupo de educação sexual infantil em Nova York
Na semana passada, Kristin Hansen, a mãe de Halley, contou a história para várias outras mulheres, entre risos. A reunião se deu em Wantagh, em Nova York. Durante o verão, as mães se reuniram semanalmente para receber aulas sobre como educar os seus bebês sobre sexo, um programa que elas acharam tão necessário que já estão planejando novas reuniões para o ano que vem.

Halley pode ser surpreendentemente articulada ao falar das suas partes íntimas, mas ela está em excelente companhia. Assim como vários outros pais e educadores, as mães que conversam em meio a goles de limonada e café, na casa cheia de brinquedos de Susan Varoukian, afirmam que a educação sexual --que costumava ser uma parte obrigatória e estranha dos anos de adolescência-- deve ter início cedo.

E quando dizem cedo, estão falando para valer: preferivelmente a partir do nascimento, ou, ao mais tardar, quando a criança começa a aprender a usar o vaso sanitário. "Os pais não podem mais se dar ao luxo de silenciar", diz Nanette Ecker, educadora sexual da representação da organização Paternidade e Maternidade Planejadas no condado de Nassau. Ela é a líder do grupo.

Para a maioria dos adultos, a hora em que passa a saber da existência coito se constitui em um momento distinto de revelação. Um instante de surpresa no pátio da escola ou na sala de estar, quando a misteriosa conexão entre as partes do corpo e os bebês surge, subitamente, com uma clareza chocante. Mas, agora, crianças que são, elas próprias, praticamente bebês, estão aprendendo como os bebês são feitos.

Segundo essa abordagem, os bebês devem aprender palavras como "vulva" ao mesmo tempo em que aprendem a falar "orelha" e "dedo". Mitos aparentemente benignos sobre cegonhas e sementinhas se constituiriam em perigosa desinformação. E qualquer criança capaz de indagar como foi feita já teria idade suficiente para receber uma resposta verdadeira.

"Os especialistas costumam dizer às pessoas que existe uma 'idade certa' para que se saiba da existência do ato sexual", explica Justin Richardson, professor de psiquiatria das escolas de medicina das universidades Cornell e Columbia, e autor de "Everything You Never Wanted Your Kids to Know About Sex But Were Afraid They'd Ask" ("Tudo o que Você Nunca Quis que os Seus Filhos Soubessem Sobre Sexo Mas Tinha Medo que Eles Perguntassem"), uma dentre várias publicações que defendem a educação sexual bastante precoce.

"Se estamos falando a respeito de como os bebês são feitos, não existe uma idade na qual é perigoso que se aprenda que o pênis penetra a vagina", afirma Richardson. "Sim, é verdade que a exposição de uma criança ao estímulo sexual é algo arriscado. Mas explicar a uma criança como os bebês são feitos é muito diferente".

Os defensores da educação sexual ultraprecoce dizem que o ambiente cultural típico ficou tão degradado que a educação sexual se transformou em uma corrida: os pais têm que chegar às crianças antes que outras forças o façam --dos mal-informados confidentes de playground às modelos de aparência adolescente.

"Precisamos chegar primeiro", afirma Deborah M. Roffman, educadora sexual e autora do livro "But How'd I Get in There in the First Place? Talking to Your Young Child About Sex" ("Mas Como Eu Chegaria Lá Primeiro? Falando com o Seu Filho Pequeno Sobre Sexo").

Caso contrário, advertem esses defensores da nova pedagogia, as crianças coletarão as suas impressões em qualquer lugar: nas piadas da televisão, nas propagandas na Internet de pílulas para o crescimento do pênis, ou até mesmo nos sites de sexo explícito.

Quando o filho do reverendo Debra Haffner digitou os termos "Katrina" e "imagens", em inglês, no Google, ao fazer uma pesquisa para um trabalho escolar, ele acabou vendo imagens que nada tinham a ver com o furacão, conta Haffner, um pastor da Igreja Universalista Unitária, e autor do livro "From Diapers to Dating" ("Das Fraldas ao Namoro").

"Quando os pais me dizem que o filho é muito novo, e que querem mantê-lo inocente pelo maior tempo possível, eu lhes pergunto se eles levam a criança para fazer compras no supermercado", diz Haffner, referindo-se às fotografias de teor pornográfico exibidas nas revistas expostas ao lado das caixas registradoras.

A educação sexual para bebês se constitui em um movimento pequeno e difícil de ser mensurado, mas é uma tendência em ascensão, e que conta com defensores como Roffman, Haffner e Richardson, que escrevem livros e organizam seminários para pais, professores de pré-escola e profissionais de creches. Vários escritórios da organização Paternidade e Maternidade Planejadas oferecem seminários sobre o tópico, assim como o fazem algumas igrejas cristãs evangélicas.

"A abordagem clássica nos círculos religiosos tem sido: 'proteja a inocência das crianças o maior tempo possível, até que elas façam 13 anos, e, a seguir, chamem-nas, finalmente para terem 'A Conversa''", explica Stanton L. Jones, professor de psicologia e reitor da Faculdade Wheaton, em Illinois.

Stanton e a sua mulher, Brenna Jones, escreveram "The Story of Me" ("A História de Mim"), um livro de educação sexual para crianças de três a cinco anos (o livro enfatiza a contribuição de Deus e os papéis tradicionais dos sexos, e diz menos sobre o intercurso sexual do que vários dos seus equivalentes seculares).

Jones diz que, ultimamente, ele e a mulher "encontraram muita aceitação" para com a educação sexual precoce. Os pastores falam sobre essa abordagem em conferências sobre vida familiar, e o livro é vendido pelo grupo conservador evangélico Foco na Família.

Robie H. Harris, uma autora famosa de livros de educação sexual para crianças, começou a abordar esse tópico em 1994, com o livro "It's Perfectly Normal" ("É Perfeitamente Normal"), para pré-adolescentes (foram impressas mais de 400 mil cópias do livro nos Estados Unidos, e mais de um milhão em todo o mundo). Desde então ela se viu falando para audiências cada vez mais jovens: primeiro com o livro "It's So Amazing" ("É Tão Impressionante"), voltado para crianças a partir de sete anos de idade, e agora com "It's Not the Stork" ("Não é a Cegonha"), lançado no último verão, e feito para crianças de no mínimo quatro anos.

Em 2008 ela deverá publicar um livro dirigido a bebês de dois anos e meio. Segundo ela, o seu percurso demográfico descendente em termos de faixa etária é simplesmente uma resposta à demanda dos pais. "Em todos os lugares nos quais falava, ouvia os pais dizendo que não sabiam como abordar esse assunto", conta Harris.

De maneira geral, a educação sexual precoce gerou pouca resistência organizada. Embora o livro de Harris, "It's Perfectly Normal", apareça com freqüência na lista anual da Associação Americana de Bibliotecas dos livros mais freqüentemente contestados --os críticos fazem objeções às suas referências à homossexualidade, à contracepção e à masturbação--, o seu trabalho para crianças pequenas atraiu menos atenção.

Talvez isso se deva ao fato de a educação sexual precoce ser uma questão de escolha dos pais. Ou o motivo pode ser a natureza do material, que tende a se concentrar em questões básicas de biologia e segurança.

Em vez disso, a resistência vem de pais incapazes de se imaginarem dando início a uma conversa sobre sexo com crianças que ainda não sabem ler ou andar de bicicleta, e que ainda não manifestaram qualquer curiosidade sobre o assunto. Rachel Wolman, de Chevy Chase, Maryland, diz: "Eu jamais me sentaria com a minha filha de três anos para uma conversa desse tipo. Acredito que as crianças fiquem bastante espertas ao fazer cinco anos, mas, mesmo naquele estágio, não me sinto preparada para conversar sobre isso".

Jaymi Offir, uma mãe de Caldwell, Nova Jersey, diz que falar sobre o assunto com a filha, Zoe, que tem quase quatro anos, "só a deixaria confusa".

"A defesa da educação sexual seria algo mais apropriado em se tratando de crianças de nove ou dez anos", conclui Offir.

Mas, ainda que os pais de crianças em idade pré-escolar não estejam preparados para falar sobre o intercurso sexual, especialistas em educação sexual de crianças dessa idade pedem aos pais que abandonem a lista de nomes infantis para designar as partes íntimas: o insultante "weenie" para os garotos, o nebuloso "ali em baixo" para as meninas, e assim por diante (um estudo publicado em 1997 no periódico "Gender and Psychoanalysis" revelou que as meninas aprendem menos nomes do que os meninos para designar os seus órgãos genitais, e que, embora as meninas aprendam os nomes para o órgão genital masculino, o inverso geralmente não acontece).

"Quando mostramos às crianças os seus olhos e nariz, não dizemos 'pisque, pisque' ou 'assoe, assoe'", diz Ecker, da Paternidade e Maternidade Planejadas.

Em vez disso, alguns bebês estão aprendendo termos de uma precisão biológica surpreendente, que tendem a deixar até os adultos confusos. "It's Not the Stork" traz um desenho dos vas deferens (os tubos que conduzem os espermatozóides). Vários educadores enfatizam a diferença entre a vagina (o canal que conecta o útero à parte externa do corpo) e a vulva (um termo genérico para todos os órgãos genitais externos femininos).

Os especialistas em educação sexual precoce também alertam os pais para que nunca --não importa o quão mortificante seja a pergunta-- mintam para os filhos. E que tampouco lhes digam meias-verdades aparentemente benignas. E que sequer os distraiam. "As crianças têm o direito a essas informações", afirma Harris. "Se nós as ignorarmos, os mitos e os medos começarão a aparecer".

Eles concordam que a solução é fornecer respostas corretas, mas simples. Os pais têm a tendência de falar mais do que o necessário: por exemplo, respondendo a uma pergunta sobre mamilos com uma história confusa e truncada sobre prazer sexual.

"Se uma criança segurar um absorvente íntimo e perguntar o que é aquilo, a melhor resposta é dizer a verdade", diz Bill Taverner, diretor de educação da Paternidade e Maternidade Planejadas da área norte do Estado de Nova Jersey. "Fornecer um nome para o objeto é às vezes suficiente".

A abordagem da educação precoce exagerou as já amplas disparidades relativas àquilo que várias crianças já sabem. Algumas chegam à escola tão familiarizadas com o assunto que deixam os professores constrangidos (embora algumas escolas primárias públicas ensinem educação sexual, especialmente no que se refere à consciência para o perigo representado pelo HIV, esses casos são ainda isolados, variando muito de Estado para Estado, ou de município para município).

Vejamos, por exemplo, o caso de Rob, filho de Taverner, cujo professor da primeira série se recusou a pendurar no painel de atividades um desenho no qual a criança escreveu: "Sexo é quando duas pessoas casadas juntam óvulo e espermatozóide".

Até mesmo os pais que adotaram esse tipo de franqueza parecem um pouco assustados com episódios dessa natureza. Em Wantagh, Diana Lee se diz admirada com a diferença entre a riqueza da educação sexual recebida pela sua filha, Alexandra, e aquela que ela recebeu quando criança.

"Me surpreendi por ter que falar tanta coisa a ela, que tem apenas três anos", diz Lee. "Eu ainda estou esperando pela 'Conversa'", acrescentou, referindo-se ao silêncio dos seus pais sobre o assunto.

"Agora o horário do jantar ficou divertido", diz Vartoukian, apontando para os seus dois filhos pequenos. "Temos 'A Conversa' todas as noites". "Qualquer criança capaz de indagar como ela mesma foi feita já teria idade suficiente para receber uma resposta verdadeira" Danilo Fonseca

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