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17/11/2005

Repórter admite participação no escândalo da CIA

The New York Times
Maria Newman

Em Nova York
Bob Woodward, editor-assistente do jornal "The Washington Post", pediu desculpas nesta quarta-feira (16/11) ao editor-executivo do jornal por esperar dois anos para dizer-lhe que já sabia em 2003 a identidade da agente da CIA Valerie Wilson por intermédio de um alto membro do governo Bush.

Na edição desta quarta, o "Post" informou que Woodward prestou testemunho sob juramento na segunda-feira. Ele falou de sua conversa em meados de junho de 2003 com um alto membro do governo sobre Valerie e seu cargo na agência, quase um mês antes de sua identidade ser revelada. Com isso, Woodward passa a ser o primeiro repórter a ter conhecido a identidade da agente por meio de uma alta autoridade.

Woodward ficou famoso quando denunciou o arrombamento do Watergate, que ajudou a derrubar o presidente Nixon, e escreveu vários livros sobre a intimidade do poder em Washington.

O artigo do Post também disse que Woodward esperou até o mês passado para contar a seus supervisores sobre as conversas, apesar de a investigação sobre o assunto estar consumindo Washington há meses.

A revelação de Woodward acrescentou um novo elemento --potencialmente complicador-- a um caso cuja fase investigativa parecia estar terminando.

No final do mês passado, o promotor especial anunciou o indiciamento de I. Lewis Libby Jr., ex-chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney. Libby foi indiciado por perjúrio, obstrução da justiça e falsas declarações ao FBI. Os promotores disseram que ele enganou o grande júri e os investigadores em relação as suas conversas com os jornalistas sobre Valerie Wilson, que também é conhecida pelo nome de solteira de Valerie Plame.

O testemunho de Woodward acrescentou uma nova evidência a ser considerada por Fitzgerald e aparentemente mudou a cronologia das discussões entre repórteres e membros do governo.

O "Post" e Woodward não identificaram a alta autoridade. Eles disseram que a autoridade liberou Woodward para testemunhar aos promotores, mas não para discutir suas conversas publicamente.

Em seu pedido de desculpas, que apareceu em um artigo na edição online do "Post" na tarde de quarta-feira, Woodward disse que falou a Leonard Downie Jr., editor-executivo, que tinha omitido a informação porque estava com medo de ser intimado pelo promotor especial, Patrick J. Fitzgerald.

"Pedi desculpas porque devia ter contado há muito tempo", disse Woodward em entrevista com Howard Kurtz, do "Post". "Expliquei detalhadamente que eu estava tentando proteger minhas fontes. Esse é a prioridade em um caso como esse... Eu me escondi. Tenho o hábito de manter segredo. Não queria divulgar nada que me levasse a ser intimado."

Downie, em entrevista com Kurtz, disse que Woodward tinha "cometido um erro".

Ele disse que apesar de suas preocupações com as fontes confidenciais, Woodward "devia ter falado, o que ele agora admite". E completou: "Deveríamos ter tido essa conversa... estou preocupado com o que as pessoas vão pensar do valor de Bob para este jornal por causa deste episódio único", disse Downie.

No dia 27 de outubro, uma noite antes dos indiciamentos, Woodward falou sobre o caso no programa de televisão "Larry King Live": "Há profundo mistério, que vai crescendo com o tempo. As pessoas estão especulando e de fato sabem muito pouco."

Segundo disse a Larry King, Downie tinha escutado rumores que seu repórter ia anunciar um grande desdobramento sobre o caso. Seu supervisor teria dito: "Ouvi dizer que você tem uma bomba: você vai me contar?" "Eu disse que sentia ter que desapontá-lo, mas não", disse Woodward.

No indiciamento de Libby, os promotores citam uma conversa de 23 de junho de 2003, com Judith Miller, do The New York Times, em que Libby contou à repórter que a mulher de Joseph Wilson trabalhava na CIA. Fitzgerald, em conferência com a imprensa no dia 28 de outubro, disse que "Libby foi a primeira autoridade conhecida a vazar a um repórter quando falou com Judith Miller em junho de 2003 sobre Valerie Wilson."

Woodward disse que sua conversa com o membro do governo foi em meados de junho --sem especificar a data exata-- aparentemente antes da conversa de Libby com Miller.

Valerie Wilson é esposa de Joseph Wilson, ex-embaixador que se tornou crítico aberto do governo Bush pelo uso de dados de inteligência sobre as armas do Iraque. Ele tinha sido enviado ao Níger para investigar pistas de que o Iraque tinha tentado comprar urânio no país.

Em declaração no "Post" de quarta-feira, Woodward disse que contou ao promotor especial sobre as entrevistas confidenciais que teve com três autoridades "relacionadas à investigação da revelação pública da identidade secreta da agente da CIA Valerie Plame".

Ele disse que a primeira entrevista foi em meados de junho, quando um alto membro do governo disse a ele "que a mulher de Wilson trabalhava para a CIA como analista de armas de destruição em massa".

No artigo de Kurtz, Woodward disse que uma de suas fontes, o chefe de gabinete da Casa Branca, Andrew H. Card Jr., permitiu que revelasse que sua conversa do dia 29 de junho de 2003 não envolvera Valerie Plame.

Segundo a declaração no "Post", a terceira entrevista sobre a qual Woodward prestou testemunho foi uma conversa por telefone com Libby, no dia 23 de junho de 2003. "Disse ao promotor que não me lembro se falamos de Wilson ou de sua mulher e não tenho notas sobre a conversa", disse ele.

Quanto ao primeiro encontro, em meados de junho, no qual ficou sabendo da afiliação da mulher de Wilson à CIA, a fonte da conversa não concordou em ser publicamente identificada, disse ele.

A primeira página do "Post" também disse que Woodward passou mais de duas horas depondo sobre o caso na segunda-feira. O artigo disse que o promotor soube da entrevista de Woodward pela fonte, no dia 3 de novembro.

Woodward disse ao promotor que a autoridade tinha falado casualmente sobre Valerie e que ele não entendera que a informação era delicada ou confidencial.

A investigação, que gerou uma crise política na Casa Branca, chamou atenção para a forma como as autoridades lidam com seus críticos e também para seu relacionamento com os repórteres que conversam com elas freqüentemente.

A questão teve origem no dia 6 de julho de 2003, em um editorial no NYT em que Wilson afirmou que a Casa Branca "distorceu" os dados de inteligência sobre a procura de material atômico pelo Iraque.

Pouco tempo depois, uma coluna de Robert D. Novak revelou que "Valerie Plame é agente de armas de destruição em massa da CIA", gerando uma investigação se membros do governo haviam delatado sua identidade.

Fitzgerald passou a investigar se alguém tinha violado a lei revelando seu nome. Para isso entrevistou vários jornalistas, inclusive Tim Russert da NBC News, Matt Cooper da revista "Time" e Miller, que passou 85 dias presa no verão por recusar-se a revelar sua fonte ao promotor. Depois disso, a repórter saiu do NYT.

A revelação de Woodward também chama atenção para seu relacionamento único com o "Post". Como editor, ele ainda escreve reportagens ocasionais, mas passa grande parte de seu tempo pesquisando sobre a política de Washington, freqüentemente oferecendo às fontes confidencialidade ou concordando em não usar suas informações imediatamente.

Nos últimos meses, Woodward apareceu em vários programas de rádio e televisão para discutir o caso.

Na entrevista do "Larry King Live", Woodward disse: "Não vejo nenhum crime."

Ele disse que não acreditava que as conversas entre as autoridades e os repórteres sobre Valerie faziam parte de "uma campanha de difamação".

"Acho que vamos descobrir que isso começou como uma fofoca, quando alguém descobriu que a mulher de Joe Wilson tinha trabalhado na CIA e ajudou-o a conseguir o trabalho de Níger, para averiguar se havia um acordo de urânio com o Iraque", disse ele. "Há muitas ações inocentes nisso tudo." BOB Woodward, do caso Watergate, diz ter sido informado em 2003 da identidade da agente Valerie Wilson por autoridade do governo Deborah Weinberg

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