UOL Notícias Internacional
 

18/11/2005

Deputado militar exige retirada imediata do Iraque

The New York Times
David Stout

Em Washington
Na quinta-feira (17/11), um influente deputado federal democrata chamou a campanha militar dos Estados Unidos no Iraque de "uma política defeituosa embrulhada em ilusão" e pediu a retirada imediata das tropas norte-americanas, intensificando um já acirrado debate no Congresso.

"Este é o momento para uma mudança de direção", afirmou o deputado John Murtha, dae Pensilvânia, integrante do subcomitê de defesa do Comitê de Verbas da Câmara dos Deputados. "As nossas forças armadas estão sofrendo, e o futuro do nosso país está em risco".

Murtha, um conservador que votou em 2002 a favor da resolução autorizando o uso da força no Iraque, e que apoiou a Guerra do Golfo Pérsico em 1991, pediu "o reordenamento imediato das tropas norte-americanas".

"Está evidente que a ação militar continuada no Iraque não atende aos melhores interesses dos Estados Unidos da América, do povo iraquiano ou da região do Golfo Pérsico", disse Murtha durante uma exaltada entrevista coletiva à imprensa, em Capitol Hill (o prédio do Congresso, em Washington). Os deputados republicanos não perderam tempo em criticar as observações de Murtha, chamando-as de derrotistas e equivocadas.

Murtha, um ex-fuzileiro naval que combateu na Guerra do Vietnã, atacou o vice-presidente Dick Cheney, que em um discurso para um grupo conservador, na última quarta-feira, condenou os críticos da guerra no Iraque. "O presidente e eu não podemos impedir que certos políticos percam a memória ou a determinação, mas não ficaremos sentados esperando que eles reescrevam a história", atacou Cheney, ao falar ao grupo Frontiers of Freedom (Fronteiras da Liberdade), em Washington.

Murtha desdenhou os comentários do vice-presidente, afirmando que "pessoas que se esquivaram cinco vezes do combate" não têm o direito de fazer tais observações. Cheney, assim como milhões de outros jovens da sua era, evitaram o serviço militar durante a Guerra do Vietnã.

O pedido de uma retirada militar feito por Murtha foi condenado por alguns deputados republicanos.

"Estamos em meio ao processo de criação de um Iraque livre", argumentou o deputado Duncan Hunter, da Califórnia, e presidente do Comitê da Câmara para as Forças Armadas. Ele disse que a criação de um novo Iraque tornaria o Oriente Médio e o mundo mais seguros.

Segundo Hunter, essa realização teria um peso histórico comparável à reconstrução da Europa depois da 2ª Guerra Mundial. Quanto aos comentários relativos a uma retirada, Hunter disse: "Muitos dos nossos inimigos acham que os Estados Unidos só são capazes de travar uma guerra de duas semanas".

A deputada Kay Granger, do Texas, integrante republicana do subcomitê de defesa, e que estava junto a Hunter, disse que uma retirada rápida do Iraque seria uma traição à confiança das tropas norte-americanas. Quanto aos norte-americanos mortos no Iraque, ela afirmou: "Uma retirada significaria que as suas vidas foram perdidas em vão". Horas antes, Granger classificara as observações de Murtha de "condenáveis e irresponsáveis", segundo a agência de notícias "The Associated Press".

"Isso vem demonstrar que o Partido Democrata escolheu uma política de retração e derrotismo, que só encorajará os terroristas e ameaçará a estabilidade do Iraque", disse ela, segundo "The Associated Press".

O comportamento e a história pessoal de Murtha, assim como o seu status no Comitê de Verbas, podem conferir um peso extra às suas palavras. Ele geralmente despreza a publicidade, e não fala com freqüência no plenário da Câmara.

Após servir no Corpo de Fuzileiros Navais no início da década de 1950, ele se realistou em 1966, aos 34 anos, e serviu no Vietnã, sendo condecorado com uma Estrela de Bronze, dois Corações Púrpuras e a Cruz Vietnamita de Bravura, segundo o Almanaque de Política Americana. Quando foi eleito pela primeira vez para a Câmara, em uma eleição especial em fevereiro de 1974, Murtha se tornou o primeiro veterano do Vietnã a ingressar no Congresso.

O discurso de Cheney ocorreu um dia após o Senado ter aprovado por maioria absoluta uma resolução solicitando à administração Bush que apresente relatórios regulares sobre a progressão da guerra, e que faça de 2006 um "ano de transição", no qual os iraquianos assumirão a responsabilidade pela segurança do seu próprio país.

As declarações do vice-presidente, afirmando que alguns políticos desejam reescrever a história, foram dirigidas àqueles que em 2002 votaram a favor da autorização do uso da força contra Saddam Hussein, mas que recentemente se tornaram críticos da campanha do Iraque, acusando o governo Bush de manipular informações de inteligência no período que antecedeu a guerra, e de exagerar a ameaça representada pelo antigo regime de Bagdá.

O senador Harry Reid, de Nevada, o líder democrata, disse que o discurso feito por Cheney na quarta-feira, assim como as recentes declarações de Bush sobre o Iraque, revelam que eles "decidiram fazer jogos políticos de forma desavergonhada".

"Estamos em guerra", disse Reid. "Precisamos de um comandante-em-chefe, e não de um político em campanha".

Um outro democrata, o senador Russel D. Feingold, de Wisconsin, elogiou Murtha, "por ter a coragem de fazer frente às ultrajantes tentativas do governo de intimidar e silenciar aqueles que tentam consertar a nossa política para o Iraque". Feingold sugeriu que o dia 31 de dezembro de 2006 se torne o prazo para a retirada das tropas norte-americanas do Iraque.

Na sua entrevista coletiva à imprensa em Capitol Hill, Murtha se emocionou ao falar das visitas que fez aos soldados feridos no hospital. "O que os desmoraliza é ir à guerra sem tropas e equipamentos suficientes para fazer a transição para a paz", afirmou.

"As nossas tropas se transformaram no alvo primário da insurgência", disse Murtha. "Os insurgentes estão unidos contra as forças dos Estados Unidos, e se transformaram em um catalisador da violência". Ele prosseguiu, dizendo que, antes das eleições no Iraque, em dezembro, a população e o governo emergente daquele país "precisam ser avisados de que os Estados Unidos vão se retirar imediatamente".

"O Iraque inteiro tem que saber que está livre", frisou. "Livre da ocupação norte-americana". Democrata John Murtha é marine condecorado na Guerra do Vietnã Danilo Fonseca

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