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18/11/2005

Pesquisadores encontram o "gene da coragem"

The New York Times
Benedict Carey

Em Nova York
Uma equipe de cientistas que desenvolve atualmente pesquisas com camundongos descobriu que, ao remover um simples gene, é possível transformar esses animais normalmente prudentes, deixando-os ousados e corajosos. Nesta experiência, os camundongos se tornaram mais dispostos a explorar territórios desconhecidos e menos intimidados por eventos e ruídos que eles haviam aprendido serem perigosos.

A descoberta surpreendente, que está sendo publicada nesta sexta-feira (18/11) pelo jornal "Cell", abre novas perspectivas para as pesquisas que visam a apurar como funciona o medo no cérebro, explicaram os especialistas.

Enquanto a terapia genética visando a criar guerreiros temerários e intrépidos tem todas as chances de permanecer do domínio dos roteiristas de cinema, essas novas descobertas podem ajudar os pesquisadores a desenvolver novas drogas diferenciadas que permitiriam tratar um vasto conjunto de doenças e de disfunções, desde as crises de ansiedade paralisantes que ocorrem em diversas situações sociais até as ausências repentinas de memória causadas por traumatismos, que podem persistir em conseqüência de um desastre, de um ataque ou da vivência de situações de horror durante um combate.

Segundo os especialistas, esta descoberta pode se revelar efetivamente aplicável aos seres humanos porque o sistema do cérebro que desperta o medo é similar em todos os mamíferos. Além disso, a mudança genética que foi induzida não pareceu afetar o desenvolvimento dos animais em outros planos.

"As aplicações potenciais no campo clínico poderiam ser realmente importantes", principalmente para tratar pessoas que sofrem de "desordens mentais relacionadas com o medo", disse Gleb Shumyatsky, um professor-assistente do departamento de genética de Rutgers (Universidade do Estado de Nova Jersey), que dirigiu a equipe que realizou esta experiência, composta por pesquisadores das universidades de Columbia e Harvard, do Instituto Médico Howard Hughes e da Faculdade de Medicina Albert Einstein.

Alguns cientistas especialistas do cérebro que não estiveram envolvidos nesta pesquisa disseram que a descoberta realizada por esses pesquisadores era inesperada.

"No meu modo de ver, existem três tipos de pesquisas no campo da ciência: há aquela que faz uma teoria evoluir, aquela que acaba com uma teoria e uma outra que abre todo um conjunto de novas perspectivas", comenta o Dr. Thomas Insel, diretor do Instituto Nacional para a Saúde Mental, uma entidade que ajudou a financiar a pesquisa.

"No caso, este último estudo abre um novo capítulo, uma vez que ele apresenta um candidato molecular totalmente novo para o estudo da ansiedade, e nós ainda vamos ver esta questão ser abordada até a exaustão nos próximos dez anos", diz.

Os pesquisadores descobriram o gene ligado ao medo ao analisar tecidos do cérebro, em particular a minúscula região em forma de ameixa chamada de amygdala, que pesquisas anteriores haviam mostrado ser especialmente ativa quando animais e humanos estão assustados ou ansiosos. Eles descobriram que uma proteína chamada stathmin (ainda sem tradução em português), produzida pelo gene stathmin, é encontrada em doses altamente concentradas na amygdala, mas que ela é muito difícil de ser detectada em qualquer outra região do cérebro.

Por meio de procedimentos de engenharia genética, os cientistas removeram o gene do camundongo e produziram uma linhagem deste animal, da qual todos eram desprovidos deste mesmo gene. Esses animais se desenvolveram e se tornaram adultos normais, até onde os pesquisadores puderam verificar, e mostraram ter a mesma capacidade de aprendizagem em testes padrões do que um grupo de camundongos normais.

Numa dessas experiências, eles aprenderam que poderiam receber um pequeno choque elétrico nas suas patas depois de ouvirem um determinado ruído muito forte.

"Eles pareciam normais", conta Shumyatsky. "Eles não eram estúpidos. Eles fugiam caso você tentasse apanhá-los".

Mas quando eles foram submetidos ao mesmo ruído forte 24 horas depois, os camundongos modificados por engenharia genética ficaram paralisados, sem se mover do lugar --sendo este um teste padrão para medir o medo adquirido-- só que numa proporção de 60% apenas em relação ao medo demonstrado pelos animais pertencentes ao grupo de controle.

Além disso, quando foram deixados a sós numa superfície branca que lhes era desconhecida, os camundongos modificados ficaram explorando este novo território cerca do dobro do tempo em relação aos camundongos normais. Este teste do "campo aberto" é um procedimento padrão visando a medir a prudência inata.

Para se assegurar de que era mesmo a modificação genética e não alguma outra característica que poderia explicar essas diferenças de comportamento, os pesquisadores testaram a sensibilidade auditiva e a sensibilidade à dor nos camundongos modificados. Ambas se revelaram normais.

No seu artigo, os autores sugerem que a stathmin, a proteína que foi removida dos camundongos modificados, pode ajudar as células do cérebro a formarem novas recordações na amygdala, onde os medos inconscientes parecem estar armazenados (as recordações conscientes estão armazenadas em outras regiões do cérebro).

Em teoria, uma droga que inibisse a atividade da stathmin poderia prevenir ou reduzir aquele processo. Em contrapartida, isso poderia reduzir o impacto de experiências traumáticas em pessoas que são vulneráveis por serem incapazes de manter na memória essas experiências.

O fato de reduzir a atividade da stathmin na amygdala poderia também fazer com que pessoas consigam superar ansiedades inatas ou adquiridas. O professor Shumyatsky acrescenta que os médicos já dispõem de uma droga que age sobre as mesmas moléculas do cérebro, da mesma forma que a stathmin; esta tem por nome Taxol, uma droga contra o câncer. O Taxol, contudo, age sobre o cérebro como um todo, e não exclusivamente sobre a amygdala, a qual, segundo sugere a pesquisa, é o melhor alvo a ser estudado.

"Seria muito interessante estudar questões como esta, mas ainda é muito cedo", diz Shumyatsky. "Esta pesquisa foi apenas uma primeira etapa".

Ainda assim, é uma etapa que poderia conduzir as pesquisas sobre o medo a ampliarem seus rumos de atuação.

Numa mensagem por e-mail, Joseph LeDoux, um neurologista da Universidade de Nova York escreveu: "Embora ainda haja um longo caminho por ser trilhado, é bem possível que no futuro nós sejamos capazes de identificar genes específicos da amygdala que possam ser utilizados para agir de determinadas maneiras num terapia com drogas específicas para a amygdala. Pesquisas como esta são exatamente aquelas das quais nós precisamos para alcançar este ponto". Descoberta abre novas perspectivas para pesquisas sobre o medo Jean-Yves de Neufville

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