UOL Notícias Internacional
 

19/11/2005

Bush e Putin decidem fazer pressão sobre o Irã

The New York Times
William J. Broad, em Nova York, e

David E. Sanger, em Pusan, Coréia do Sul
Apresentando uma frente unida contra o Irã, o presidente norte-americano George W. Bush e o da Rússia, Vladimir V. Putin, concordaram com a proposta de pressionar o Irã a voltar atrás e aceitar o acordo que permite que enriqueça urânio, mas apenas na Rússia e sob controles rígidos.

O plano permitiria ao Irã enriquecer urânio, mas apenas até os níveis adequados para uso em reatores nucleares, usando tecnologia russa. "Nós esperamos que com o tempo o Irã veja a virtude desta abordagem, que pode fornecer uma saída", disse o conselheiro de segurança nacional de Bush, Stephen Hadley, aos repórteres em Pusan na sexta-feira (18/11), depois do encontro dos dois líderes.

Separadamente, a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) apresentou um novo relatório sobre o Irã para seu conselho na sexta-feira, mostrando que o país recebeu informação em 1987 que pode tê-lo ajudado a moldar o urânio nas formas precisas necessárias para a construção do núcleo de uma bomba atômica.

Os desenhos de engenharia foram oferecidos por Abdul Qadeer Khan, um paquistanês que chefiou aquele que já foi o maior mercado negro nuclear de mundo, mas o Irã disse que nunca buscou a informação, nem aceitou a oferta. O país já reconheceu anteriormente ter comprado centrífugas da rede de Khan, mas disse que as usou para enriquecer urânio para reatores de energia comerciais, não para bombas atômicas.

Apesar do relatório não ter feito referência a armamentos, ele indica que a rede de Khan ofereceu ajuda ao Irã para moldar o urânio metálico em "formas hemisféricas", que os especialistas em armas disseram sugerir a fabricação de núcleos de bombas.

O relatório não citou as informações supostamente vindas do que as autoridades americanas alegam ser um computador laptop iraniano roubado. As autoridades disseram em briefings recentes aos aliados que a informação no computador indica trabalho para o desenvolvimento de uma arma atômica.

O relatório notou uma maior cooperação por parte do Irã desde que o conselho da Aiea (Agência Internacional de Energia Atômica) votou em setembro que o Irã tinha retido dados importantes, ameaçando encaminhar o país para o Conselho de Segurança da ONU para possíveis sanções. Mas isto exigiria outra votação, a qual Rússia e China eram contra.

Até poucos dias atrás, os Estados Unidos pareciam prestes a pressionar pela votação da questão, quando o conselho da Aiea se reunisse no final da próxima semana. Mas nos últimos dias, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, que participou do encontro de Bush com Putin, sinalizou que ela poderia adiar tal votação novamente, talvez na esperança de obter mais votos.

"Os russos estão ficando muito, muito frustrados com a recusa dos iranianos em buscar um meio-termo", disse um alto funcionário americano. Uma importante delegação russa que foi a Teerã, na semana passada, não conseguiu persuadir os iranianos a considerarem abrir mão do enriquecimento de urânio em seu próprio solo, disseram funcionários americanos.

O encontro de Bush com Putin aqui, à margem do encontro de cúpula econômico asiático anual, visava em parte pôr fim às diferenças entre Washington e Moscou sobre como lidar com o Irã.

Mas os dois presidentes também discutiram petróleo, o programa nuclear da Coréia do Norte e a crescente preocupação americana de que Putin está revertendo os avanços democráticos conquistados pela Rússia na última década.

Mais recentemente, o governo Bush tem pressionado Putin sobre uma nova legislação apresentada pelo partido do presidente russo à Duma, a Câmara Baixa do Parlamento, na semana passada. A legislação impediria organizações não-governamentais estrangeiras de abrir escritórios na Rússia e impediria organizações russas envolvidas em atividades políticas de obterem dinheiro de fora do país.

As autoridades russas parecem particularmente preocupadas com os grupos de direitos humanos que se concentram na Tchetchênia e com os grupos que temem poder financiar uma oposição política.

Hadley disse que a lei proposta "foi tema de discussão hoje", mas chamou a conversa de confidencial e disse que será melhor conduzida "fora dos olhares públicos".

Segundo o plano nuclear proposto pela Rússia e endossado pela Grã-Bretanha, França e Alemanha --que estão liderando as negociações com o Irã-- Teerã seria autorizada a continuar convertendo urânio bruto em uma forma gasosa, chamada hexafluoreto de urânio. Tal gás pode ser enriquecido se processado em centrífugas de alta velocidade, que correspondem a grande parte da tecnologia que a rede de Khan vendeu ao Irã em 1987 e em negócios retomados em 1994.

Segundo o novo plano, o Irã não mais poderia enriquecer urânio em seu solo. O governo iraniano disse que nunca abriria mão de seu direito de enriquecer urânio, segundo o Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

Hadley, ao descrever pela primeira vez em público o acordo proposto, na sexta-feira, disse que o Irã, "ao mesmo tempo em que manteria seu direito de enriquecimento e reprocessamento, todavia, veria ser do seu interesse abrir mão de tal direito em seu próprio território".

Uma instalação de enriquecimento seria construída na Rússia, "na qual o Irã terá participação financeira e administrativa, mas não técnica", ele acrescentou. Em outras palavras, o Irã não teria controle sobre o grau de enriquecimento do urânio, o impedindo de produzir combustível para bomba.

"Esta é uma idéia interessante", disse Hadley. "Os iranianos, provavelmente sem causar surpresa, inicialmente disseram não." Mas ele disse que espera que o Irã volte atrás.

A Rússia se beneficiaria financeiramente com o acordo, e nutriria a esperança de também atrair atividades de enriquecimento de outros países. Mas as autoridades russas ficaram frustradas com a receptividade que obtiveram do Irã até o momento. Mohamed ElBaradei, o diretor geral da Aiea, adiou a visita que faria ao país nos próximos dias porque não queria sair de mãos vazias.

Quanto à revelação da agência atômica internacional sobre a moldagem do urânio metálico em hemisférios, não é segredo que tais formas freqüentemente são um pré-requisito para a fabricação de uma bomba nuclear. Os livros dizem como os dois hemisférios de urânio ou plutônio são unidos para produzir o núcleo esférico da arma.

Apesar de relatórios anteriores neste ano sobre o programa iraniano terem revelado a oferta de Khan de experiência em moldagem de urânio ao Irã, e a possibilidade de sua aplicação em armas nucleares, eles não mencionavam a geometria específica de hemisférios.

Em entrevistas nos Estados Unidos, na sexta-feira, cientistas que projetaram armas nucleares disseram que os detalhes da oferta de Khan deixam claro que a informação sensível provavelmente visava o desenvolvimento de armas nucleares, em vez de reatores.

"Eles apontam fortemente para um interesse em armas", disse o dr. Siegfried S. Hecker, diretor do laboratório de armas de Los Alamos, no Novo México, de 1986 a 1997, e atualmente um professor visitante na Universidade de Stanford.

Hecker acrescentou que alguns elementos da oferta poderiam ser aplicados em reatores, mas que outros não tinham utilidade exceto em armas nucleares.

"Ela sinaliza claramente que ele está dando uma receita para produção de bomba", disse Hecker. Ray E. Kidder, um projetista de armas aposentado do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, na Califórnia, concordou. "Está razoavelmente claro que isto está relacionado a bombas", disse ele, notando que hemisférios de urânio e plutônio poderiam ajudar na pesquisa de armas assim como serem usados para produção de núcleos de bombas.

Quanto ao computador laptop, as autoridades americanas disseram em briefings secretos que ele continha mais de 1.000 páginas de documentos, escritos em persa, mostrando o que descreveram como sendo um longo esforço iraniano para projetar uma ogiva nuclear.

Especialistas nucleares na Europa e nos Estados Unidos que examinaram os documentos disseram que o computador não continha nenhum plano para a bola de combustível radioativo no núcleo da bomba, mas mostrava estudos para o cone do nariz em volta dela, assim como componentes essenciais de bombas, como a esfera característica de detonadores do tipo usada para provocar uma explosão atômica. Muitos analistas na Europa e nos Estados Unidos interpretaram tal informação como uma indicação de que os iranianos estão tentando projetar uma ogiva nuclear.

Mas alguns analistas têm discordado, dizendo que um impostor poderia ter forjado os documentos. Outros levantaram a possibilidade de que cientistas iranianos de mísseis realizaram os estudos sem o conhecimento das autoridades centrais em Teerã.

As autoridades da agência atômica internacional disseram que o novo relatório não menciona a informação do computador porque as alegações surgiram apenas em briefings secretos em vez dos caminhos formais da agência. Até o momento, os Estados Unidos têm se recusado a divulgar a informação do computador, o que impossibilita à agência buscar explicações detalhadas junto aos iranianos. EUA e Rússia querem forçar Teerã a aceitar acordo sobre urânio George El Khouri Andolfato

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