UOL Notícias Internacional
 

19/11/2005

Homens-bomba matam pelo menos 70 no Iraque

The New York Times
Eward Wong

Em Bagdá
Dois suicidas detonaram nesta sexta-feira (18/11) cintos explosivos dentro de duas mesquitas xiitas na cidade curda de Khanaqin, no Norte. As explosões destruíram as construções, mataram ao menos 70 pessoas e feriram mais de 100. O ataque aconteceu enquanto os fiéis se reuniam para as preces de sexta.

O atentado foi o mais mortífero no Iraque em quase três meses e ocorreu horas depois de dois carros-bomba explodirem na frente de um hotel no centro de Bagdá que abriga muitos jornalistas estrangeiros. Um prédio de apartamentos vizinho foi destruído, pelo menos seis iraquianos morreram e mais de 40 ficaram feridos.

O ataque organizado contra o Hotel Hamra foi o mais recente golpe em uma campanha jihadista crescente contra toda presença estrangeira, sendo um dos mais importantes centros de estrangeiros fora da Zona Verde fortificada. O atentado se pareceu com outro no mês passado, contra dois outros hotéis proeminentes, e acabou com qualquer noção que os jornalistas tivessem sobre sua proteção ou neutralidade nesta guerra. Ao menos uma dúzia de grandes organizações de notícias Ocidentais tem escritórios e moradias em Hamra.

O colapso de um prédio próximo fez uma nuvem subir aos céus de Bagdá. Duas dezenas de bombeiros e soldados iraquianos lutaram para tirar pessoas soterradas, retirando os destroços com as mãos. Mulheres vestidas de preto choravam ao longo da rua, cercadas por carcaças de carros incendiados. Canos de água se romperam e os vazamentos formaram-se piscinas de água. Helicópteros Apache americanos sobrevoavam a cena.

Os iraquianos usaram um trator para ajudar a tirar os destroços, e os soldados americanos trouxeram um veículo blindado de escavação para levantar pedaços de concreto. A equipe de resgate retirou um menino e um homem sudanês. Um coronel americano disse que ao menos cinco pessoas ainda estavam presas nos destroços às 10h30, mais de duas horas depois do ataque.

"Caí no chão e havia estilhaços de bomba voando sobre minha cabeça. Não acredito que ainda estou vivo. O prédio inteiro caiu como se fosse de papel", disse um trabalhador, Ali Muhammad Kadhum, 44, que estava passando na frente do hotel a caminho do trabalho.

Kadhum disse que seu apartamento foi totalmente destruído e sua família de seis membros, inclusive um bebê de cinco meses, ficou sem moradia.

"Ninguém aceita isso", acrescentou. "Isso é um ato criminoso. Somos civis, pessoas pobres".

Então ele tirou sua camisa de flanela e foi ajudar a tirar os destroços.

De tarde, uma cena similarmente dura se passou em Khanaqin, perto da fronteira com o Irã, 160 km a nordeste de Bagdá, quando dezenas de pessoas começaram a escavar os destroços das duas mesquitas. As explosões tinham ocorrido perto do meio dia, no início das preces, e foram seguidas por uma explosão de menor porte na frente de um banco, disse um funcionário do Ministério do Interior. O hospital de Khanaqin lotou e muitos dos feridos tiveram que ser levados para outra cidade.

"Denunciamos essa ação covarde, que teve como alvo nossos irmãos fiéis em Khanaqin. Oramos a Deus para revelar quem são esses terroristas covardes para que o Iraque possa viver em um estado de segurança e prosperidade", disse Hafed Abdul-Aziz, assistente do governador da província de Diyala, que inclui Khanaqin.

O ataque foi o mais mortal no país desde que três caminhões-bomba explodiram no dia 29 de setembro, na cidade xiita de Balad, matando número similar de pessoas.

Nenhum grupo assumiu a responsabilidade pelo ataque de Khanaqin, mas a operação se pareceu com a da Al Qaeda na Mesopotâmia, pelo grupo militante liderado por Abu Musab Al Zarqawi. Outro grupo, Ansar Al Sunna, freqüentemente combate curdos com ataques suicidas.

A natureza sectária dos atentados marca o crescimento das divisões entre grupos étnicos e religiosos no Iraque, enquanto o país se aproxima das eleições em dezembro para um governo pleno de quatro anos. A cisão entre a maioria xiita e os sunitas que antes governavam aumentou nesta semana, quando soldados americanos descobriram 169 presos mal nutridos, quase todos sunitas, em um centro secreto da polícia em Bagdá.

O centro era operado pelo Ministério do Interior, chefiado por um xiita. Uma testemunha da operação americana disse que ao menos um terço dos presos tinha hematomas ou cortes no rosto ou no corpo. Uma alta funcionária de direitos humanos das Nações Unidas, Louise Arbour, solicitou um inquérito internacional.

Os atentados suicidas de sexta-feira, junto com outro ocorrido no dia 11 de novembro em um restaurante de Bagdá, que matou 29 pessoas, levantaram dúvidas sobre a coerência da estratégia americana para impedir tal violência. O comando americano salienta que houve uma queda ligeira nos ataques suicidas entre o início e o fim do verão.

No entanto, algumas autoridades dizem em particular que ainda não sabem ao certo quem está por trás dos atentados e questionam se a decisão militar de se concentrar no combate aos guerrilheiros estrangeiros não está enganada. Mais dúvidas surgiram depois da revelação que os responsáveis pelos recentes atentados suicidas na Jordânia eram iraquianos.

Os Marines disseram que ao menos 50 insurgentes executaram um ataque coordenado na quinta-feira, contra postos militares iraquianos e americanos na rua principal da capital da província Ramadi, no Oeste. A maior parte dos combates aconteceu em torno de uma mesquita no centro da cidade. Ao menos 32 insurgentes morreram, segundo os Marines.

Segundo os militares americanos, um soldado foi morto e dois ficaram feridos na quinta-feira em um acidente de automóvel perto da cidade de Tal Afar, no Norte.

O ataque no Hotel Hamra em Bagdá começou por volta de 8h20, quando o primeiro homem-bomba jogou uma minivan carregada com 180 kg de explosivos contra as barreiras de concreto, nos fundos do hotel. O propósito do motorista era criar uma fenda no paredão para o segundo terrorista, um homem que o seguia com um caminhão carregado de barris de plástico, disse o general Karl Horst, da Terceira Divisão de Infantaria. O motorista detonou 450 kg de explosivos depois de ficar preso nos destroços criados pela primeira explosão.

"O segundo ia tentar chegar perto do Hamra", disse o general Horst. "Não haveria mais ninguém vivo no hotel."

O ataque pareceu-se com o do dia 24 de outubro, quando dois suicidas tentaram jogar veículos em rápida sucessão contra um prédio que abrigava os hotéis Palestine e Sheraton, os dois outros grandes centros de estrangeiros fora da Zona Verde. Nesse incidente, o segundo veículo, um caminhão misturador de concreto, atravessou a fenda, mas detonou prematuramente, depois de ficar preso em algum obstáculo.

O Hotel Hamra consiste de duas torres separadas por uma piscina, que foi cena de festas hedonistas no verão de 2003, antes do início da insurgência. O prédio nos fundos do conjunto sofreu extensos danos na sexta-feira, e vários repórteres disseram que teriam que deixá-lo. Kim Sengupta, do Independent, disse que estilhaços de vidro atravessaram seu quarto, enquanto ele estava deitado na cama. "Teria morrido se estivesse em pé", disse ele.

O prédio de residências que foi ao chão abrigava quatro famílias iraquianas, disse uma autoridade americana. Os moradores em outros prédios danificados, alguns que tiveram toda a fachada arrancada, disseram que o número de mortos na área teria sido muito maior se a explosão tivesse ocorrido mais cedo, pois muitos homens já tinham saído para o trabalho. Várias mulheres com ferimentos críticos foram evacuadas do mesmo prédio em que morava Kadhum.

"Estávamos dormindo e, de repente, não reconhecíamos mais nada; portas e vidros tinham caído em cima das nossas cabeças", disse Sadiya Hassan, 47, sentada no chão vendo um soldado americano tirar um estilhaço de vidro do pé ensangüentado de seu marido. "São cães. Usaram pessoas inocentes como alvo."

Ela se levantou, apertou seu roupão e saiu arrastando os pés pela lama, começando a busca por uma cama para passar a noite. Foi o maior ataque em três meses; estratégia dos EUA é questionada Deborah Weinberg

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