UOL Notícias Internacional
 

19/11/2005

Pedras contam a história dos Estados Unidos

The New York Times
Gary Santaniello

Em Nova York
A história da Nova Inglaterra está escrita em pedra.

Pegue virtualmente quaisquer dois lugares em um mapa, vá de carro de um ao outro por estradas secundárias e ao longo do caminho você verá quilômetros e quilômetros de muros de pedra. Se você souber como lê-los, estas muros lhe dirão algo sobre a história comercial e cultural de cada área pela qual passar: um registro longo, sinuoso, sem palavras da região remetendo até o século 17.

Os muros em uma destas viagens, entre as cidades de Stonington, Connecticut, e Little Compton, Rhode Island, a 112 quilômetros de distância, traçam uma cronologia que vai do agrarianismo rudimentar de meados dos anos 1600, passando pela época da pesca de baleia dos 1700, até a idade dourada do final dos 1800.

A jornada começa em Stonington, uma cidade fundada em 1649 e onde abundam resquícios históricos, da predominante arquitetura de estilo colonial às ruas estreitas de seu aconchegante distrito costeiro. Antes conhecido principalmente como sendo um ex-porto de baleeiros, a cidade também desenvolveu um centro comercial terra adentro ao longo da Pequot Trail, uma rota de comércio indígena que se estende até Rhode Island.

As terras agrícolas que antes dominavam esta região deram espaço aos muros de pedra de Stonington, os primeiros dos quais eram aterros lineares, áreas para depósito das pedras que os primeiros agricultores brancos removiam dos campos.

Na Saída 90 da Interestadual 95 (I-95), siga para o norte por um quilômetro e meio e vire à direita na Rota 234, o início da Pequot Trail. Apesar de ser impossível saber exatamente quando os muros foram construídos, é possível identificar sinais de sua idade. Um trecho particularmente velho do muro acompanha o lado direito da Pequot Trail, a partir da marca de 2,7 quilômetros, logo após passar pela Deer Ridge Road.

Nos próximos 400 metros, trechos dos muros de pedra empilhada se alternam entre firmeza e desarranjo. Muros empilhadas foram o segundo estágio na construção de muros na Nova Inglaterra, construções que freqüentemente refletiam o desenvolvimento agrícola avançado, um melhoria em relação os muros de pedras "jogadas" ou "despejadas" casuais resultantes da limpeza dos campos.

Cruzando o Back Acres Way, um trecho com séculos de idade de um muro empilhado sobe uma pequena elevação, enquanto em outros lugares o muro foi vazado por árvores e está coberto pela vegetação rasteira. As pedras arredondadas de granito naturais da região serviam de material bruto para todas estes muros. Foi a abundância destas pedras que deu a Stonington seu nome.

Muros de pedras empilhadas foram seguidos por muros erguidos de maneira mais formal, que buscavam a estabilidade e a beleza. Estes são freqüentemente encontradas perto dos centro das cidades e nos prédios públicos. Um particularmente grande se encontra atrás da Primeira Igreja Congregacional, conhecida como Road Church, no número 903 da Pequot Trail, logo após a estrada passar por cima da I-95.

A Road Church foi fundada em 1674 pelos primeiros moradores de Stonington. O muro que margeia seu estacionamento no fundo exibe uma mistura bem encaixada de pedras grandes e pequenas, tendo no alto pedras em formato de tablete conhecidas como "capstone".

Da Road Church, continue pela Pequot Trail (Rota 234) até ela se encontrar com a I-95 na Saída 91. Siga a Rota 234 por mais três quilômetros enquanto ela passa por casas, fazendas e bosques em North Stonington. Dobre a esquerda na North Anguilla Road, e após 4,3 quilômetros você encontrará a Rota 184. Vire à direita e na interseção e siga a Rota 2 ao sul por menos de 1,5 quilômetro até Randall's Ordinary, um restaurante e pousada localizado ao norte da Saída 92.

Construída originalmente em 1685, ela foi lar do colono John Randall. Ela foi danificada por um incêndio em 1725 e então reconstruída em suas dimensões atuais. Os descendentes de Randall viveram na fazenda de 100 hectares até 1985, quando a casa foi transformada em pousada. No Sala Hearth, um alçapão leva a uma pequena sala onde os Randalls, abolicionistas ardorosos, supostamente escondiam os escravos que viajavam pela Ferrovia Subterrânea.

A propriedade é em grande parte cercada por muros de pedra empilhada, e dentro da propriedade há exemplos de muros de pedras entrelaçadas, um tipo de muro de pedra empilhada assim batizado por causa do espaço entre as pedras. Visível em ambos os lados da passagem de automóveis após o portão de entrada, estes muros foram construídos principalmente para conter os animais de criação, não marcar território.

Stonington era uma das áreas na costeira Nova Inglaterra onde foi introduzida a criação de ovelhas no início dos anos 1800. Com tantas pedras arredondadas disponíveis, era relativamente fácil construir as paredes vazadas, altas, que mantinham as agitadas ovelhas dentro de seus campos determinados. (Os muros entrelaçados apresentam uma maior tendência de desprendimento de pedras, o que mantém as ovelhas longe deles.)

"Muros de pedra são importantes porque são marcos referenciais para a história e pré-história, os fios que ligam a paisagem histórica", disse Robert Thorson, um professor de geologia da Universidade de Connecticut cujo livro, "Exploring Stone Walls" (Walker & Co., 2005) serve tanto como cartilha quanto guia regional para os aficcionados por muros de pedra. O livro explica que aqueles que são considerados os muros de pedra ícones da Nova Inglaterra foram construídos, geralmente, entre 1775 e 1825, e que o uso de argamassa só passou a predominar após a Guerra Civil.

Se Stonington oferece os exemplos dos muros de pedra mais antigos, Newport oferece a apoteose do formato. Os muros mais interessantes em Newport são aqueles ao longo dos 5,6 quilômetros da Cliff Walk, que segue a faixa íngreme litorânea atrás das famosas mansões.

Refletindo a riqueza acumulada durante a Era Dourada, os muros destas propriedades foram construídos por mão-de-obra imigrante com pedras mais suaves, lajeadas, cinza-esverdeadas naturais de Narragansett Bay, assim como algumas pedras importadas. Elas exibem floreios ostentosos como arcos, frontões triangulares, torrinhas e faces curvadas.

O acesso à Cliff Walk é possível por vários lugares, mas para a melhor visão dos muros de pedra o melhor ponto de entrada fica no fim da Narragansett Avenue. Ao longo da avenida, margeando a Universidade Salve Regina, um antigo muro com cimalha de pedra -distinguível pela camada superior de pedras dispostas na borda, dando uma aparência serrilhada- sinaliza "proibida a entrada", uma declaração central feita pelos muros dos ricos.

Na própria Cliff Walk, os muros ornamentados entre as avenidas Narragansett e Marine ao sul são evidência do período de construção de muros que Thorson chama de estágio floresta e cidade. À medida que mais e mais fazendas eram abandonadas, os ricos gravitavam para áreas urbanas e colônias de verão, onde os abastados se expressavam por meio de sua arquitetura, incluindo seus muros.

A Rota 138 segue para o norte saindo de Newport, e a Rota 24 atravessa a Ponte do Rio Sakonnet ao leste para Tiverton. Seguindo a Rota 77 ao sul, na direção do canto extremo sudeste de Rhode Island, os muros começam a se tornar interessantes à medida que você se aproxima de Little Compton.

Aproximadamente 6,5 quilômetros depois de Tiverton Four Corners, e passando uma série de alamedas chamadas Indian Hill, Block House e Treaty Rock, você encontra à sua esquerda a Friends Meeting House, em Little Compton. O muro que a cerca data do início dos anos 1700, apesar de alguns trechos terem sido reconstruídos nos anos 60. Ele está em tão boa condição por estar construído sobre uma saliência de rocha, lhe dando uma forte fundação, e sua construção empregou grandes lajeados para estabilidade.

A primeira entrada à esquerda passando a Meeting House leva você a um caminho sem nome. Esta é a Meeting House Lane, que leva à Commons de Little Compton, do século 17.

Incorporada em 1746, Little Compton foi uma das primeiras comunidades rurais de Rhode Island. Seu relativo isolamento e terreno rochoso desencorajavam agricultura em grande escala, de forma que uma concentração notável de muros da era colonial permanece até hoje, demarcando e dividindo as terras com precisão.

Deixando Commons pela South of Commons Road, exemplos destes muros abundam por todo o lado direito da rua. Uma característica chamativa que compartilham é o par de pedras angulares, altas e cinzentas, que marcam as entradas. Feitas de granito extraído de pedreiras ou de fragmentos de pedras locais, estas pedras fixadas de forma livre datam do final do século 18, quando o gado era conduzido para New Bedford como provisão para os navios baleeiros, e os proprietários de terras construíam portões como entrada e saída de suas propriedades.

Também dignos de nota são os cemitérios mais velhos de Little Compton, não apenas pelos seus muros de pedras do campo, mas também por conterem algumas das lápides mais antigas dos Estados Unidos. John Stevens começou a cortar lápides quando se mudou para Newport em 1705, e ainda restam muitos trabalhos dele. Em um cemitério aconchegantemente murado, no lado leste da Rota 77, aproximadamente a 5,5 quilômetros ao sul de Tiverton Four Corners, a gravação data de 1710.

Por estar situada em uma longa e estreita península que se projeta no braço de Rhode Island, Little Compton (diferente de Stonington) não fica no caminho batido. Não é o tipo de lugar que você encontra sozinho passando de carro.

A menos, é claro, que você considere muros de pedra fascinantes. Formações rochosas na costa leste relatam a ocupação do país George El Khouri Andolfato

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