UOL Notícias Internacional
 

20/11/2005

No Iraque, americanas na linha de fogo

The New York Times
Juliet Macur

em Camp Normandy, Iraque
Era sua primeira inspeção em uma residência iraquiana, e a soldada Safiya Boothe, 21, não tinha idéia do que esperar. Protegendo-se atrás de um grupo de homens de sua unidade do Exército dos EUA, seu rosto delicado e corpo franzino escondidos pelos trajes completos de batalha, entrou pela porta da frente, tentando passar despercebida. Quando não ouviu tiros, suspirou aliviada.

Lá dentro havia um grupo de mulheres iraquianas acovardadas em um canto. Enquanto seus colegas procuravam armas e interrogavam os homens, seu papel como soldada era deixar as mulheres à vontade e, se necessário, inspecioná-las.

Ela apontou para seu rabo de cavalo preto saindo do capacete e, imediatamente, a apreensão das mulheres pareceu desvanecer-se, lembra-se. Elas a convidaram para se sentar nas almofadas multicoloridas, tomar chá e ficar para o jantar.

"Em sua cultura, lidar com homens estranhos está fora de questão, mas com outra mulher elas baixam a guarda", disse Boothe suavemente. "No fundo, é por isso que estou aqui no Iraque, presa nessa situação assustadora."

O papel das mulheres nas forças armadas americanas evoluiu de enfermeiras, na Guerra Civil, para apoio em conflitos, como a Guerra do Golfo. No entanto, elas nunca tinham operado na frente de combate como no Iraque. O Pentágono proíbe as mulheres de participarem de combates, mas a aplicação da regra não é possível aqui. Os pontos de resistência não são necessariamente predeterminados; aparecem subitamente, quando um insurgente joga uma bomba, atira uma granada contra uma unidade conduzindo uma busca ou lança rodadas de morteiros contra uma base militar.

Todos os dias soldados, inclusive mulheres, são expostos ao fogo inimigo. Boothe disse que certa vez estava sentada em um banheiro portátil, perto de seu quarto em um acampamento do exército iraquiano, quando um morteiro caiu ao seu lado, lançando terra pelos ares. Ela rezou para que não morresse de forma tão humilhante.

Atualmente há mais mulheres servindo o exército. Elas constituem 15% dos 160.000 soldados americanos no Iraque e estão sendo mortas e feridas em maiores números. Dos 2.067 membros das forças armadas que morreram no Iraque até 18 de novembro, 43 eram mulheres.

"Antes dessa guerra, as pessoas imaginavam como as mulheres reagiriam em papéis de combate e pensavam que elas não iam agüentar. Mas pela primeira vez as mulheres estão atirando de volta e fazendo o trabalho pesado em uma guerra de verdade. Os tiros são reais, assim como as bombas e o sangue. Vemos que as mulheres estão formando elos com os homens e não estão se despedaçando", disse Lory Manning, capitã aposentada da Marinha que hoje é diretora do projeto Mulheres nas Forças Armadas no Instituto de Educação e Pesquisa das Mulheres em Washington.

Em um dia típico de agosto, de 48 graus Celsius, Boothe estava sentada sozinha e entediada em seu quarto cavernoso, de paredes de concreto no Campo Normandy, 95 km a nordeste de Bagdá. Por sete meses, esta tem sido sua casa; ela é uma das oito mulheres entre 700 soldados.

Seu cabelo está cuidadosamente trançado e amarrado. Seu rosto suave e limpo. Ela não mexe nos livros; neste calor, ela se resignou a ser apenas um dos rapazes.

Boothe, americana que foi criada na Jamaica, entrou para o Exército assim que terminou o ensino médio, atraída pela aventura. Ela é maquinista que faz e conserta mangueiras. Se ela tivesse ficado com sua unidade, o 203º Batalhão de Apoio Adiantado, ela ainda estaria trabalhando com motores em uma base de médio porte, com muitas outras mulheres e amenidades como uma academia de ginástica moderna, cinema e lanchonete 24 horas. Há até banheiros e chuveiros só para mulheres.

Mas agora ela está no 1º Batalhão, 30º Regimento de Infantaria da 3ª Divisão de Infantaria -unidade tecnicamente vedada às mulheres- em uma base marcada por ataques de morteiro e foguetes. Outras mulheres do Campo Normandy disseram que tiveram a opção de declinar o convite, mas Boothe disse que não sabia que tinha escolha.

Ela disse que gosta de interagir com as iraquianas, mas acha estranho. Freqüentemente elas agem como mães, disse ela, mas é difícil parar de imaginar que tipos de armas poderiam estar escondendo debaixo de suas vestes largas.

As dificuldades que as mulheres enfrentam no Campo Normandy de forma alguma se limitam à guerra. Sem banheiros especiais, elas têm que encontrar formas de lidar com a proporção de 100 homens para cada mulher. A colega de quarto de Boothe fez um aviso rosa e verde de "Feminino", e elas o colocam acima da porta da sala de banho quando estão no chuveiro.

A maior parte das instalações na base é feita para homens. A loja de conveniência tem desodorantes esportivos, tabaco para mascar e garrafas de proteína em pó para criar músculos. Há tampões femininos, mas apenas porque são bons para limpar rifles, disse Boothe.

Apesar de seus superiores tentarem deixá-la à vontade, é quase impossível nesse ambiente, diz ela. "Eles me enviaram uma caixa de absorventes quando cheguei aqui", disse ela, apontando para uma caixa fechada em seu quarto.

Boothe disse que os homens com quem trabalha são como seus irmãos, mas que preferia passar tempo com sua colega de quarto, Elise Yoder, conversando, vendo DVD ou jogando videogame. As duas tentaram tornar seu quarto de concreto aconchegante, com tapetes e panos.

Enquanto algumas mulheres tentam se misturar com os colegas, muitos maridos e namorados ficam preocupados com o excesso de homens. Boothe disse que seu noivo, que trabalha em uma base a 40 km, está com medo que outros homens se interessem por ela.

Ela disse que vem se defendendo, dizendo: "Não comece, porque sou noiva". Também houve outras chateações, disse ela, como entrar nos computadores da base e ver que a página inicial na Internet é a da Playboy.com

Quanto aos homens da base, o sargento Jesse LaForest, 24, da Companhia Charlie, disse que a maior parte achava que as mulheres estavam sendo tratadas como os outros soldados.

"O único problema que eu tenho com as mulheres é que, quando não querem fazer alguma coisa, é muito fácil para elas dizerem: 'Rapazes, vocês podem fazer isso para mim?'" disse ele. "Algum idiota sempre faz."

Fora da base não há censura por insinuações sexuais. Alguns iraquianos ficam encarando as mulheres, cercam-nas, tentam tocá-las ou pedem que se casem com eles. Os apetrechos de batalha escondem o corpo e o rosto das soldadas, o que evita de serem notadas. Muitas pessoas chamam-nas de "senhor".

"Sei que as mulheres estão em situação muito difícil, mas dou crédito a elas por agüentarem. Elas têm um papel muito importante aqui", disse o coronel Roger Cloutier, comandante da Companhia.

Mas nem todos os homens são a favor. A cabo Katherine Daronche, 21, que foi voluntariamente para o Campo Normandy, disse que seus colegas a supervisionavam para ver se podia fazer seu trabalho.

"Um sujeito uma vez me disse: 'Não concordo com sua presença aqui'. Eu disse para ele: 'Bem, não tenho escolha", disse Daronche, que fuma para aliviar a tensão. "Eu disse: 'Você está se esquecendo que sou sua especialista médica. Mesmo que você não concorde comigo, estou aqui para salvar sua vida.'"

Ela disse que não gosta quando as pessoas acham que está recebendo tratamento especial. Em uma missão de ataque por ar, ela torceu os tornozelos quando caiu na lama depois de pular de um helicóptero Chinook com uma mochila de 25 kg e a bolsa de primeiros socorros. Em vez de reclamar, continuou andando.

Mas ela também fez amigos. Os homens falam das cartas que recebem de casa e seus problemas, disse ela, porque é mais fácil falar com ela do que com os colegas homens.

Boothe, entretanto, está cansada de conversar com homens.

"Estou cansada de ouvir sobre automóveis, sobre como vão esquentar seus carros e o que vão fazer com seus caminhões", disse ela, imitando seus colegas. "Não sei o que aconteceu comigo. Só quero ler uma boa revista de decoração ou fazer compras."

Boothe disse que acabou de voltar de duas semanas de folga no Reino Unido, durante as quais comprou maquiagem e roupas mais femininas do que costuma usar. Ela sentia necessidade disso, pois no Iraque o mais perto que se sentia de ser mulher era usar perfume. Mas isso atrai insetos, como as pulgas da areia que deixam marcas que duram semanas. "Não tem jeito", disse ela.

Por um momento, ela deixou cair o olhar, depois olhou para cima e fez que sim com a cabeça. "Conheci uma soldada mecânica quando cheguei nesta base, e ela estava tão estranha", disse ela. "Não mostrava emoção. Parecia anestesiada".

Boothe suspirou e disse: "Agora sei por que". Deborah Weinberg

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