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20/11/2005

Oi, você é minha irmã. Nosso pai é o Doador 150

The New York Times
Amy Harmon
Como a maioria dos doadores anônimos de esperma, o Doador 150 do California Cryobank provavelmente nunca conhecerá os filhos que gerou por meio do banco de esperma. Há pelo menos quatro crianças, segundo os registros do banco, e talvez muitas mais, já que as dezenas de mulheres que compraram o esperma do Doador 150 não são obrigadas a informar se tiveram um bebê.

Mesmo elas sabem apenas o número do código usado pelo banco para identificação, assim como fragmentos de informação pessoal fornecidos no perfil do doador, que as levou a escolher o Doador 150 em vez de outros candidatos.

Mas duas de suas filhas genéticas, nascidas de mães diferentes e vivendo em Estados diferentes, tem regularmente se correspondido por e-mail e conversado por telefone desde que tomaram conhecimento da existência uma da outra no verão passado. Elas planejam se encontrar no Dia de Ação de Graças.

As garotas, Danielle Pagano, 16 anos, e JoEllen Marsh, 15 anos, se conheceram por meio do Donor Sibling Registry (registro de irmãos por parte de doador), um site na Internet que está ajudando a abrir um novo capítulo na mais antiga forma de tecnologia de reprodução assistida. O site que já existe há três anos permite que mães e filhos insiram suas informações de contato e busquem por outros por banco de esperma e número do doador. Os doadores que desejam abrir mão de seu anonimato são bem-vindos, mas a grande maioria das 1.001 associações no site é entre meios-irmãos.

"A primeira vez que conversamos pelo telefone foi estranho", disse Danielle. "Foi tipo, 'nós vamos superar', e ela disse, 'sim, somos irmãs'. Foi tão estranho ouvir ela dizer aquilo. Mas foi legal."

Para crianças que freqüentemente se sentem privadas de metade de sua identidade biológica, encontrar um irmão -ou, em alguns casos, uma dúzia- passa a sensação de voltar para casa. Isto também pode deixá-las ainda mais curiosas sobre o pai anônimo cujos genes elas carregam.

A popularidade do Donor Sibling Registry, disseram muitos dos registrados, deriva do forte poder dos laços biológicos, em um momento em que está se tornando quase rotineiro mulheres terem filhos que não compartilham o DNA do parceiro, às vezes nem mesmo do seu próprio.

"Eu odeio quando pessoas que usam IA dizem que a biologia não importa (cóf, minha mãe, cóf)", escreveu Danielle em um e-mail, usando as iniciais de "inseminação artificial". "Porque se não importava para elas, então por que usaram IA? Elas poderiam simplesmente ter adotado ou algo semelhante, e ajudado crianças carentes."

A procura por meios-irmãos é motivada em parte pelo número crescente de crianças concebidas por doação que sabem a verdade sobre suas origens. À medida que mulheres solteiras e casais de lésbicas usam doadores de esperma para conceber, as perguntas das crianças sobre o paradeiro do pai freqüentemente leva a uma explicação precoce.

Alguns casais inférteis -que por décadas freqüentemente escolhiam doadores que pareciam com o marido e evitavam contar à criança o restante da história- também estão começando a ser mais francos, aproveitando a deixa do movimento de registros abertos na adoção.

Diferente dos adotados, cuja primeira pergunta freqüentemente é por quê seus pais biológicos os abandonaram, as crianças concebidas por doação de esperma geralmente se concentram em saber a identidade dos doadores -e o que isto pode revelar sobre elas próprias. Irmãos por parte de doador, que às vezes chamam a si mesmos de "meios-adotados", às vezes fornecem pistas que lhes ajudam a se sentirem mais inteiros, mesmo que apenas na forma de detalhes físicos.

Liz Herzog, 12 anos, e Callie Frasier-Walker, 10 anos, por exemplo, possuem a mesma covinha perto do olho direito.

"Ela me admira", disse Liz, que era filha única antes de tomar conhecimento de Callie e seis outros meios-irmãos, mas que pareceu não ter tido problema em assumir o papel de irmã mais velha. Encontrar seus irmãos e irmãs, disse Liz, "foi a melhor coisa no mundo", mesmo que Callie às vezes a imite, como quando Liz tingiu seu cabelo de vermelho e Callie fez o mesmo. "Eu queria azul", disse Callie. "Mas eles não tinham azul."

As duas meninas, que trocam mensagens instantâneas com freqüência, passarão o Dia de Ação de Graças com suas mães na casa de Callie, em Chester Springs, Pensilvânia. Elas realizaram uma mini reunião de família com alguns dos outros irmãos em abril passado, apesar da mãe de Liz, Diana Herzog, ter destacado que "não foi realmente uma reunião, porque ninguém nunca tinha se encontrado antes".

Muitas mães procuram umas às outras no registro, interessadas em criar uma família remendada para si mesmas e seus filhos. Um grupo de sete mulheres disse que também se sentem ligadas pelos laços parciais de sangue entre as crianças, e talvez pelo anseio vagamente biológico que as levou a escolherem o Doador 401 do Fairfax Cryobank.

Carla Schouten enviou a sobra de um frasco de esperma para outra mãe que queria um segundo filho e descobriu que não restava mais esperma do 401 à venda. Em julho, Schouten e seu filho de 2 anos, Matthys, foram acampar no Norte da Califórnia com outra fã do Doador 401, Louisa Weix e suas gêmeas, Eliza e Julia, que completarão dois anos na próxima semana.

Apesar de muitas crianças concebidas por doação de esperma preferirem chamar seu pai genético de "doador", para diferenciar a função biológica da paternidade da social, elas freqüentemente não sentem necessidade de se distanciarem, lingüistica e emocionalmente, de seus irmãos.

Vários que se encontraram descrevem uma sensação de familiaridade que parece altamente irracional, dada a ausência de um pai, mães não relacionadas e outros interesses divergentes.

"Tudo o que posso dizer é que parecem irmãos", disse Barry Stevens, um cineasta que descobriu vários meios-irmãos por meio de pesquisa e teste de DNA desde o lançamento de seu documentário de 2001, "Offspring", descrevendo sua busca por seu doador.

Se o anseio por um irmão é em parte um desejo de se sentir menos sozinho, algumas crianças concebidas por doação de esperma poderão no final sentir desejo por um pouco mais de solidão.

Deb Bash, a mãe de um menino de 7 anos, troca com freqüência e-mails com outras oito mães que têm um total de 12 filhos do mesmo doador, e ela criou um livro de bebê para seu filho com as fotos de todos eles. Os irmãos, disse Bash, deram ao seu filho uma forma de se sentir ligado ao conceito, antes abstrato, de um pai genético.

"Não é mais uma pessoa fantasma lá fora", disse Bash.

As crianças já exibem algumas semelhanças impressionantes, disse ela. "Isto é criação contra natureza", Bash acrescentou. "E uau, a natureza tem força."

Quando os pais de Danielle lhe disseram três anos atrás que o homem que a criou não era seu pai biológico, ela começou a pesquisar online o mundo da inseminação artificial, e acabou descobrindo o site do registro. Ela adotou a política de um novo movimento de solidariedade entre crianças concebidas por doação de esperma que acreditam ter o direito de conhecer suas origens.

Mas foi apenas em uma tarde no final de agosto, quando revirava os documentos de sua mãe em busca de informação sobre o doador, que ela foi capaz de encontrar o endereço de e-mail de JoEllen, listado sob o mesmo banco de esperma e número de doador que o dela.

Para Danielle, de Seaford, Nova York, o contato com JoEllen a ajudou a aplacar sua revolta pelo que descreveu como "ter vivido uma mentira toda minha vida", e a frustração de apenas saber a pouca informação sobre seu pai biológico contida no perfil do banco de esperma -ele tem 1,82 metro de altura, 74 quilos e é loiro com olhos azuis. Ele gosta de ioga, animais e representação teatral.

Para JoEllen, cujas duas mães lhe contaram desde cedo seu histórico biológico, ajuda saber que Danielle, também, compara cada estranho que encontra com a lista das características físicas do Doador 150, que ela já sabe de cor.

"Sempre passa pela minha cabeça que ele pode ser meu pai ou não quando preenche os critérios", disse JoEllen, de Russell, Pensilvânia. "Ela disse que o mesmo acontece com ela."

As garotas estão considerando uma viagem a Wilmington, Delaware, que o Doador 150 listou como sendo seu local de nascimento.

Enquanto a Internet facilita para as crianças concebidas por doação de esperma encontrarem umas às outras, algumas pessoas estão pedindo pelo fim do sistema de anonimato sob o qual nasceram. Os bancos de esperma, elas dizem, devem ser obrigados a aceitar apenas doadores que concordem que seus filhos possam contatá-los quando completarem 18 anos, como agora é obrigatório em alguns países europeus.

Isto se deve em parte por motivos de responsabilidade. Os responsáveis por bancos de esperma estimam que o número de crianças nascidas por doação de esperma em cerca de 30 mil por ano, mas como o setor não é regulamentado, ninguém realmente sabe. E à medida que os meios-irmãos encontram uns aos outros, está se tornando claro que os bancos não sabem quantas crianças nascem para cada doador, e onde estão.

Doadores populares podem ter várias dezenas de filhos, ou mais, e os críticos dizem que há o risco de incesto involuntário entre meios-irmãos. Além disso, eles argumentam, ninguém deveria poder decidir pelas crianças, antes de nascerem, que não podem saber a identidade do pai. Normalmente as mulheres podem saber sobre o histórico médico do doador, características étnicas, educação, hobbies e uma grande variedade de características físicas.

Mais recentemente, os bancos de esperma começaram a fornecer um adicional para doadores que aceitam serem contatados por seus filhos quando estes completarem 18 anos. Mas eles dizem que menos homens optarão por doar se forem obrigados a divulgar sua identidade. Os homens recebem cerca de US$ 65 a US$ 100 por amostra, e as clientes pagam cerca de US$ 150 a US$ 600 por frasco, mais taxa de envio.

Ainda assim, Wendy Kramer, que criou o registro de irmãos com seu filho concebido por doação de esperma, Ryan, de 15 anos, disse que seu apelo significa que uma nova geração de filhos de doadores representa um grande desafio à insistência dos bancos de esperma no anonimato.

"A maioria das crianças da idade de Ryan ou mais velhas não sabe que são concebidas por doadores de esperma", disse ela, "mas à medida que esta nova geração chegar à adolescência, muitas delas estarão muito curiosas. É uma reação humana natural, e elas vão querer respostas para suas perguntas".

Muitas das 5 mil pessoas registradas no www.donorsiblingregistry.com esperam que o próprio doador entre em contato. Mas outras estão satisfeitas com o contato com meios-irmãos, que querem ser encontrados. E enquanto o fazem, eles estão construindo uma nova definição de família que se apoia na biologia e a transcende.

"É muito estranho saber que você vai conhecer alguém que conhecerá pelo restante de sua vida", disse Justin Senk, 15 anos, para sua meia-irmã, Rebecca Baldwin, 17 anos, quando conversaram pelo telefone no verão passado, antes de se encontrarem pela primeira vez.

Justin, de Denver, foi o mais recente meio-irmão a aparecer em um grupo que agora chega a cinco. Rebecca e sua irmã gêmea, Erin, encontraram Tyler Gibson, 18 anos, e sua irmã de 12 anos, McKenzie, por meio do registro um ano antes. (A mãe de Tyler e McKenzie, Tina Gibson, usou esperma do mesmo doador para concebê-los.)

Apresentando sua mais recente família aos amigos depois de terem assistido a um recente concerto de coral, a mãe de Justin, Susy Senk, o escutou dizer cantarolando. "Esta é minha irmã de outra mãe, este é meu irmão de outra mãe, esta é minha outra irmã de outra mãe" e assim por diante. George El Khouri Andolfato

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