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21/11/2005

"A Fogueira das Vaidades" ganha "edição 2005"

The New York Times
Gretchen Morgenson

Em Nova York
Paul E. Johnson, um ex-analista de Wall Street que sempre adorou as ações de tecnologia supervalorizadas, ainda está abalado pela decisão de um júri federal, tomada este mês, de que ele violou leis do mercado de capitais ao enganar investidores com suas pesquisas. Mas seu choque não chega a ser chocante. Afinal, ele é um homem cujo estado favorito parece ser a negação.

Johnson continuou classificando mais de 21 ações "bolha" como "boa compra" em 2002, mesmo depois que elas perderam grande parte de seu valor. E ele tinha tanta certeza de que estava certo ao aconselhar investidores em 2001 a comprar ações de uma companhia --enquanto ele mesmo as vendia-- que decidiu defender seu caso, em vez de fazer um acordo com os reguladores.

Má decisão. Johnson poderia estar desfrutando a vida pós-Wall Street como Jack Grubman ou Henry Blodget, outros analistas de ações decaídos. Mas ele está enfrentando penalidades civis não especificadas, a restituição de lucros ilícitos e a desgraça. Isto é, a menos que o veredicto seja derrubado ou que Johnson ganhe seu caso em apelação.

O caso civil de Johnson realmente chama a atenção. É o único a alegar orientação tendenciosa de um analista individual que foi julgado desde que a bolha de ações estourou em 2000 e os investidores ficaram sabendo como a pesquisa de Wall Street havia se tornado corrupta.

Ao decidir que Johnson violou leis de mercado federais por não revelar seus interesses pessoais nas ações que recomendava, os jurados derrubaram a idéia de que os conflitos entre analistas de pesquisa de Wall Street não eram ilegais ou que as orientações tendenciosas eram tão conhecidas que se tornavam irrelevantes.

O julgamento se referia à época em que Johnson foi analista da Robert Stephens, uma unidade do Bank of America e depois do FleetBoston Financial. Advogados da Comissão de Valores Mobiliários (SEC na sigla em, inglês) denunciaram o caso ao juiz distrital federal John F. Keenan. Representando Johnson estavam Mark Pomerantz e Eric Goldstein, da firma de advocacia Paul, Weiss, Rifkind, Wharton & Garrison.

A coisa toda durou duas semanas, e Johnson passou três dias no banco dos réus. Lá ele explicou por que, em 2001, não contou aos investidores que estava vendendo ações da Corvis Corp., uma companhia que ele recomendava.

Também discutiu sua falha em revelar que ganharia mais de US$ 12 milhões em participações em duas firmas privadas que seriam adquiridas por companhias abertas que ele acompanhava. Ele elogiou as duas aquisições em suas reportagens e em comentários para jornalistas da mídia impressa e televisiva.

Johnson não quis dar entrevista para esta reportagem. Mas seus advogados disseram que ele vai lutar para restaurar sua reputação. "Johnson é um homem honesto e decente, que não cometeu fraudes mobiliárias", disse Pomerantz em uma declaração.

"Suas pesquisas sempre refletiram sua verdadeira opinião sobre as companhias que ele cobria, e seu comportamento estava totalmente de acordo com a prática da indústria, a prática de sua firma e as regras e os regulamentos em vigor."

Os jurados recusaram totalmente essa argumentação. Parecia haver poucas dúvidas entre eles: o veredicto saiu em apenas algumas horas.

Omissão de fatos

As leis federais de mercado de capitais se baseiam na informação plena, e o júri teve de decidir se as omissões de Johnson eram materiais. "O coração disso é o teste de materialidade", disse Lewis D. Lowenfels, um especialista em direito de valores mobiliários da Tolins & Lowenfels em Nova York.

"Um fato omitido é material se houver uma probabilidade substancial de que um investidor racional o consideraria importante para tomar sua decisão. É uma opinião da Suprema Corte; se você fosse um investidor, não ia querer saber que o sujeito que recomenda a compra de uma ação está vendendo seus próprios interesses naquela ação no mesmo momento?"

Obviamente, o júri achou que sim. O depoimento de Johnson em 7, 8 e 9 de novembro, porém, mostra um homem em profunda negação. Por exemplo, quando questionado por um promotor se concordaria com a tese de que um dos principais objetivos dos regulamentos de valores mobiliários é proteger os investidores, Johnson respondeu: "Não sei".

E quando Russell Duncan, um advogado da SEC, perguntou por que ele não revelou para um repórter da Bloomberg News que tinha interesses financeiros no valor de US$ 1,8 milhão em uma fusão que estava defendendo em seus textos e comentários, Johnson disse: "Isso não teria me ocorrido. Desculpe. Não teria me ocorrido mencionar isso, não".

E por que ele não revelou seu interesse financeiro para ninguém do departamento de pesquisas da Robert Stephens? "Mais uma vez, isso não teria me ocorrido, não", disse Johnson.

Sobre outras questões, os jurados tiveram um vislumbre de como os ricos de Wall Street se tornaram mais ricos. Ele descreveu com certo detalhe como muitas vezes comprou ações de companhias privadas que desejavam fazer uma emissão pública de ações, o que lhe permitia obter grandes lucros.

"Eu era um analista proeminente nessa área naquela época", admitiu Johnson. "Eu fazia investimentos nessas companhias privadas; eu visitei essas companhias privadas em diversas ocasiões; eu desenvolvi um relacionamento muito estreito com a direção; e quando chegou a hora de me tornar seu banqueiro de investimentos, tivemos uma vantagem sobre nossos concorrentes."

Hoje nós sabemos por que Johnson só pronunciava a palavra "vender" em particular, e não em público. Como você pode se manter próximo de um executivo se você aconselha os acionistas a vender?

Apartamento de 6 milhões

Parte do depoimento de Johnson parece tirado das páginas do romance "A Fogueira das Vaidades", o fenomenal estudo da arrogância de Wall Street escrito por Tom Wolfe. Questionado por que vendeu ações da mesma companhia que aconselhava seus clientes a comprar, Johnson disse que ainda acreditava na companhia, mas precisava de dinheiro para um apartamento de US$ 6 milhões que ele e sua mulher estavam comprando no Upper East Side de Manhattan.

Então ele fez ao júri um relato do mercado imobiliário de Nova York por volta de 2000, o que cada um deles sem dúvida pôde entender. "Quando nós compramos... no mercado imobiliário de Nova York, as coisas andam realmente depressa", disse Johnson.

"Quando eu conto isso a meus amigos de fora de Nova York eles ficam horrorizados. Nós compramos um apartamento --minha mulher o havia visto durante 20 minutos e eu o havia visto por 20 minutos. Nós tínhamos ouvido falar que o apartamento ia ser vendido e pudemos ver o apartamento antes de ele ser oferecido no mercado. Ela o viu na sexta-feira, eu o vi no sábado, cada um durante 20 minutos. No domingo à noite fizemos uma oferta. O apartamento ia entrar no mercado na manhã de segunda-feira. Nós fizemos uma oferta, eles aceitaram nossa oferta e nós compramos o apartamento --bem, tecnicamente nós compramos o apartamento no domingo à noite. Isso foi no final de novembro".

"Nas seis semanas seguintes", ele continuou, "pudemos ver o apartamento mais uma vez durante cerca de 40 minutos. Naquele momento decidimos que íamos pintá-lo, remodelar a cozinha --a cozinha não estava em boas condições-- e reformar um dos banheiros.

"Quando começamos a fazer uma inspeção do apartamento, fomos informados de que a fiação elétrica não estava regular; fomos informados de que os encanamentos não estavam regulares. O prédio nos informou que, se abríssemos uma única parede, teríamos de colocar todo o encanamento e a fiação do apartamento inteiro de acordo com o regulamento."

Infelizmente, Johnson explicou, isso ia custar dinheiro. E isso significava vender suas ações da Corvis Corp. por cerca de US$ 23, apesar de ele estar aconselhando os clientes a comprar. Depois a ação caiu para US$ 0,49.

O orçamento original da reforma era de US$ 300 mil, ele disse. "Quando soubemos que tínhamos de reformar a fiação e o encanamento", ele continuou, "estávamos rapidamente nos aproximando de US$ 1 milhão, e nesse ponto soubemos que teríamos de abrir todas as paredes para substituir a fiação e o encanamento, e nesse ponto minha mulher disse: 'Já que estamos nisso, vamos reformar tudo'."

Isso elevou o orçamento da reforma para US$ 1,2 milhão, Johnson continuou, "o que era uma estimativa boa, mas cerca de 50% abaixo do que realmente pagamos no final. E foi antes de decorarmos. Bem, antes de ela decorar."

Ah, isso explica tudo.

E o que dizer das pessoas que seguiram o conselho de Johnson, valorizando ações de empresas como Clarent Corp., Sonus Networks e Oni Systems? Você sabe como é: quando você está no pesadelo de uma reforma em Manhattan, tudo o mais simplesmente parece bobagem.

Enquanto Johnson e sua equipe jurídica decidem como vão proceder, ele está dirigindo a Nicusa Capital, uma parceria de investimentos privados que fundou em janeiro de 2003. Segundo seu site na web, a parceria leva o nome de Nicholas of Cusa, "um acadêmico e teólogo do século 15 que é considerado por alguns historiadores o pai da ciência moderna".

Johnson também é professor adjunto na Escola de Economia de Columbia, onde ensina análise de ações desde 1992. Uma cópia de seu programa diz que os alunos ganhariam pontos extra "por pensamento criativo e análise perspicaz". Provando que a verdade é mais estranha que a ficção, o curso mais recente de Johnson, na primavera passada, foi sobre investimento de valores.

Maria Graham, uma porta-voz da Escola de Economia de Columbia, disse que Johnson não está lecionando este ano. Indagada se o veredicto do júri sobre o caso prejudicaria seu emprego de professor, Graham disse: "Não podemos comentar sobre futuras perspectivas de emprego de qualquer indivíduo".

Bem, pelo menos Johnson não dá aulas de ética comercial. Processo contra um analista financeiro, que cometeu fraudes ao recomendar a compra de ações de empresas de Internet que depois faliram, mostra como os ricos de Wall Street ficam ainda mais ricos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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