UOL Notícias Internacional
 

21/11/2005

Brasil pesa custo e benefício de laço com a China

The New York Times
Larry Rohter

Em Paquiçamba (PA)
Aqui, na grande curva do poderoso rio Xingu, o governo brasileiro está correndo para construir uma barragem que poderá ser a segunda maior do mundo, gerando quantidades enormes de energia hidrelétrica. Mas os principais beneficiários do projeto provavelmente não serão as tribos indígenas ou outros habitantes da região, e sim um governo do outro lado do mundo, na China.

Para satisfazer o apetite de sua base industrial em rápido crescimento, as companhias estatais chinesas começaram a se envolver em projetos de mineração na Amazônia oriental, que vão de alumínio e aço a níquel e cobre. O processamento desses materiais exige grandes quantidades de eletricidade, e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, desejando formar o que chama de "aliança estratégica" com a China, está ávido para realizar essa tarefa.

Enquanto isso, os habitantes do rio cujas vidas serão perturbadas pela barragem prevêem que ela causará extensos danos ambientais e encorajará um influxo de colonos pobres em busca de empregos que não existirão. Eles também se queixam de que não receberão a energia que há tanto tempo pedem ao governo, e serão obrigados a mudar-se.

"Se essa coisa for construída, que Deus nos ajude", disse José Carlos Arara, líder de uma aldeia indígena debruçada sobre o rio. "Os chineses estão muito longe. Mas nós estamos bem aqui, no portão da barragem, sem água, cuidados médicos ou eletricidade, e, em vez de nos ajudar, nosso governo quer piorar as coisas. Se fosse por nós, essa barragem não seria construída."

Mas as autoridades de Brasília prometem que o projeto, chamado Belo Monte, como o local onde será construído, vai controlar o fluxo do rio de modo a minimizar seu impacto sobre os nove grupos tribais que vivem na área. Elas também dizem que, como o Brasil não pode se dar ao luxo de não construir a barragem, pagarão o preço que for necessário para acalmar os céticos.

"Essa é uma obra pública importante para um país como o nosso, que precisa aproveitar melhor seu potencial energético", disse Márcio Zimmerman, diretor de planejamento e desenvolvimento no Ministério das Minas e Energia, em entrevista por telefone. "O norte é uma região que está em processo de industrialização e desenvolvimento, e a energia hidrelétrica é uma fonte duradoura de energia barata e renovável."

Em sua forma original, o projeto Belo Monte data dos anos 70, quando foi apresentado como solução para a escassez de energia prevista para a região sul, a parte industrializada do Brasil. Mas grupos ambientalistas, de direitos humanos e indígenas se opuseram ao projeto desde o início, em parte por causa dos enormes custos eventuais, na casa dos bilhões de dólares. Os grupos lutaram nos tribunais e no Congresso, e quando o governo anterior deixou o cargo, em 2002, uma decisão de um tribunal parecia ter arquivado de vez Belo Monte.

Mas Lula e seu Partido dos Trabalhadores, de esquerda, chegaram ao poder prometendo uma série de iniciativas sociais, incluindo um programa "Luz para Todos", destinado a levar eletricidade para áreas pobres e rurais como esta. Percebendo uma oportunidade, os promotores da Belo Monte tiraram a poeira do projeto e convenceram Lula a transformá-lo em prioridade.

"Houve negligência em não construir projetos hidrelétricos" no governo anterior, disse Lula recentemente. "Com os projetos que estão em andamento, podemos garantir permanentemente" o fornecimento de energia para os consumidores "para cinco, seis ou até dez anos."

Em parceria com a China, o Brasil também está comprometido em grandes projetos industriais na Amazônia, que consumirão grandes volumes de eletricidade e empregarão relativamente poucas pessoas. Entre eles estão algumas grandes usinas de processamento de bauxita, a matéria-prima usada para fazer alumínio, perto de Belém, capital do Estado do Pará na Amazônia oriental.

Uma companhia chinesa pretende construir uma usina de aço em São Luís, na borda oriental da Amazônia, como parte de uma joint-venture com uma companhia brasileira. Em outro projeto, uma empresa brasileira já está construindo uma usina siderúrgica perto de Belém para suprir a demanda prevista dos mercado chinês e americano.

O minério de ferro para esses projetos vem de Carajás, ao sul daqui, que tem as maiores reservas do mundo. O cobre para abastecer a China e outros mercados está sendo extraído da área, e a construção de uma fundição de cobre próxima está sendo discutida.

"Tudo na Amazônia que exige muita eletricidade tem um grande componente chinês e está recebendo forte apoio oficial, apesar de o principal beneficiário ser claramente a China, e não o Brasil", disse Pinto, que escreveu o livro "Projetos Hidrelétricos na Amazônia". "Não apenas os chineses vão investir uma quantia mínima como eles também estarão entregando os problemas da poluição resultante à Amazônia."

O governo Lula, envolvido em um escândalo de corrupção que ameaça suas probabilidades de reeleição no próximo ano, está tão ansioso para seguir em frente com a barragem que em julho convenceu o Congresso a autorizar o projeto, ignorando uma exigência de consultar as comunidades que serão afetadas. Os adversários estão contestando a medida nos tribunais.

"Apesar de a Constituição brasileira dizer que devemos ser consultados, ninguém veio falar conosco", disse Manuel Juruna, líder da principal comunidade indígena. "Queremos que eles saibam que para todos os povos indígenas do Xingu esse projeto só pode destruir nosso modo de vida tradicional, afastando os peixes, secando nossas áreas de caça e trazendo em seu lugar nada além de dificuldades e sofrimentos."

No sul industrializado do Brasil, pouco se falou sobre a ligação da barragem com a estratégia mais ampla de Lula de reforçar os laços econômicos e políticos com a China. Essa política está sendo cada vez mais criticada, especialmente em São Paulo, a capital econômica do país, em termos de que os interesses nacionais do Brasil estão sendo sacrificados. País pode fazer hidrelétrica para facilitar exploração na Amazônia Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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