UOL Notícias Internacional
 

22/11/2005

Líderes do Iraque pedem data para EUA saírem

The New York Times
Hassan M. Fattah

No Cairo, Egito
Na segunda-feira (21/11), pela primeira vez, as facções políticas do Iraque pediram coletivamente por um prazo para a retirada das forças estrangeiras, em um momento de consenso que ocorre quando o governo Bush enfrenta pressão em casa para apresentar um cronograma de retirada.

O anúncio, feito na conclusão de uma conferência de reconciliação realizada aqui, apoiada pela Liga Árabe, foi uma forma pública dos xiitas, que atualmente dominam o governo do Iraque, atraírem os sunitas às vésperas de eleições parlamentares que ficaram ameaçadas após semanas de violência sectária.

Cerca de 100 líderes sunitas, xiitas e curdos, muitos dos quais candidatos nas eleições em dezembro, assinaram um memorando de encerramento na segunda-feira que "exige uma retirada das tropas estrangeiras em um prazo especificado, juntamente com um programa nacional imediato para reconstrução das forças de segurança", disse a declaração.

"O povo iraquiano espera pelo dia em que as forças estrangeiras deixarão o Iraque, quando suas forças armadas e de segurança estarão reconstruídas e quando poderão desfrutar de paz, estabilidade e o fim do terrorismo."

Os líderes xiitas defendiam há muito tempo que a retirada deveria ocorrer de acordo com marcos, e não antes das forças de segurança iraquianas estarem plenamente operacionais. A declaração de encerramento manteve a exigência sunita, mas não especificou quando a retirada deve começar, tornando-a mais um gesto simbólico do que uma exigência concreta a ser seguida pelo governo iraquiano.

A declaração, apesar de condenar a onda de terrorismo que tomou conta do Iraque, também reconheceu de modo geral o direito de resistência à ocupação estrangeira. Este foi outro esforço para ceder aos sunitas, que têm buscado legitimar a insurreição. A declaração condenou os ataques terroristas e o apoio religioso a eles, e exigiu a libertação de prisioneiros inocentes.

Quase todos os delegados pertencem a partidos políticos que representam todo o espectro da política iraquiana.

Mas, apesar de os partidos sunitas reconhecerem suas linhas de comunicação com os rebeldes nacionalistas e tribais, nenhum admitiu quaisquer ligações com militantes como Abu Musab Al Zarqawi, que tem liderado uma onda mortal de atentados a bomba suicidas com seu grupo Al Qaeda na Mesopotâmia.

A declaração foi uma vitória parcial para os políticos sunitas do Iraque, que há muito exigem que os Estados Unidos apresentem um cronograma de retirada.

Apesar da declaração não chegar a apoiar a resistência armada à ocupação, ela reconheceu que "resistência nacional é um direito de todas as nações".

"Esta é a primeira vez que algo assim é dito de forma coletiva e em público", disse Mohammad Bashar Al Faythi, porta-voz do linha-dura Conselho dos Sábios Muçulmanos sunitas, se referindo ao prazo. "Nós conseguimos convencê-los da importância de um prazo para retirada."

O ministro do Interior do Iraque, Bayan Jabr, disse que as forças estrangeiras lideradas pelos americanos devem deixar o Iraque até o final do próximo ano, notando que a prorrogação de um ano do mandato da força multinacional no Iraque, concedida pelo Conselho de Segurança da ONU no início deste mês, poderá ser a última.

"Até meados dos próximo ano, nós já teremos completado 75% da reconstrução de nossas forças e até o final do próximo ano elas estarão prontas", ele disse para a "Al Jazeera", o serviço de Internet e canal de notícias pan-árabe.

A declaração de segunda-feira também fez concessões aos políticos xiitas, ao condenar a onda de terrorismo voltada contra os xiitas, condenando os argumentos teológicos islâmicos inventados para atacá-los e no final legitimando o processo político que tornou os políticos xiitas a força política dominante atualmente no Iraque.

"Alguns dos lados que estavam particularmente sensíveis se abriram com o apoio da Liga Árabe", disse o xeque Humam Hamoudi. "Nós agora vemos claramente que os sunitas entraram na política, e este encontro não mudará isto."

"Se este encontro fez algo, foi confortar os árabes e sunitas iraquianos quanto a todo o processo", ele acrescentou. "A solução começa com os sunitas entrando na política, depois entrando no governo, depois nós fornecemos serviços para suas áreas e então formaremos um governo forte."

A declaração acertada também pediu pela libertação de todos os prisioneiros que não foram acusados ou que são considerados inocentes, e pediu para que os membros da Liga Árabe cancelem as dívidas do Iraque e ajudem na construção das forças de segurança iraquianas.

Talvez a maior vencedora na reunião foi a própria Liga Árabe, composta por 22 membros, que entrou na cena política do Iraque na esperança de repetir o sucesso da organização em 1989, quando intermediou um fim à guerra civil de 15 anos no Líbano em uma conferência semelhante.

O secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, disse na segunda-feira que os resultados da conferência foram um sucesso, mas alertou que as expectativas devem permanecer modestas.

"Ela foi em grande parte um sucesso", disse Moussa aos repórteres. "Nós fomos bem-sucedidos em 70% das questões. Nós avançaremos passo a passo, mas o que aconteceu foi bastante significativo."

Os políticos iraquianos, muitos do quais dispostos a concorrer nas eleições de 15 de dezembro, esgotaram suas diferenças no debate mais aberto sobre o futuro do país já realizado. Desde o sábado, os delegados não perderam tempo para expressar suas queixas e diferenças, após mais de dois anos de violência sectária e terrorismo.

"Mesmo se não houver acordo, nós conseguimos a realização de uma conversa", disse o presidente interino do Iraque, Jalal Talabani, no domingo. Talabani e outros membros do governo evitaram participar diretamente nas sessões a portas fechadas da conferência de três dias.

O encontro no final se concentrou na insurreição do Iraque e suas causas, buscando convencer os sunitas a largarem suas armas e se juntarem ao sistema político, ao mesmo tempo em que forçava os políticos xiitas a reconhecerem as queixas sunitas. No sábado, o presidente Talabani disse que estava disposto a receber os rebeldes iraquianos se abandonarem suas armas.

"Ninguém pode influenciar diretamente a resistência no Iraque", disse Saad Al Janabi, chefe de um partido político. "Mas eles não pretendem manter sua resistência para sempre. Assim que a ocupação tiver fim, vocês verão o fim de toda a divisão e sectarismo."

Desde o início, a conferência esteve envolto em controvérsia, à medida que muitos, especialmente os membros xiitas, eram contra os planos de convidar ex-membros do Partido Baath a participarem. Mesmo a divulgação da declaração foi adiada por objeções de último minuto a vários pontos pelos líderes sunitas. Mas com um pouco de diplomacia, que incluiu o deslocamento da assembléia geral para o gabinete de Moussa para deliberações privadas, foi possível chegar a um acordo no início da noite de segunda-feira.

Autoridades da Organização das Nações Unidas, do Conselho de Cooperação do Golfo, dos Estados Unidos e europeus aplaudiram o esforço de reconciliação. Mesmo assim, muitos dos participantes disseram que não há garantia de que a conferência terá algum impacto direto sobre a violência no Iraque tão cedo. Pela primeira vez, lideranças do país falam em prazo para retirada George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,45
    3,141
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host