UOL Notícias Internacional
 

22/11/2005

Novo partido de Sharon gera incógnita em Israel

The New York Times
Steven Erlanger e Greg Myre

Em Jerusalém, Israel
Ariel Sharon, primeiro-ministro israelense, iniciou o que poderá ser uma importante reordenação da política israelense nesta segunda-feira (21/11) quando deixou o Partido Likud [conservador], que ajudou a fundar. O presidente Moshe Katsav disse que as eleições serão adiantadas provavelmente para março, e o Parlamento votou preliminarmente sua dissolução.

Acredita-se que Sharon conquistará a maior parte dos assentos nas eleições. No entanto, analistas e políticos israelenses vêem uma dura campanha adiante. Ao tentar concorrer no centro com um novo partido, que será chamado de Responsabilidade Nacional, Sharon deve ser alvo de críticas da esquerda, do centro e da direita que abandonou.

No Parlamento, 14 membros do Likud disseram que vão se unir ao primeiro-ministro, que agora se prepara para persuadir uma variedade de centristas e moderados do Partido Trabalhista. A reunião inicial do partido foi celebrada na tarde de segunda-feira.

"O Likud, em sua forma atual, é incapaz de guiar Israel na direção de seus objetivos nacionais", disse Sharon na noite de segunda-feira, em conferência com a imprensa. Ele disse que está montando um "novo movimento nacional liberal" para "estabelecer a fundação do acordo de paz com o qual vamos determinar as fronteiras permanentes do Estado, insistindo que as organizações terroristas sejam desmanteladas."

Ele repetiu, entretanto, que não haverá mais retiradas unilaterais de assentamentos israelenses de territórios palestinos. Ele não descartou, porém, retiradas coordenadas ou negociadas com palestinos sob o plano de paz internacional chamado de mapa do caminho.

Com sua decisão de fazer Israel retirar-se unilateralmente de Gaza e de quatro pequenos assentamentos na Cisjordânia no último verão, Sharon efetivamente voltou as costas para o Likud, e não convenceu uma parte importante do partido sobre a sabedoria de sua opinião.

Agora, Sharon tem a chance de reconstruir a política israelense, mas analistas políticos não estão seguros de que o novo partido terá vida após Sharon.

Gerald Steinberg, professor de estudos políticos da Universidade Bar-Ilan nos arredores de Tel Aviv, chamou a decisão de Sharon de "uma medida na direção do pragmatismo".

"Os dois lados estão se distanciando da ideologia", disse ele. "E o pragmatismo é o trunfo de Sharon. Sharon é o pólo para o qual todos os outros partidos vão olhar para formar um novo governo."

Um bom desempenho de Sharon pode marginalizar o Likud e colocá-lo na oposição, além de destruir a justificativa para o partido secular centrista Shinui. Também pode atrair eleitores da esquerda, preocupados com a segurança e que consideram antiquada as propostas econômicas e o apaixonado estilo socialista do novo líder do Partido Trabalhista, Amir Peretz. Este, porém, por ter nascido no Marrocos, pode conquistar votos de eleitores do Oriente Médio e judeus sefarditas, inclusive alguns que normalmente votam no Likud ou no mais religioso Partido Shas.

Mesmo que o partido de Sharon conquiste a maior parte dos assentos no Parlamento, quase certamente não terá a maioria de 61. Isso vai exigir que monte uma coalizão, que provavelmente será frágil. Por outro lado, se o seu partido não obtiver assentos suficientes para ele se tornar primeiro-ministro pela terceira vez, o cenário político pode estar suficientemente dividido que impossibilitará a formação de um novo governo sem a inclusão de seu novo partido.

"Acho que os partidos vão se unir em torno de três blocos --Sharon, Likud e Partido Trabalhista-- e assim teremos mais coerência no Parlamento, em vez de menos", disse Mark Heller, analista político do Centro Jaffee de Estudos Estratégicos da Universidade de Tel Aviv.

Yossi Alpher, analista de esquerda e editor do site israelense-palestino bitterlemons.org, disse que a visão estratégica de Sharon não estava clara. "Sua plataforma não tem absolutamente nada de novo e é cheia de contradições", disse Alpher. "Quando estava no Likud, fazia sentido depender de uma piscada para que as pessoas entendessem que de fato planejava outra retirada, mas agora não. Ele não descreveu nenhuma iniciativa para os próximos anos."

Como sempre, as eleições israelenses serão influenciadas pelo que acontece na região, especialmente entre os palestinos, que devem ter suas eleições parlamentares no dia 25 de janeiro, depois de muitos adiamentos. A campanha israelense estará então a todo vapor. O grupo militante Hamas está lançando candidatos, mas se recusa a abandonar sua luta armada para destruir Israel. No caso de se sair bem nas eleições, "poderá favorecer Sharon", disse Alpher. "Ele pode argumentar: 'Como vamos negociar com essas pessoas?'"

O novo partido tem suficientes congressistas do Likud para ser considerado uma facção e receber parte dos fundos de campanha públicos que seriam destinados ao Likud. Os desertores incluem o vice-primeiro-ministro, Ehud Olmert, e o ministro da justiça, Tizpi Livni. Este é altamente respeitado no Likud, considerado nobre porque seus pais foram figuras famosas na luta por Israel e no estabelecimento do partido.

Mas a sedução de Sharon ainda não terminou. Ele deve atrair alguns congressistas trabalhistas, como Haim Ramon, e outras pessoas famosas, como Avi Dichter, ex-diretor do Shin Bet, e Dan Meridor, ex-ministro do Likud que quer voltar à política.

Sharon, entretanto, não convenceu o ministro de defesa ambicioso, nascido no Irã, Shaul Mofaz. Este deu entrevista coletiva na noite de segunda-feira, depois de ter determinado ataques aéreos como resposta a um ataque coordenado da Hezbollah do Líbano em três áreas do Norte de Israel. O ataque feriu 11 israelenses, dois seriamente. Mofaz disse que preferia ficar no Likud e concorrer à presidência.

Ele estará disputando o que restou do Likud com o ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que é favorito para presidir o partido e o atual ministro de relações exteriores, Silvan Shalom, popular no comitê central do partido. Mofaz e Shalom, dois sefarditas, argumentam o Likud precisa de um líder sefardita para evitar que Peretz tire votos do partido.

Um alto membro do Likud disse que o partido deve buscar o centro para atrair empresários que gostam da economia mais liberal de Netanyahu. Falando sob condição de anonimato, porque ainda não decidiu se vai se unir a Sharon, ele disse que o Likud "é um partido orgânico, que vai durar" e que políticos profissionais do partido temem que Sharon "tenderá demais para a esquerda, querendo ou não".

Mesmo que Sharon vença, ele terá que criar uma coalizão "com partidos à esquerda dele" disse o membro do Likud. Shlomo Avineri, filósofo político liberal, está convencido de que Sharon vai defender a retirada significativa da Cisjordânia, em nome da consolidação os blocos de assentamentos de Maale Adumim, Gush Etzion e Ariel. A maior parte dos israelenses acredita que estes blocos ficarão com Israel no acordo final.

Mas Avineri também observou que Sharon e Shimon Peres -que perdeu a liderança do Partido Trabalhista para Peretz- são os grandes responsáveis pela retirada de Gaza, que ele chamou da "a coisa mais positiva na frente da paz em décadas". Os dois perderam o controle de seus partidos pouco depois, o que "mostra a volatilidade da vida política dos partidos políticos e que nenhuma boa ação fica sem punição." Primeiro-ministro sai do Likud e embaralha jogo da próxima eleição Deborah Weinberg

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