UOL Notícias Internacional
 

22/11/2005

Rússia tenta controlar o Islã e provoca medo

The New York Times
Steven Lee Myers

Em Tcherkesk, Rússia
As autoridades de segurança daqui, na Karatchaiev-Tcherkássia, uma república indócil na montanhosa fronteira sul da Rússia, têm uma lista secreta de pessoas que são mantidas sob vigilância. As pessoas listadas não cometeram crimes, mas são consideradas suspeitas porque são muçulmanos que praticam o Islã fora das mesquitas sancionadas pelo Estado.

Ovod Golayev está na lista. Ele vive em Karatchaievsk, uma cidade aninhada nas primeiras elevações do Cáucaso, onde trabalha para uma agência de turismo que organiza excursões de esqui e caminhadas. Ele tem cabelo e barba longos. Ele reza cinco vezes ao dia. Ele jejua durante o Ramadã, o que é incomum aqui.

Nas últimas semanas, ele disse, a polícia o deteve quatro vezes, duas vezes em um mesmo dia. Golayev, 36 anos, disse que o Islã que ele segue é contra a violência, mas ele alertou que os maus-tratos aos fiéis está levando homens como ele ao desespero.

"Se eles me pressionarem muito", disse ele, "algum dia explodirei alguém."

Aqui no norte do Cáucaso, assim como por toda a Rússia, a fé islâmica está em ascensão. Assim como a militância islâmica e o temor de tal militância, o que leva a tensões como as sentidas na Europa, onde o afluxo imigrantes do mundo muçulmano está abalando as relações com as sociedades seculares, liberais.

Assim, o governo recriou o sistema de controle da era soviética sobre a religião com o Departamento Espiritual Muçulmano, que supervisiona a nomeação de líderes islâmicos.

Mas os muçulmanos da Rússia não são imigrantes e forasteiros; eles geralmente são os povos nativos de suas regiões. "Eles são cidadãos russos e não têm outra pátria", disse o presidente Vladimir V. Putin em agosto, quando se encontrou com o rei Abdullah da Jordânia.

Na Rússia, a luta em torno do Islã não é vista como uma questão de integração dos muçulmanos na sociedade, mas se o próprio país pode permanecer como um todo. O conflito separatista na Tchetchênia, que já dura mais de uma década, adquiriu um aspecto islâmico. E está se espalhando para além das fronteiras da Tchetchênia no Cáucaso, onde o Islã tem se tornado uma força mobilizadora contra a corrupção, a brutalidade e a pobreza.

Na manhã de 13 de outubro, vários homens pegaram em armas em Nalchik, a capital da república vizinha, Kabardino-Balkária. Eles foram movidos, disseram parentes, pelos maus-tratos contra homens com barbas e mulheres com lenços de cabeça, assim como pelo fechamento de seis mesquitas na cidade. Em dois dias pelo menos 138 pessoas foram mortas. No Daguestão e na Inguchétia, militantes foram responsabilizados por inúmeros atentados a bomba e mortes.

Seguidores de Shamil Basayev, um líder terrorista tchetcheno, reivindicaram a autoria dos ataques mais mortais, incluindo o de Nalchik, um ataque semelhante anterior na Inguchétia e a tomada da escola em Beslan, em setembro de 2004. Em Beslan, 331 pessoas morreram, 186 delas crianças.

Tudo faz parte da meta declarada de Basayev de estabelecer um califado islâmico, unindo um norte do Cáucaso em secessão da Rússia.

Tal meta encontra pouco apoio popular nas outras repúblicas predominantemente muçulmanas da região, mas o descontentamento está aumentando à medida que cresce a repressão do governo. Nem todos os envolvidos nos ataques são combatentes calejados das guerras tchetchenas. Mais e mais se opõem às posições linhas-duras que o Kremlin está adotando contra aqueles que desafiam sua autoridade central.

Fim da repressão traz medo

Em locais como Nalchik e aqui em Karatchaiev-Tcherkássia, muftis e imãs "oficiais" são acusados de buscar manter seu próprio status ao tolerar os esforços do Kremlin para reprimir qualquer um que pratique uma forma "mais pura" de Islã.

Larisa Dorogova, uma advogada em Nalchik cujo sobrinho, Musa, foi um dos que foram mortos em combate, disse que os muçulmanos têm apelado às autoridades, tanto religiosas quanto seculares, para que seja colocado um fim aos abusos contra os fiéis, apenas para serem ignorados. "Se elas tivessem dado ouvidos às cartas que escrevemos --de 400 pessoas, de 1.000-- talvez isto não tivesse acontecido", disse ela.

As autoridades denunciaram aqueles que pegaram em armas em Nalchik da mesma forma genérica que usam para descrever as tropas de Basayev. Putin associou o levante em Nalchik a terroristas internacionais, aos quais chamou de "animais de aparência humana". Mas no Cáucaso, onde a violência de inspiração islâmica já matou muito mais pessoas do que os terroristas na Europa Ocidental, a visão predominante é bem diferente.

"Eles eram todos bons rapazes", disse Dorogova sobre os combatentes de Nalchik.

O paradoxo do Islã na Rússia atual é que os muçulmanos nunca foram tão livres.

O colapso da União Soviética e o fim da repressão à todas as religiões levaram a um renascimento islâmico nos últimos 14 anos. O Islã é reconhecido oficialmente como uma das quatro principais religiões da Rússia, juntamente com o cristianismo ortodoxo, budismo e judaísmo. A Rússia apresentou pedido para se juntar à Organização dos Estados Islâmicos.

Estima-se o número de muçulmanos entre 14 milhões e 23 milhões, entre 10% e 16% da população russa. Eles estão espalhados pelo país, mas congregados em várias repúblicas de maioria muçulmana.

Milhares de mesquitas foram reconstruídas e reabertas, assim como madrassas, inclusive uma aqui em Tcherkesk, onde 66 garotos e garotas aprendem os fundamentos de sua fé. Entre seus professores estão quatro egípcios.

"Nós poderíamos rezar na Praça Vermelha e ninguém se importaria", disse recentemente o imã da mesquita de Tcherkesk, Kazim Katchiyev, após as orações do anoitecer.

Mas tal tolerância está sob tensão. Os fiéis de fora dos departamentos muçulmanos do Estado são cada vez mais vistos com suspeita por causa da radicalização da Tchetchênia e outras repúblicas. Eles são condenados como wahhabistas, seguidores da seita puritana da Arábia Saudita, uma palavra que se tornou sinônimo russo para qualquer militante islâmico.

Mas tem ocorrido uma reação violenta. Em 14 de outubro, por exemplo, um grupo de jovens saqueou uma casa de oração em Sergiyev Posad, perto de Moscou, espancando gravemente um imã. Eles gritavam: "Não há lugar para muçulmanos na Rússia", segundo o Conselho dos Muftis da Rússia, que representa os departamentos espirituais.

O mufti Ravil Gainutdin, o presidente do conselho, disse que o governo precisa fazer mais, se queixando de que a televisão estatal rotineiramente descreve os muçulmanos coletivamente como radicais travando uma guerra santa contra a Rússia, em vez de membros da sociedade russa.

"Se educamos as crianças muçulmanas a serem combatentes rebeles, prontas para lutar, e ao mesmo tempo ensinamos os russos a serem contra os muçulmanos, então não temos a política certa", disse ele. "Assim, a liderança deste país, o governo, deve prestar atenção e responder a isto."

Ele alertou que a política do governo no Cáucaso, e seu fracasso de superar os profundos problemas econômicos e sociais, tem levado alguns a buscarem refúgio no que considera formas indevidamente radicais do Islã.

Controle do Cáucaso

Em Nalchik, muitos muçulmanos culpam o ex-presidente da república, Valery Kokov, pelas tensões que explodiram em violência no mês passado. Seu ministro do Interior respondeu duramente contra aqueles que seguiam os rituais islâmicos. Prisões e espancamentos arbitrários eram comuns.

Muitos entre os mortos em Nalchik não eram combatentes calejados, mas moradores locais agindo segundo o que parecia desespero. Muitos não estavam armados, segundo autoridades, mas esperavam tomar armas das delegacias.

Entre os mortos estava Kazbulat B. Kerefov, 25 anos, um advogado e ex-oficial de polícia. Seus pais, Betal e Fatima, se recusam a acreditar que ele era um militante, mas como muitos ali entendiam o que levou ao ataque. "Não foi um ato terrorista", disse Betal Kerefov em uma entrevista no apartamento da família. "Foi uma revolta."

Ali Pshigotyzhev, 55 anos, trabalhou como locutor na rádio estatal por 30 anos até ser demitido, ele disse, por ter rezado. Seu filho, Zaur, foi preso em 29 de outubro em uma onda de detenções que ocorreu após os combates. Pshigotyzhev acusou os imãs locais de terem endossado a repressão, por medo de perderem seu status.

"As pessoas foram pacientes nesta república, mas paciência tem limite", disse ele na única mesquita de Nalchik. "E ocorreu uma tragédia. E é apenas o início da tragédia."

Tais sentimentos são o que as autoridades mais temem.

Mustafa Batdiyev, o presidente da Karatchaiev-Tcherkássia, disse que sua região apoia abertamente o Islã. Um empresário, ele pagou pela construção de uma mesquita em sua aldeia natal. A república paga para as pessoas fazerem a peregrinação a Meca. O último dia do Ramadã é feriado na república.

Mas os separatistas tchetchenos, ele disse, seqüestraram o Islã para tomar da Rússia o controle do Cáucaso, inserindo uma versão traiçoeira que não é amplamente aceita entre os muçulmanos comparativamente seculares da região. Líderes rebeldes como Basayev, ele acrescentou, estão recrutando ativamente militantes na região, inclusive em sua república, o que justifica a criação da lista de suspeitos.

As pessoas na lista "ainda não violaram nenhuma lei russa, de forma que nenhuma medida, nenhuma força foi usada contra elas", disse ele. "Mas nós estamos falando e explicando à população, de forma a alertar quaisquer possíveis simpatizantes e não lhes dar a oportunidade de atrair mais de nossos jovens para suas fileiras."

Ele acrescentou: "Nós não podemos aceitar nem concordar com a forma como estas pessoas adoram".

Em maio, autoridades de segurança invadiram um apartamento aqui em Tcherkesk, matando seis pessoas acusadas de terrorismo. Cinco eram moradores locais. Entre os mortos estavam duas mulheres, uma grávida de oito meses, segundo Mukhammat Budai, um vizinho da mãe da mulher.

Batdiyev disse que a ação desbaratou um plano de tomada de uma escola, como ocorreu em Beslan, mas as evidências nunca foram detalhadas. Um caso semelhante ocorreu em fevereiro, em Karatchaievsk, a cidade nas montanhas onde Golayev vive sob vigilância e suspeita. Ele adotou o Islã após servir no exército soviético na Alemanha Oriental.

As autoridades, ele disse, temem o Islã por temerem a disciplina que ele exige, o obstáculo que ele oferece em uma sociedade corrupta. "Quem precisa de uma pessoa que não bebe, que não fuma, que tem liberdade?" ele disse sobre a atitude oficial. "Se estou caído bêbado no chão, eu sou mais fácil de controlar." O fim da repressão soviética à religião permite o florescimento de facções radicais; reação do atual governo pode estimular violência George El Khouri Andolfato

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