UOL Notícias Internacional
 

23/11/2005

Júri condena suspeito de conspirar com Al Qaeda

The New York Times
David Stout*

Em Washington
Naquilo que havia sido apresentado pelo Departamento de Justiça como um processo crucial frente ao terrorismo, um estudante árabe-americano do Estado da Virgínia foi reconhecido culpado, nesta terça-feira (22/11) de fomentar complôs junto com membros militantes da Al Qaeda visando a assassinar o presidente Bush e a seqüestrar aviões.

Um júri federal em Alexandria, na Virgínia, considerou Ahmed Omar Abu Ali culpado de numerosas acusações de conspiração visando a cometer atos de terrorismo. O júri rejeitou as alegações dos advogados da defesa, segundo os quais o acusado havia sido capturado por policiais sauditas, que o surraram e torturaram para forçá-lo a confessar.

Abu Ali, 24, um cidadão americano, filho de um jordaniano, que foi criado na região norte da Virgínia, encara agora a possibilidade de passar o resto de sua vida na prisão, quando receber a sentença do juiz Gerald Bruce Lee, do tribunal distrital do Estado, a ser proferida em 17 de fevereiro de 2006.

O Departamento de Justiça considerou o caso como um teste importante para a sua capacidade de utilizar fontes de inteligência do exterior como fontes para instruir um caso criminal num tribunal americano.

Antes do processo, o departamento descreveu Abu Ali como sendo "uma das ameaças terroristas as mais perigosas que a América tenha enfrentado no cenário de crise e de instabilidade mundial que se instaurou depois dos atentados de 11 de setembro de 2001: um militante da Al Qaeda nascido e criado nos Estados Unidos, treinado e determinado a perpetrar ataques mortíferos em solo americano".

Paul J. McNulty, o procurador público do Distrito Leste da Virgínia, declarou, depois do veredicto, que Abu Ali havia representado "uma grave ameaça para a nossa segurança nacional". Ele precisou que o réu havia efetuado operações de reconhecimento em usinas nucleares nos Estados Unidos, obedecendo às ordens dos seus cúmplices da Al Qaeda, e que o complô para seqüestrar aviões que ele estava tramando era "substancialmente similar ao dos ataques de 11 de setembro de 2001".

Contudo, não foi apresentada nenhuma prova durante o processo de que o suposto complô já tivesse alcançado um estágio operacional. Além disso, os advogados da defesa disseram que Abu Ali era apenas um estudante americano que havia viajado para a Arábia Saudita com o objetivo de prosseguir seus estudos religiosos.

"Se ele for mesmo o cara o mais perigoso que eles conseguiram prender, então nós temos bastante sorte", ironizou o advogado da defesa, John K. Zwerling, horas antes, "porque eu não creio que ele seja perigoso, longe disso".

Um outro advogado da defesa garantiu que ele iria recorrer da sentença. "Não há dúvida de que o júri tomou sua decisão, mas a batalha não está encerrada", disse o advogado Khurrum Wahid em entrevista à agência de notícias The Associated Press. "Nós pretendemos agora utilizar o sistema judiciário para provar a inocência do nosso cliente".

Os promotores públicos insistiram sobre o fato de que Abu Ali fora para a Arábia Saudita em 2002 com o objetivo de se tornar um terrorista, por considerar o presidente Bush como "o líder dos infiéis" e, naquela ocasião, ele acabou se encontrando com um líder do alto-escalão da Al Qaeda.

Paul McNulty precisou que terroristas treinaram o réu no uso de armas, na fabricação de explosivos e na confecção de documentos falsos.

Abu Ali foi preso na universidade de Medina em junho de 2003, quando as autoridades sauditas estavam investigando uma onda de atentados com bombas.

O que aconteceu a partir daquele momento é uma questão que está no cerne do caso.

Os promotores disseram que Abu Ali confessou por vontade própria ser um integrante da Al Qaeda e estar envolvido em vários complôs terroristas, entre os quais um projeto de matar pessoalmente o presidente dos Estados Unidos.

Por sua vez, os advogados da defesa sugeriram que o seu cliente havia sido falsamente envolvido pelos terroristas para proteger membros de sua célula que continuam foragidos, e que as forças de segurança sauditas dele arrancaram uma confissão após tê-lo brutalizado durante 40 dias.

Abu Ali havia afirmado, num depoimento durante uma audiência que precedeu o processo, que os seus capturadores o açoitaram repetidamente nas costas, que eles o chutaram no estômago e puxaram com violência a sua barba para obter dele uma confissão que foi filmada em vídeo, na qual ele disse ter se tornado integrante da Al Qaeda, motivado pelo seu ódio pelos Estados Unidos, por estes apoiarem Israel (Abu Ali não testemunhou durante o processo).

Os promotores qualificaram de armação sua alegação de que ele foi torturado. Eles citaram conversas telefônicas que Abu Ali tivera com os seus pais na Virgínia, quando ele estava sob custódia das autoridades sauditas. "Eu estou muito bem de saúde", teria dito ele, segundo os promotores. Estes também apresentaram depoimentos dos oficiais sauditas, segundo os quais eles haviam tratado bem o preso e que este havia falado por sua própria vontade.

Abu Ali ficou retido na Arábia Saudita até fevereiro, quando ele foi trazido para os Estados Unidos. Ele foi indiciado logo após a sua chegada.

O juiz Gerald Bruce Lee rejeitou uma manobra da defesa visando a manter a confissão fora do processo, embora ele também tivesse permitido aos advogados de Abu Ali exporem as alegações de tortura. Dois médicos que examinaram o réu declararam durante o processo acreditar que ele havia sido torturado. Mas dois outros médicos, que testemunharam a pedido da acusação, disseram ter chegado a conclusões opostas.

Concedendo uma permissão pouco comum, o juiz permitiu que o júri ouvisse os depoimentos gravados dos oficiais sauditas a respeito das declarações incriminadoras que eles dizem que Abu Ali fez. A audição das declarações gravadas dessas testemunhas, que incluiu uma inquirição a cargo dos promotores e uma argumentação de defesa por parte dos advogados, foi necessária uma vez que o governo saudita se recusou a liberar os seus funcionários para que eles fossem testemunhar pessoalmente na Virgínia.

O Departamento de Justiça precisou numa nota que foi entregue ao tribunal que agentes do FBI (Bureau Federal de Investigações) haviam sido os primeiros a interrogar Abu Ali, em setembro de 2003, durante quatro dias. Uma vez que a sua intenção, na época, era de colher elementos de inteligência e não de instruir um caso criminal, os agentes do FBI não leram para ele os "Miranda warnings" (leitura das garantias e direitos que todo cidadão tem ao ser preso), nem interromperam o seu interrogatório a partir do momento em que ele exigiu a presença de um advogado, disseram os promotores.

*Colaborou Eric Lichtblau. Um terrorista perigoso, que tramou um atentado para matar o presidente Bush, para a acusação, um inocente estudante para a defesa, Abu Ali, considerado culpado, pode pegar prisão perpétua Jean-Yves de Neufville

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