UOL Notícias Internacional
 

24/11/2005

Atores se superam ao interpretar homossexuais

The New York Times
Caryn James

Em Nova York
As agremiações que entregam prêmios dão realmente muito valor a façanhas de interpretação, desde o nariz falso de Nicole Kidman em "As Horas" ao estado semi-famélico de Adrien Brody em "O Pianista". A tradição já está tão enraizada que Kate Winslet, vivendo uma audaciosa versão cômica de si mesma na série da HBO "Extras", listou a maneira infalível de conquistar prêmios da Academia.

EFE 
Heath Ledger e Jake Gyllenhaal são casal de cowboys em "Brokeback Mountain"
"Daniel Day-Lewis em 'Meu Pé Esquerdo?' Oscar pra ele. Dustin Hoffman, 'Rain Man?' Oscar também", diz Kate na série. "É verdade, você garante um Oscar se interpreta um deficiente mental". Irreverente, imprecisa (o personagem de Day-Lewis não tinha problemas mentais), mas é essencialmente verdadeira nessa piada.

E se tratasse da atual temporada cinematográfica, ela poderia acrescentar um outro fator certeiro: interpretar um personagem gay. Está acontecendo uma explosão de desempenhos magnetizadores de Oscars, em que atores heterossexuais interpretam personagens gays, travestis ou transexuais.

Philip Seymour Hoffman se transforma no personagem gay que está no título de "Capote", enquanto Cillian Murphy vive um travesti na Irlanda dos anos 70 no espirituoso e encantador "Café da Manhã em Plutão", de Neil Jordan. Jake Gyllenhaal e Heath Ledger vivem dois namorados em "Brokeback Mountain" (que estréia nos EUA dia 9 de dezembro), que já é mais conhecido como "o filme dos cowboys gays", o que já rendeu uma piada de David Letterman.

Além disso, atores do primeiro time estão mergulhando de cabeça em personagens nessa linha também em alguns filmes menores. Felicity Huffman vai além de sua personagem dona de casa na série "Desperate Housewives", vivendo um homem prestes a se transformar em mulher em "Transamerica" (estréia nos EUA dia 2 de dezembro) e Peter Sarsgaard interpreta um roteirista gay de Hollywood que tem um caso "no armário" com um homem casado que é executivo dos estúdios (Campbell Scott), num filme atualmente em cartaz nos Estados Unidos, "The Dying Gaul."

A novidade é apenas esse atual conjunto de papéis sexualmente diferentes, já que a idéia em si não é nova. Esses atores de agora estão simplesmente seguindo uma trilha de conquistas dos Oscars, aberta há mais de uma década por Tom Hanks, como um gay portador do vírus HIV em "Philadelphia", seguido por Hilary Swank, em sua heroína moça-rapazinho em "Boys Don't Cry", e por Charlize Theron, cujo papel em "Monster" foi uma espécie de aposta tríplice irresistível para conquista de prêmios: ela ganhou peso, usou dentes falsos e viveu uma lésbica.

Diante das evidências de que serão recompensados por tais ousadias, e como o público agora já acostumado aos personagens gays em filmes e programas de televisão como "Will & Grace", os atores de maior prestígio parecem muito dispostos a aceitar esses papéis. Ralph Fiennes agora está filmando "Bernard e Doris", em que ele interpreta o mordomo homossexual da bilionária Doris Duke (Susan Sarandon).

Até onde se sabe, os atores são heteros (fora um ou outro boato pela Internet, onde você pode encontrar rumores sobre qualquer coisa), o que é um assunto que interessa apenas porque acaba influindo na decisão dos produtores de filmes --especialmente na atual cultura de celebridades, onde a linha divisória entre a vida pessoal dos atores e os filmes nunca desaparece completamente.

E aí Felicity Huffman conta detalhes da fantasia de Halloween do filho dela no programa do Letterman, o nome de Sarsgaard aparece nas colunas de fofoca associado ao de Maggie Gyllenhaal, e claro que ninguém chega a pensar que Huffman era um homem. O fato de conhecermos esses papéis não-ficcionais facilita e possivelmente torna mais aceitável para a platéia de classe média heterossexual --um segmento que, no final das contas, inclui a maioria do nosso público-- a recepção de personagens cujas preferências sexuais não compartilhamos.

Descontado esse pragmatismo politicamente incorreto, a interpretação de personagens gays, travestis e transexuais permite aos intérpretes o manuseio de uma vastidão de artifícios --perucas e figurinos, maneirismos na fala e na postura-- que final das contas têm tudo a ver com Interpretação.

A mágica verdadeira é deixar que as acrobacias dêem passagem aos personagens, o que acontece nos melhores desempenhos dessa lista. Philip Hoffman em "Capote" e Cillian Murphy em "Café da Manhã em Plutão" utilizam os signos exteriores nos figurinos e gestos para chegarem à essência dos homens que interpretam, definindo riquezas de personalidade que perpassam a sexualidade dos personagens, mas que vão além desse mero aspecto sexual.

Truman Capote

A transformação do vigoroso Hoffman é tão completa que você até poderá passar uns cinco minutos boquiaberto se perguntando "Esse aí é mesmo Philip Seymour Hoffman?", até esquecer rapidamente que alguém está ali interpretando. O filme é ambientado no início dos anos 60, quando Truman Capote, já bem conhecido, estava pesquisando e escrevendo o romance "In Cold Blood" ("A Sangue Frio").

Hoffman faz mais que simplesmente incorporar o verdadeiro Capote. Sua articulação afetada e a voz mais-leve-que-o-ar servem para compor o insolente perfil do personagem, que assim demonstra como se considera um ser muito especial. Ele é uma figura à parte da sociedade normal dos anos 60, não apenas por ser gay mas também porque se considera um gênio, exibindo sua sagacidade e seus lampejos com sacadas brilhantes do mesmo jeito afetado com que revira a echarpe sobre os ombros.

Trjeitos e trajes especiais não conduzem automaticamente a tanta profundidade. "Flawless" (Ninguém é Perfeito), o filme de 1999 em que Hoffman interpreta o vizinho travesti de Robert De Niro, mostrou que um bom roteiro também faz falta.

Já o roteiro de Dan Futterman para "Capote" permite a Hoffman investigar a crueldade com que o personagem se relaciona com as pessoas ao redor. Ele pode até se sentir atraído por Perry Smith, um dos assassinos que servem de tema para sua pesquisa; mas ele bajula e seduz para depois abandonar Perry. Ele se sente culpado porque o assassino deve ser executado para que ele possa terminar "A Sangue Frio", mas de qualquer forma fica aguardando ansioso pela execução.

O amante de Capote por muitos anos, Jack Dunphy (Bruce Greenwood), até aparece como personagem, mas propositadamente ele é apenas incidental numa história onde o que conta mesmo é mostrar o autor do famoso livro, em toda a sua ambição auto-suficiente.

"Café da Manhã em Plutão"

Numa atuação igualmente brilhante, Cillian Murphy se serve da postura "cross-dressing" de seu personagem --Patrick Braden, homem que se veste de mulher e prefere ser chamado de Kitten ("Gatinha")-- para transformar "Plutão" num filme inesperadamente tocante. Filho que um pastor irlandês teve com sua bela e jovem empregada, Kitten é abandonado quando bebê na porta de uma igreja, e é adotado por uma mulher que o rejeita assim que vê o garoto experimentando um vestido.

Quando adulto, o colorido figurino e a maquiagem anos 70 de Kitten compõem a atitude dele diante da vida. Sua expressão favorita, uma expressão de desprezo tipo "Fala sério, sério!" é a equivalente ao "Fiddle-dee-dee" de Scarlett O'Hara em "E o Vento Levou".

Mas a atitude descuidada de Kitten é o disfarce e ao mesmo tempo é a defesa do personagem, que descobre que a vida é dolorosa demais, e que sua necessidade de amor e aceitação é grande demais, para ser levada a sério.

O estilo do filme, carregado de humor e de canções pop da época, faz ecoar o jeito escapista e auto-protetor de Kitten. Como tantas mulheres, Kitten tem um péssimo gosto na escolha de homens, e vai se apaixonar logo por um contrabandista de armas do IRA. O protagonista também tem a má sorte de estar numa discoteca quando o local é bombardeado, o que leva a polícia ao erro de prendê-lo pela instalação da bomba. E Kitten ainda pergunta a um dos carcereiros que lhe guardam, "Se eu não fosse um terrorista travesti você casaria comigo?"

Sem jamais perder esse tom arejado e refrescante, e frívolo apenas na aparência, "Café da Manhã em Plutão" permite que o público sinta as emoções profundas que Kitten passa a vida inteira tentando manter a uma distância confortável, até mesmo quando busca a mãe que lhe abandonou quando ele nasceu. Embora Kitten possa ser visto como uma bela mulher assanhada, nós nunca esquecemos que na verdade ele é um homem, e chegamos ao ponto de acreditar tanto no personagem até quase esquecer que é apenas uma interpretação de Murphy.

Não é necessário, e talvez do ponto de vista da conquista de prêmios não seja desejável, que um ator desapareça tão completamente num personagem.

Cowboys gays

"Brokeback Mountain" sugere que uma interpretação mais distanciada e evidente também pode ser emocionalmente tocante. Como Jack Twist, Gyllenhaal aparece no começo do filme numa pose com a mão no quadril, como se estivesse posando para uma propaganda da Gap; felizmente a postura de modelo masculino desaparece logo, mas assinala que, entre os dois personagens, ele é quem está mais confortável na própria pele.

O personagem de Heath Ledger, Ennis Del Mar, é o cara mais taciturno, que coça o queixo e grunhe as poucas palavras que fala, que fica tão desconfortável com seus próprios desejos sexuais, e tão irado consigo mesmo por sentir o que sente, que às vezes não sabe se quer beijar Jack ou enfiar um soco na cara do cowboy mais ousado.

Levando em conta esses estilos contrastantes, não chega a ser surpresa que, depois da exibição de "Brokeback" no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em setembro, as especulações a respeito do Oscar ficaram mais voltadas para Ledger. Ele tem a interpretação menos naturalista. Nós sabemos que Heath Ledger nem sempre fica assim grunhindo e nunca chegamos a esquecer que de fato ele está apenas interpretando.

Esse aspecto não funciona contra o filme, que evidentemente tem o objetivo de atrair um público mais amplo, apesar de algumas inegáveis cenas de sexo entre os dois homens. O romance deles começa em 1963, o que acrescenta um tabu social à história. Mas enquanto o relacionamento prossegue, resistindo por 20 anos apesar das relações conjugais de cada um deles e da distância geográfica, ecoam as emoções que estão presentes em todos os relacionamentos que enfrentam obstáculos intransponíveis.

Há, na verdade, uma série de padrões heterossexuais no filme. Quando Ennis e Jack se encontram para pescarias uma ou duas vezes por ano, "Brokeback" poderia passar facilmente como uma versão para cowboys gays de "Tudo Bem no Ano que Vem", o filme de 1978 em que Alan Alda e Ellen Burstyn se encontram anualmente no mesmo hotel para um caso extraconjugal.

E quando a mulher de Ennis (vivida no filme por Michelle Williams) por acaso vê os dois homens se beijando e não comenta nada a esse respeito, ela proporciona um outro rumo para a platéia heterossexual, como a personagem com a qual podemos nos identificar com maior facilidade. (Como um fator extra em termos de relações públicas, o casal na vida real formado por Williams e Ledger recentemente teve um bebê.)

"Transamerica"

Este filme também trata ostensivamente de relacionamentos humanos, especificamente sobre as relações entre pais e filhos. Felicity Huffman vive Bree, um homem que vive como mulher que, dias antes da cirurgia de realinhamento sexual, vai da Califórnia até Nova York para conhecer o filho já crescido, que ela gerou anteriormente numa função paterna.

Quando o pai-mulher e seu filho atravessam o país numa viagem de volta, eles visitam os pais de Bree e nós podemos observar como a dinâmica familiar mudou ,agora que ela já não atende pelo nome de Stanley.

Mas, apesar do elemento familiar universal, esse filme modesto se apóia mesmo é no desempenho de Felicity Huffman. Ela abaixa o tom de voz, usa perucas bem ostensivas e unhas falsas, e, assim como Cillian Murphy em "Plutão", a atriz permite que a realidade emocional da personagem transpareça através dessa camada de artifícios propositais.

"The Dying Gaul"

Este também é um filme movido pelas interpretações, embora aqui nesse caso isso não chegue a funcionar bem. Como o produtor de Hollywood bissexual, o personagem de Campbell Scott "dá pouca pinta" em seu olhar.

Quem "solta a franga" é o personagem de Peter Sarsgaard, e ele escancara até o ponto da caricatura, num desempenho onde fala com tanta delicadeza e frescura, com direito a todos os "esses" entre os dentes, que faria do Jack da série "Will & Grace" um tremendo de um machão por comparação.

Esse filme de suspense psicológico tem a ousadia de transformar o simpático personagem de Sarsgaard num vilão mortal, depois que é arruinado pelo executivo de Hollywood. Mas "The Dying Gaul" (que é o primeiro filme igualmente escrito e dirigido por Craig Lucas, mais conhecido pela autoria de peças e roteiros como o do filme "Meu Querido Companheiro") é concebido através de um estilo claustrofóbico e com um roteiro cheio de absurdos.

Nenhum truque de interpretação, por mais energético que fosse, poderia salvá-lo. Ás vezes os maneirismos funcionam a favor dos personagens, mas às vezes um truque permanece apenas como um simples truque. Personagens gays de novos filmes poderiam criar padrão no Oscar Marcelo Godoy

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