UOL Notícias Internacional
 

24/11/2005

Orientação antigay do Vaticano assusta padres

The New York Times
Laurie Goodstein

Em Nova York
Um dia depois da divulgação de uma nova diretriz do Vaticano que impede a maior parte dos homossexuais de entrar no sacerdócio, alguns padres se dizem chocados com uma cláusula que poderia passar despercebida.

Ela afirma que diretores espirituais e confessores em seminários "têm o dever de dissuadir" os candidatos "que demonstrem tendências homossexuais arraigadas" de buscarem a ordenação.

Os padres disseram que isso tornaria as sessões de confissão e aconselhamento espiritual, consideradas privadas, em um instrumento para tirar gays dos seminários.

"O relacionamento entre o seminarista e seu confessor ou diretor espiritual não deveria servir para fiscalizar documentos da igreja, e sim como orientação espiritual", disse o reverendo Michael Herman, padre da arquidiocese de Chicago que se identificou publicamente como homossexual recentemente para falar contra a ação do Vaticano.

"Eles chegaram a dizer que o papel do confessor e do conselheiro espiritual é convencer você a desistir" de se tornar padre, disse Herman.

Sua reação ao documento foi igual à de outros padres e organizações católicas. Eles disseram que o decreto é discriminatório e prejudicial a padres gays castos e que apenas exacerbará a falta de clérigos católicos, a qual já é profunda.

Mas essa foi apenas uma das reações à diretriz do Vaticano, que especialistas da igreja dizem ser intencionalmente imprecisa e passível de interpretação.

Alguns padres e membros da igreja disseram que viam o documento como uma correção do que eles chamaram de sub-cultura gay em alguns seminários. Outros disseram que meramente reitera uma política que já existe e terá muito menos impacto do que dizem os defensores e opositores de padres gays.

"Não há nada nesse documento que requeira uma mudança nas práticas atuais", disse o reverendo James Bretzke, professor de teologia e estudos religiosos da Universidade de San Francisco.

Segundo ele, há muito que alguns bispos e superiores americanos que chefiam ordens religiosas desqualificam automaticamente candidatos ao sacerdócio que se dizem homossexuais, enquanto outros os consideram.

"A não ser que você tenha uma massa crítica de bispos e superiores religiosos dizendo que agora não podemos aceitar homens gays, não acho que (o documento) vai ter um efeito discernível", disse Bretzke. "Há muitos excelentes padres e seminaristas gays e temos uma falta de padres. Não estamos exatamente com excesso de oferta. Se você não vai ordenar homens gays, nem homens casados, nem mulheres, bem, quem sobra? Não é exatamente uma grande amostra."

Estimativas da percentagem de padres gays variam entre 10% e 60%. A diretriz se aplica apenas a seminaristas -não a padres ordenados.

O documento, escrito em italiano, foi divulgado no site da Web católico italiano na terça-feira (22/11), uma semana antes de o Vaticano lançá-lo formalmente em Roma. Ele foi assinado pelos diretores do escritório do Vaticano que supervisiona a educação católica e aprovado pelo Papa Bento XVI.

Desde 1961 que as diretrizes do Vaticano proclamam que a igreja não deve ordenar homossexuais. Mas o atual documento vai além e diz que os responsáveis têm que fazer um "julgamento moral" sobre a sexualidade do candidato, e se esta deve desqualificá-lo.

"A igreja, apesar de respeitar profundamente as pessoas em questão, não pode admitir no seminário ou nas suas Ordens Sacras homossexuais ativos, quem têm tendências homossexuais arraigadas ou apóiam a chamada cultura gay", afirma uma importante passagem. "Essas pessoas, de fato, se encontram em uma situação que seriamente as impede de se relacionarem de forma adequada com homens e mulheres."

O documento não define "tendências homossexuais arraigadas", e o significado foi debatido na quarta-feira. O reverendo Richard John Neuhaus, editor da First Things, publicação conservadora sobre a religião e a vida pública, disse que o Vaticano estava se referindo a "desejos do mesmo sexo, dominantes ou exclusivos".

Bretzke, da Universidade de San Francisco, disse que o Vaticano quis dizer "atividades" como freqüentar casas de banho ou bares gays ou ver pornografia na Internet.

O reverendo Stephen P. Rossetti, psicólogo e presidente do St. Luke Institute em Silver Spring, disse que os bispos vão precisar de mais consultas para saber como aplicar as regras do documento.

O texto está claro, entretanto, sobre o papel do diretor espiritual -padre, freira ou até leigo designado a cada seminarista para conversar com ele sobre sua vida espiritual, em reuniões que devem ser privadas e confidenciais.

"Se um candidato é ativamente homossexual ou demonstra tendências arraigadas, seu diretor espiritual, assim como seu confessor, têm o dever de dissuadi-lo, em consciência, de continuar em busca da ordenação", afirma o documento. A diretriz não sugere que o diretor espiritual viole a confidencialidade ou informe a outros da homossexualidade do candidato.

Um padre gay em Boston que não quis se identificar por temor do atual clima, disse que seu diretor espiritual sabia de sua sexualidade e, de fato, estimulou-o a se candidatar à ordenação.

Esse padre, que atualmente é diretor espiritual, disse que se um homem gay se candidatasse ao sacerdócio ele "o avaliaria com base na pessoa completa. O papel de diretor espiritual não é afastar as pessoas da vocação, mas ajudá-las a entender o que Deus as está chamando a fazer."

Ao menos um seminarista gay já desistiu antes da adoção do documento. Tim Powers, 30, disse que deixou o Holy Name College, em Washington D.C., em outubro porque estava tendo dificuldades com o celibato e queria ter uma vida mais honesta. Ele disse que conversou com sua diretora espiritual sobre o conflito.

"Ela e eu entendemos que era algo que eu tinha que tentar resolver de uma forma autêntica e íntegra", disse ele. "Sair foi decisão minha." Para muitos, decisão discrimina os religiosos homossexuais castos Deborah Weinberg

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